A maravilhosa história das anti-freiras…

[NÃO CONTÉM SPOILERS DE “THE HANDMAID´S TALE”] Qual é a vossa noção de pesadelo? Não me refiro a psicadélicos episódios durante o sono mas algo que mudasse radicalmente o vosso mundo, em que sentissem constantemente medo do futuro.

May the Lord open…

Muitos dirão que a realidade de “The Handmaids Tale” é cinemática e exagerada. Mas é seguro dizer que vivemos em tempos de panela quente. A noção de estranho e escandaloso mudou radicalmente nos últimos anos, mas somos sapos na panela em lume brando. Aceitando mais e mais a cada dia… Aceitem então entrar na revolução civil de ideais de extrema direita nos Estados Unidos, em que um novo tipo de ditadura e fascismo conquista todos os quadrantes da sociedade sob o efeito dominó. Em cada episódio aprendemos mais sobre esta cultura e descobrimos novos fundos pelos olhos da protagonista.

Praised be…

Offred é uma barriga de aluguer com direitos de escrava e estilo de freira. A humanidade intoxicou-se ao ponto da infertilidade, e mulheres como ela, férteis, são adoradas tanto como são oprimidas. Um instrumento, objectos de falsa adoração. Mas o que torna a história profundamente envolvente não é a premissa, mas a entrega. É na perspectiva de Offred/June que vamos espreitando pelo canto das asas/palas os horrores desta ordem/opressão. E os seus olhos falam mais que parágrafos debitados. O como, o quem e o porquê da revolução são explicados em flashbacks que funcionam como poços de ar, momentos em que respiramos ligeiramente de “alívio”… em que o alívio é só e apenas a morte da democracia e liberdade. Elisabeth Moss brilha como é seu costume, mas é no forte elenco secundário que se consolida a qualidade. Yvonne Strahovski e Alexis Bledel mostram um nível que lhes desconhecia, Samira Wiley continua a afirmar o talento, Madeline Brewer é deliciosa na loucura… todo um “clero” de actrizes que elevam a escrita ainda mais alto.

Under His Eye…

Não só a actriz é cativante e brilhante na entrega, mas o trabalho da câmara triplica a sensação de perseguição e medo que ela sente em todas as cenas. A história é contada no pacing (lento) certo, a narração faz a conexão entre ela e o espectador mas é câmara quem define o tom. É claustrofóbico e minimalista bem para lá do confortável. Mais do que retratar acontecimentos, o foco é na face de Olfred e no que ela sente nesses acontecimentos.

Blessed Be the Fruit…

A escrita é boa, a premissa intriga, o elenco cativa, a cinematografia impressiona… O que desilude então aqui?! A única coisa que se lhe pode apontar é que não vos dará propriamente prazer vê-la. Tudo se desenrola num ambiente deprimente e pesado que irá despertar sensações fora do comum num produto televisivo. A crueldade da imagem e o suspense do som vai provocar revolta pela injustiça, mas é o catalisador para ver o próximo episódio. Não vejam os episódios para relaxar, mergulhem como todos os aspectos da série se comprometeram para criar, muito provavelmente, a melhor temporada de 2017.

Aconselho este vídeo que explica bem a cinematografia adoptada na série. Fica também o trailer da segunda temporada que estreia, ditou a coincidência, no dia em que celebramos a nossa independência e liberdade. É um episódio por dia para aderirem a esta religião.

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