As pior série que eu já vi… e porque é The Walking Dead!

Ao longo destes anos, muita coisa do arco-da-velha me passou pelas mãos. Realmente quando um gajo é novo sujeita-se a cada uma… Tudo o que vem à rede é peixe e nem esboçamos um “nah”. É o que dá ir à caça com fome, os olhos enganam e queremos agarrar mais do que aquilo que nos faz bem. Mas falemos antes de séries…

Fall season, meus jovens, era quando as séries novas saíam todas mais ou menos no mesmo mês e não a cada semana, como agora. Houve uns anos em que vi todos os pilotos da nova season. O que quer dizer que muita bosta líquida passou pelo filtro, ou melhor, não havia filtro. Backstrom (FOX) foi dos piores pilotos que já vi, a ABC deu-nos pérolas como Once Upon a Time in Wonderland, Ravenswood, 666 Park Avenue, um dejecto de seu nome Killer Women e provavelmente a pior sitcom, Work It. Se falarmos de sitcoms podemos incluir também aqui Guys With Kids (NBC), Saint George (FX) e até a casa de sitcoms de sucesso, a CBS, deu-nos Sh*t My Dad Says e ¡Rob!.

Mas não é só de comédias que se faz os desastres. No tempo em que ainda tolerava o canal Syfy, a estação deu-nos Bitten e Sanctuary, a NBC achou por bem fazer em remake de Knight Rider com pior qualidade que o original e tentou dar vida a super-heróis com The Cape. Mas se é para raspar mesmo o tacho, a CW é rainha. The 100, Star Crossed e Supergirl, têm pilotos incrivelmente pobres e cheios de clichés adolescentes, apesar de algumas delas terem amealhado uns tantos seguidores fieis.

Mas engane-se quem pensa que são projectos de backup. Estamos a falar de projectos com elencos competentes e fortes campanhas de marketing: ABC apostou tudo em Flashforward com Joseph Fiennes e V com uma desconhecida Morena Baccarin (e com a pior actriz de todos os tempos, Elizabeth Mitchell, mas isso fica para outra altura). Na CW, Beauty and the Beast e Ringer trouxeram de volta Kristin Kreuk (Smallville) e Sarah Michelle Gelar (Buffy), na NBC criaram Awake com o fantástico Jason Isaacs e Crisis teve um elenco que incluía Gillian Anderson. A CBS tentou fazer A Gifted Man com Patrick Wilson e Under the Dome com Dean Norris (não sei como é que esta durou tanto tempo). Engane-se também quem pensa que isto é problema só da Network, porque a AMC desperdiçou Mark Strong e Lennie James em Low Winter Sun e a TNT usou Sean Bean em Legends. Todas elas más, todas elas a nos fazer questionar o que raio estavam aqueles directores de canal a pensar quando acharam que era boa ideia pôr estas…coisas… no ar.

Onde começa a entrar verdadeiramente a minha culpa foi quando decidi ignorar completamente os meus girinos instintos e continuar a ver para lá do piloto. Séries que apostavam na ficção-cientifica e tinham bolsos mais cheios (Terra Nova (FOX), Revolution e The Event (NBC), Defiance e Stargate Universe (Syfy), Falling Skies (AMC), etc). Eram tentações fáceis para quem se iludia com fogo-de-artificio. Mostravam sinais de ou não saberem para onde iam ou que simplesmente não sabiam que tipo de séries queriam ser. The Following (FOX), com Kevin Bacon e James Purefoy, não sabia se era thriller, acção ou o raio que lhe valha, DaVinci’s Demons (Starz) começou por mostrar o génio renascentista como um savant e acabou a pintá-lo como um feiticeiro.

