Aos bocadinhos, para saborear…

*Usar voz de idoso* eu ainda sou do tempo, em que só se via um episódio por semana… e era motivo de festa quando havia episódios duplos… a juventude de agora não sabe o que sofríamos! *tossir com falta de ar*

Pois é gente boa, lembram-se de um mundo em que as únicas séries que vinham da internet eram as pirateadas? Em que uma temporada de Prison Break cabia em dois dvd de 12 episódios cada, como quem enfia uma luva de cetim? Não foi assim há tanto tempo que a network dominava completamente a produção em massa e cabia às de cabo as produções premium e adultas. As ABC/NBC/FOX/CBS/CW desta vida ganhavam o público e o cabo ganhava os Emmy. Todos viviam em harmonia e havia paz no mundo. Até ao dia em que começa a haver mais do que pornografia na internet…

O binge watching tem, como tudo na vida, coisas boas e coisas más. Conseguiu prender o espectador sem paciência para esperar semanalmente por um novo episódio. Essa comodidade pode parecer insignificante para quem acompanha a televisão há mais anos, mas é um sistema que permite não só a gestão individual com que se devora uma temporada, como fornece uma maior sensação de conclusão. Vemos num instante e temos de esperar um ano à mesma, mas o “assunto” fica despachado. É difícil argumentar contra este raciocínio.

O senão, e permitam que à alma de velho acrescente a pomposidade do puritano, é que se perde a “maturação” dos episódios. Um dos grandes motivos do sucesso de Lost foi a discussão criada entre episódios, com os fãs a atirar teorias sobre o que estava a acontecer. Isso acabou por interessar os que os “ouviam”, chamando mais gente para a frente da tv. O entusiasmo com que os fãs esperavam por novas temporadas e discutiam os acontecimentos semanais de Game of Thrones explica todo o seu sucesso. A lei do “passa a palavra” é rei na altura de uma série crescer. Mais recentemente temos Chernobyl. O interesse demonstrado pela história real à medida que a história ficcional se desenrolava foi incrível de observar. Tivesse a HBO dado a série em pacote e não nos tinha feito pensar tanto no assunto. Considero fundamental o doseamento e o processo de reflexão para uma série ter impacto no espectador. Sim, pode-se argumentar que é possível criar “sururu” com o binge, “La Casa de Papel” é exemplo disso… Mas não acredito que Breaking Bad consiga provocar o mesmo impacto na Netflix que causou quando passou na AMC. The Handmaid´s Tale precisa da semana de pausa para nos deixar a digerir os acontecimentos e peso deles, senão, um novo episódio faz rapidamente esquecer o final do anterior, que a série tanto se esmerou por tornar memorável.

A isto podemos acrescentar o facto da Netflix abusar do nosso comprometimento em devorar episódios, enchendo temporadas com fillers. Episódios de encher chouriços sempre foi uma realidade, mais ainda quando as temporadas se prolongavam para lá dos vinte por ano. Mas foram essas regras que a Netflix pretendeu quebrar, com temporadas mais condensadas, juntamente com a duração padrão dos 42 minutos e renovações parvas só para activar a sindication. Nem da indecisão da renovação/cancelamento nos livramos! O serviço de streaming agora cria tanta palha que nem o gigante se pode dar ao luxo de dar final a tudo. Aliás, há agora uma quase eutanásia anunciada, com muitas a acabarem ao final da segunda temporada. A companhia não nos enganou, mas fez-nos sentir enganados ao nos deixar depositar nela a esperança da utopia seriólica.

Estudos revelam que nunca os jovens praticaram tão pouco sexo. Há uma clara preferência em ficar a marinar no sofá, lambuzando episódio atrás de episódio, sem que nenhum membro do casal seja corajoso o suficiente para interromper o fluxo. Qual a solução? Serem vocês próprios a controlarem a ingestão. Em vez de ligarem temporadas directamente à veia, vejam de modo doseado e falem do que viram. Acreditem quando vos digo que vai saber melhor no final. Um vulgar chocolate come-se sem olhar a cubos, mas com os Ferrero Rocher temos de esperar pelo Inverno, vem em doses pequenas e cada um deles obriga a que apreciemos o dourado da embalagem…

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