“Attack on Titan” por um gajo que não vê animes…

[SPOILERS para quem está ou pretende ver “Attack on Titan”] Mais do que o prazer em ver séries, tenho uma enorme vontade de estar dentro do assunto, de falar sobre elas e ver todos os pontos de vista. É a única razão porque ainda vejo “The Walking Dead” e porque espreitei o terror (género que abomino) de Penny Dreadful (que se revelou uma agradável surpresa). As animes são um mundo paralelo que existe neste universo, em que os fãs parecem ser mais intensos que os restantes mas mais “fechados”, menos compreendidos pelos restantes. Se a dona de casa ainda compreende que eu veja muitas séries, não compreende como é que aqueles “maluquinhos” vêem os “bonecos” quando já “não têm idade para isso”. A minha curiosidade, talvez aguçada pela presença na Comic Con, em que me deparei com um inteiro leque de cartas das quais nunca ouvi falar, levaram-me a aproveitar este hiato seriólico para explorar coisas novas (apesar das dezenas de episódios que tenho em atraso de outras séries, incluindo a obrigatória “Death Note”). Após uma pesquisa desinformada e generalista deparei-me com nomes como “Fullmetal Alchemist”, “Code Geass” e, lá está, “Attack on Titan”. Indeciso entre a versão legendada ou dobrada espreitei o piloto de ambas. Embora me faça um pouco confusão optei pela versão nipónica já que a inglesa apresentava alterações ao argumento, más alterações. 25 episódios de 20 minutos vê-se bem, o trailer suscitou interesse, havia a opinião mais do que generalizada que é a série recente de maior destaque, vamos a isso!

Concluída a maratona apercebi-me de que havia uma razão subconsciente para não me dedicar às animes. Quando ainda era um ser que não imaginava o que é ter 30 anos de vida, e em que me dedicava mais ao cinema que à caixa mágica, passei por uma fase de filmes manga. Gostava, mas eram tão estranhos ao que estava acostumado que a minha curiosidade perdeu para o gosto. Anos volvidos, e com décadas de formatação Oeste na cabeça, deparo-me com a dupla curiosidade e com o dobro da dificuldade em engolir o Este.

“Attack on Titan” foca-se numa Terra paralela/no futuro em que a humanidade se vê obrigada a viver reclusamente numa prisão construída por si. Há 100 anos os titãs apareceram, criaturas ocas de inteligência e de biologia estranha cujo único objectivo é matar pessoas pelo simples instinto de o fazer, levando a humanidade perto da extinção. A resposta dos sobreviventes foi construir três muralhas circulares (estranhamente apelidadas de Maria, Rose e Sina), com cerca de 100km de distância entre si, que mantivessem a ameaça longe. O isolamento resultou durante 100 anos mas a aparição de uma nova classe de titãs deita por terra essa garantia de sobrevivência… e é aí que começa a história. A densidade da mitologia aumenta com religião, classes sociais, hierarquia e relações de amizade. A duração dos episódios e a vontade de sabermos mais leva-nos a devorar a temporada como se não houvesse amanhã! A acompanhar está uma acção incrível que ainda não podemos ver nem nos melhores filmes de acção com pessoas reais. Há um nível macabro e de gore mas não foi o pior que já vi, há sim uma intensidade emocional aliada à imagem que nos faz quase sentir incomodados por não estamos habituados. Há personagens bem construídas com quem simpatizamos, das quais destaco Mikasa, a verdadeira impulsionadora da narração. Até aqui é tudo mares de rosas…

O personagem principal é desinteressante e roça a “tonice”, cortando o interesse nele que só é reactivado quando se “transforma”. A gestão de personagens é mal feita e, com isso, a história também é afectada. O foco da história muda umas três vezes: ora são as relações inter-pessoais com exploração do passado: ora são os titãs e a sua mitologia, ora é o mano-a-mano entre dois titãs especiais ao qual a série dedica total atenção na segunda metade da temporada, mas que é inexistente na primeira: ora é o total esquecimento dos titãs que originaram o inicio da história… Há uma chave e uma cave que prometem mil e uma respostas a outras tantas mil questões, mas as razões que são encontradas para não serem usadas passa entre o rebuscado e o inexistente. A verdadeira arte de não tirar leite à vaca quando ela está gorda no nosso jardim… com um laço… a chamar por nós!

Mas estes são os meus stresses particulares com a série, o maior problema é aquilo que me afasta de outras do género: o diálogo. Esta malta das animes pode ser muito boa a criar acção e a ter ideias geniais, mas falham no que toca a formar um argumento com dialogo que não nos faça espetar um garfo na jugular e fazer daqueles esguichos de sangue que eles tanto gostam. Repetem-se conversas, há reacções exageradas, perguntas que são banais e um gritante exagero de diálogos a que gosto de apelidar de “Tsubasa”. Na mítica série focada no futebol com a qual cresci, além do campo ser redondo e com 30km de comprimento, um remate dava para um episódio! Tínhamos conversa entre duas personagens em que falavam do que já estamos fartos de saber, tínhamos os pensamentos de toda a gente que estava na plateia e de todos os jogadores de campo… Dir-me-ão que é uma maneira de aprofundar personagens e a situação em que estão, balelas. Isso pode ser conseguido sem recorrer a conversas absolutamente triviais enquanto estão a cavalgar a alta velocidade e a fugir de um titã que as persegue. Isto repete-se ao ponto de dar sono, verdadeiras pausas narrativas quando a série está a ir bem. Há o tirar o pé do acelerador e depois há o mergulhar num lago de gelo com um ferrari a alta velocidade.

Mentiria se dissesse que não tinha gostado, que não me envolvi e que desejo saber mais sobre este mundo, mentiria ainda se disse que não estou ligeiramente apaixonado por Mikasa… Mas tenho de fazer um esforço mental para me alienar destes factores que cismam em não me deixar degustar o produto descontraidamente. Podem dizer-me que escolhi a série errada e vão nomear-me uma dezena de alternativas bem mais conseguidas, podem ainda dizer-me que simplesmente não estou habituado às diferenças, talvez. Talvez seja mesmo impossível desfrutar de tudo o que está ao nosso dispor com o mesmo gosto, mas pelo menos não podem dizer que não tentei. Numa altura da minha “carreira televisiva” em que cada vez tenho menos paciência para produtos fracos, para conversas mal escritas, para arcos preguiçosos e para séries que não sabem o que são e então disparam para todos os lados/públicos, não me encontro com disponibilidade para desfrutar de séries que a meu ver são um passo atrás no que a texto diz respeito. É um enorme e incrível mundo que me passa ao lado mas ainda bem que está tão (e cada vez mais) vivo. O que é preciso é diversidade porque não somos todos iguais e todos merecemos os nossos vícios.

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