Depois temos aquelas séries que percebemos só (demasiado) tarde em que buraco estávamos metidos. The Vampire Diaries (CW) foi a história que Twilight não nos tinha dado. Tinha um duo que interessava ao público feminino (e um elenco secundário que agradava ao masculino) e uma história interessante. Quando demos por nós já havia feiticeiras, doppelgangers e tudo a comer-se, literalmente e sexualmente, num episódio para trocar de raça no episódio seguinte. 2 Broke Girls nunca foi extraordinária mas chegou ao ponto em que desistiu e passou a ser só brejeira. Arrow (The CW) era uma lufada de ar fresco e chegava por um canal que nos habituou ao pior… e finalmente cumpriu a tradição e tornou-se intragável. Californication (Showtime) teve uma das mais inteligentes temporadas de estreia morfou num porno dos rascas. Prison Break (FOX) conquistou o mundo! Vi os primeiros 24 episódios em dois dias. O que a série se tornou na terceira e quarta temporadas só pode ser descrito como um acidente entre um comboio e uma carroça que transporta estrume para lá da data de validade.

Temos ainda uma subclasse de séries que vão sobreviver às baratas que sobreviveram ao holocausto nuclear. Supernatural e Grey’s Anatomy são bichos especiais que por razões muito particulares sobrevivem ainda hoje. Uma porque o duo protagonista está confortavelmente entretido a filmar o tipo de série que queriam fazer e a outra porque anexou novo talento ao fim de nove anos (como que um parasita) e transformou a sua principal âncora na chefe do projecto. Para Supernatural fiquei para o fim (que será este ano se o Corona deixar) e Grey’s abandonei aquando Sandra Oh. Não me arrependo nada, até porque acho que apanhei clamídia só de ver tanta troca de casal naquele hospital.

Prefero não incluir procedurals, porque na verdade, a culpa morre sozinha. São o que são. Séries como Castle e Bones acabaram mal e os CSI’s desta vida simplesmente foram passando de moda. São geneticamente produzidos para ser consumidos sem qualquer sensação de fidelização ou de culpa por quem faz zapping e deixa ficar naquele canal porque não há mais nada de jeito às duas da manhã.

Abordemos então os casos mais sérios. Séries que não me iludiram porque foram francamente boas. Aclamadas por público e crítica, com temporadas iniciais do que de melhor se faz nos respectivos géneros, mas que acabaram tão mal que quase estragaram o seu legado. Refiro-me a comédias The Big Bang Theory e de dramas como House of Cards. Séries que só precisavam de manter o ritmo de corrida e acabar com classe, mas preferiram torcer o pé, cair sobre a mesa e puxar a toalha a quem assistia pacatamente à maratona. Recuso-me em aceitar que o início de qualidade foi obra do acaso, assim como fico incrédulo quando penso nas decisões erradas tomadas em cadeia. Lost não reúne muito consenso sobre o final (na minha opinião desastroso), mas Dexter vinha a rapar tudo o que era prémios e Michael C. Hall era excelente, How I Met Your Mother tinha todo o elenco original até ao final (o que nem sempre acontece em comédias longas). Heroes teve uma primeira season a raspar a perfeição, com um dos melhores vilões de sempre (saudoso Zachary Quinto). O que vos aconteceu?!

A resposta não deverá muito difícil de alcançar: sucesso. Quando uma história alcança um certo número de olhares é necessário mantê-la no ar o máximo de tempo possível. Há bocas publicitárias para alimentar e mais vale estender um produto para lá do razoável do que arriscar com uma ideia nova que pode não agradar. Então, uma história que deveria ser contada numa temporada, em três ou cinco, passa a ser uma obra de Homero, mas ao invés de uma epopeia, não tem fim programado.

“Mas óh Vítor, algumas das minhas séries favoritas tiveram pilotos ou primeiras temporadas fraquíssimas, em que quase desisti delas”. Sim, de vez em quando há estas excepções, mas são isso mesmo, excessões. A primeira temporada de Parks and Recreation é muito mais fraca do que as seguintes, mas deu-me ainda assim prazer ver, e por isso continuei. Veep nunca me cativou, por muitos elogios que tenha recebido (mas eu já não sou fã de Office), logo, não é uma questão de melhorar ou não. Simplesmente não era para mim. As excepções não justificam o investimento repetido em produtos salgados quando a nossa panca são os doces.

