2049 em 2017 por quem não gostou de 1982…

[SEM SPOILERS] Com o tempo um gajo que escreve sobre este tipo de conteúdos adquire uma certa reputação (pelo menos é essa a intenção), permitam então que cilindre desde já a minha: Blade Runner é boring as hell!

Em pleno 2017, e com mais filmes que o normal Joaquim, Blade Runner é daqueles cultos que sempre me passou ao lado. A vontade de ver esteve sempre lá mas não passou de uma declaração de intenções. Como fá assumido de Dennis Villeneuve, que eu acredito se tratar do próximo Spielberg no que toca a talento reconhecido, queria abordar o seu novo projecto com todas as cartas no baralho. Queria que nada me passasse ao lado e pudesse absorver todo o suminho que 2h30 de arte pudessem espremer. É com tristeza minha que anuncio que não gostei nada do culto de 1982. É um filme profundamente aborrecido, não do ponto de vista de não ter conseguido relacionar-me com o tema ou não gostar de sci-fy, mas estamos a falar de uma película que consiste em 45% em cenas de Harrison Ford a olhar pela janela de um carro. Percebo o facto vanguardista para a época, mas não acredito que sobreviva ao passar do tempo, muito menos no que toca à representação… que chega a aleijar. Tenta ser demasiado artista e diferente e acaba por não agarrar como filme. Talvez o problema seja tê-lo visto agora e observá-lo pelo prisma de quem já viu esta temática mais vezes que arroz com frango.

Fui então para versão em 2049 com o fogão a meio gás, literalmente 6h depois de degustar a colheita vintage de 82, esforçando-me para que o ânimo não sofresse com isso. De todos os filmes que pudesse desejar que não fossem tão fiel ao original, é com pena que digo que este é uma verdadeira homenagem. Villeneuve “copia” o ar e dá-lhe uma lavagem que títulos como “Arrival” lhe permitiram explorar anteriormente. Substitui contemplações no carro sobre uma Los Angeles aborrecida à noite, por uma Las Vegas dourada, uma chuva no para-brisas entusiasmante e um menáge-à-trois em algo que nem as esposas diriam que não. As cores, os planos, a mistura de tecnologia analógica com a fringe catapulta-nos para o título mais sci-fy que tive possibilidade de presenciar. Tudo neste filme é pensado e mostrado com um intuito e é como ver o Louvre sem sair do lugar. A representação está a um nível superior e exemplo disso são os momentos em que as personagens se alteram, que gritam, e nos faz sobressaltar e realmente sentir o impacto da emoção. Não há um elo fraco e há um tempo que não via Harrison Ford a querer mesmo fazer um filme! Outro factor importante de realçar é que 2049 funciona perfeitamente isolado. Obviamente a história do primeiro ajuda a mergulhar mais rápido na história, mas não é fundamental. O filme não tenta lançar um universo nem acaba a pensar num terceiro filme, dá-nos uma sensação de satisfação por si só. Infelizmente tem meia hora a mais. Não é o típico comentário de quem não tem paciência para a contemplação, é só de quem acha que por vezes há quebras de ritmo e cenas demasiado longas. Não há uma sensação de arcos desnecessários ou que acabam por não recompensar, mas se o filme em si fosse mais curto podia acrescentar “intensidade constante” à lista de qualidades.

Na minha sala houve cinco pessoas que saíram a meio do filme, talvez enganadas por um trailer que lhes induziu uma ideia de filme de acção. Blade Runner 2049 é mesmo uma obra prima em termos técnicos, com um homem atrás da lente e um elenco à frente dela que sabem o que fazem. Infelizmente, para o meu gosto, é demasiado fiel ao original e dá um trago ácido à experiência. Ainda assim recomendo a visualização em cinema, porque é um delight para os olhos e todos os planos devem ser degustados…

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