​Quando a vida nos leva a sítios…

[NÃO CONTÉM SPOILERS] O que tipo de pessoa és? Se neste momento estivesses em frente ao espelho e perguntasses áquela figura, bem menos atraente que a sua versão do Instagram, o que te define, que resposta obtinhas?

“The Good Place” é a historia de quatro pessoas, individuais na sua personalidade e um colectivo naquilo que as define. Pretende explorar a ideia de redenção depois do derradeiro juízo final, ou melhor, se é possível mudar o balanço depois de se encerrar a conta no banco. Embora tudo decorra num ambiente leve de comédia, as perguntas que a série levanta são a raiz dos pensamentos mais filosóficos. Mas, e não estarei a fazer um esticão em o afirmar, o derradeiro objectivo acaba por ser as questões que levantamos sobre nós mesmos.

És aquilo que queres ser?

Seria fácil assumir que somos a soma dos nossos actos, mas não é também correcto dizer que somos a ausência deles? Os maiores arrependimentos, angustias e dissabores surgem de momentos em que decidimos não tomar uma acção e, se repetirmos muitas vezes o costume, isso define-nos mais do que desejaríamos. Sendo assim, fizeste tudo o que querias fazer? Se não… porquê? O que te impede? Na série essa opção está algo vedada, já que as personagens têm o “cadastro” registado e é-lhes impossível mudar o bem/mal que fizeram como de seres vivos. Mas tu estás vivo… mudarias algo com segundas oportunidades? Acreditas que é tarde de mais para redefinires a tua auto-imagem?

Se és aquilo que queres ser, consideras-te uma boa pessoa?

Para lá do sentido de cidadão útil para a sociedade, se tivesses que colocar o teu coração na balança com a pena, farias de consciência tranquila? O peso dos actos destas personagens paira constantemente sobre as suas cabeças mas nem sempre isso lhes pesa, pior, aquilo que seria mais condenável nem sequer é consciente. Só quando confrontados com outros pontos de vista, outros ângulos de visão e constatação da consequências dos seus actos é que percebem a falha na razão. Traços de personalidade que podiam ser considerados métodos de auto-protecção, generosidade, liberdade e inclusão são vistos como inconsideração, ciume, rebeldia e insegurança. É por isso que é importante nos rodearmos por quem nos quer bem, mas também por quem desafia constantemente os nossos actos. Ser um porta-estandarte das nossas falhas não define um bom amigo/amante ou familiar. Na serie os maiores desafiadores das personagens são os outros membros do grupo, porque o status quo que os une torna-os os melhores avaliadores do semelhante e permite o crescimento e reformatação. Mas essa figura desafiadora surge também na personagem de Michael, que representa de uma maneira brilhante o “mundo lá fora”: às vezes quer enganar-nos, às vezes quer apoiar-nos, por vezes tenta ensinar-nos algo ou guiar pelo meio do labirinto. Mas no fim a decisão tem de ser sempre tua. Se tivesses que dizer já, definias-te como boa pessoa?

Tens medo de quê?

“The Good Place” tem este aspecto relativamente bem vincado: temos medo do Juízo Final. A derradeira avaliação do plano celestial sobre o plano real. Mas será essa a Força que orienta a maior parte de nós? Se deres por ti numa bomba de gasolina, e à tua frente estiver uma revista com preço absurdo ou um simples chocolate, o que te impede de o roubar? Muitos dirão rapidamente que não foram educados assim, mas essa “teoria” cai por terra quando pensamos o quão diferentes somos da educação a que fomos submetidos. Os nossos educadores apresentam os alicerces e fazem por nos mostrar como viver, sim, mas tu és francamente diferente desse modelo de barro. A vida moldou-te, o teu único fio de raciocínio fez-te chegar a conclusões diferentes. Se o teu pai te disse que fumar faz mal e fumas, não será o facto de ele te dizer para não roubares que te vai impedir. Talvez o medo de desiludir quem te é mais querido? A segunda resposta mais lógica é o medo de ser apanhado. Não é de todo absurdo dizer que cometeríamos actos legalmente condenáveis mais vezes se pensássemos que iríamos ficar impunes (prego a fundo sim, mas abrandas nos radares). Embora isso possa ser aplicado neste cenário, mais o factor “vergonha de ser apanhado”, talvez não se aplique quando pensamos em crimes como o homicídio. Há algo mais em jogo, a marca na alma é maior.

Como comédia, a serie não mergulha nesse lago negro de crimes, as personagens são vítimas do seu egoísmo, indecisão, avareza e… estupidez. Talvez entre aqui o factor “Deus”. É a ideia de uma prova oral à porta do Céu que te faz controlar os impulsos? O teu medo/respeito/recompensa a longo prazo vs prazer a curto prazo, o que te impede de seres uma pessoa pior? Não podemos assim julgar alguém para lá dos actos? O medo de Deus ajudou a controlar o Homem durante séculos, mas será ainda relevante hoje em dia?

Tu és a pessoa que és, num bom ou mau sítio…

Independentemente da versão cor-de-rosa ou negra com que vejas o mundo, tu és aquilo que desejas ou não ser. O que a serie nos tem mostrado, principalmente pelos olhos de Eleanor, é que mesmo confrontados com espadas e paredes, é possível manteres-te fiel a ti próprio. E se o teu Eu até ao momento não é flor que se cheire, é possível manter a convicção de mudança e de que mereces algo melhor. A vida pode tratar-nos bem ou mal, mas o mais importante é aquela voz que está sempre lá. Eu acredito que depois de considerados todos os factores, é a essa a voz que devemos explicações. Eleanor, Chidi, Tahani e Jianyu percebem duas temporadas depois que embora nem sempre sejam as melhores versões possíveis, quando chega a altura tomam a decisão certa, aquela que vai mais de encontro à voz que esteve sempre lá. É por isso que investimos tanto no seu destino e decisões, porque nos revemos nelas e queremos acreditar que também somos boas pessoas. O que é preciso é não silenciar a voz e não esperar pela decisão final do Juiz para decidir que está na altura de mudar o que está mal.

A segunda temporada acaba no mesmo tom, a de nos fazer questionar. Há agora uma ligeira noção de “destino” ou pelo menos “intervenção divina”, mas isso é todo um outro texto… o importante a reter é que “The Good Place” nos mostra que é possível entreter e desafiar. Que questionar o que nos rodeia, e a nós próprios, nos pode literalmente abrir os olhos para novas realidades. Recomenda-se a quem não tem medo de perguntas… e tu, vais ver?!

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