A vida é curta para se fazer comprometimentos deste tipo, ver algo porque os outros o fazem ou fazer-se algo que vai contra os nossos instintos desde o início. Eu amei series desde a pré-produção, após um grande piloto, ao longo de uma enorme temporada(s) e que eventualmente me partiram o coração no fim. Séries que me desapontaram muito mas como havia uma dúzia de alternativas, o sentimento passou rápido. Outras, ainda penso nelas com sabor agridoce, não importa quantos anos passem (Game of Thrones será sempre “aquela” que me fará beber sozinho, à lareira, pela madrugada). Mas nenhuma me provocou “anti-prazer” como The Walking Dead.

Ao longo dos anos fui adquirindo, com muita noção disso, um estatuto de hater de TWD. Porque nunca fui à bola com zombies e porque havia a certa altura a rivalidade com a menina dos meus olhos, Game of Thrones. Eriçava-me os pelos quando se comparava a qualidade das histórias e a capacidade de mover paixões. Fez-me questionar a certo ponto, em privado (porque não dava a satisfação a essa escumalha dos Walkers!), se TWD não era de facto um bom produto televisivo e era apenas o meu olhar torvado que não o queria ver.

A boa primeira temporada cai num vortex de incongruência em tudo o que envolve os zombies, fazendo as incongruências temporais de Game of Thrones parecer pequenas lombas na estrada. A seca descomunal de certos arcos e a estupidez de certas personagens cujo QI só rivaliza com os reality shows passados em ilhas afastaram qualquer dúvida e selaram o caixão para mim. Como um devorador de séries meti na cabeça que devia continuar algo que odiava, não só para poder ter fundamentos para as criticas (não ser daqueles que diz que não gosta sem ter razões para isso), mas para não ficar de fora da cultura pop. Acabei por abandonar o ódio no 6×03 porque não aguentei mais. Digo-vos agora, com muito pesar, que é o maior arrependimento seriólico que tenho.

Hoje vejo o mais fiel fã a saturar-se e a desistir ao fim de cada meia temporada. Será que me sinto vindicado por afinal ter tido “sempre razão” no que disse? Se sinto uma justiça poética por uma serie que lida com mortos-vivos não saber morrer? Não, só sinto pena pelas 70 horas que perdi a vê-la, que podia ter gasto a ver outros pilotos (terríveis). Longínquos vão os tempos em que perdia “saliva” a argumentar com todas as almas que têm uma opinião diferente da minha nas internets desta vida. Arrogância de jovem, paciência de santo.

Apercebi-me que o que interessa é o prazer que se tira no que vemos. Não vou argumentar com ninguém cuja série favorita é Riverdale ou a Casa de Papel. Posso dar asas à conversa quando me disserem que determinada série da CW é “a melhor de sempre”, mas não contem comigo para argumentar favoritismos. Sou bastante culpado de defender que certas pedras de carvão merecem lugar na ala dos cristais. Mas o que importa é que depois de um longo dia de trabalho ou estudo, o que cada um usa para se alienar do mundo ou distrair dos problemas reais só a eles diz respeito, seja ela uma obra profunda, o mais recente hit da televisão belga ou rever Friends pela quarta vez. Mas nunca, nunca vejam algo que não vos dá nada, ou pior, vos irrite.

Em tempos de peak tv não é possível ver tudo. Pela primeira vez desde sempre, mesmo que vejam televisão 18h por dia não conseguiriam devorar tudo o que a televisão americana e britânica (para falar das maiores) nos atira para o colo. Este “problema” resolve outro: é indesculpável que não encontrem algo à vossa medida. Com as redes sociais, blogs e outras edições online é impossível dizer que não há curadoria (é preciso é ter cuidado com o que se lê, como em tudo na vida). Hoje em dia só não vê televisão de qualidade quem não quiser. A minha recomendação é que ao invés de rever aquele conforto, arrisquem em novos horizontes. Irão eventualmente descobrir novos prazeres para substituir velhos e enriquecem o gosto ao longo do caminho. O tempo de experimentação é agora, em tempos de pandemia.

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