Boardwalk Empire: 5×08 – Eldorado

[SPOILERS] No momento em que me preparo para iniciar este episódio, penso na raridade do acontecimento: ver uma série que tem um final! Não um cancelamento, mas um verdadeiro final programado em que nos é dada uma resolução depois de um investimento de cinco anos. Juntemos as mãos em oração a Tutankamon por este momento.

O episódio começa com Nucky a banhar-se no mar, nas mesmas águas que nos habituamos a ver cheias de garrafas mas que agora estão límpidas. Este é um banho de purificação, com atraso de 45 anos, que pretende despertar os sentidos para o que aí vem. A mesma água que foi fonte de perdição, avareza, luxúria, orgulho e inveja durante mais de uma década tenta agora lavar-lhe os pecados.

Os mergulhos no passado mostram as últimas lufadas de ar fresco entre Nucky e Commodore. Há uma intenção em se manter leal, acreditando que apanha mais moscas com mel e que é esse o caminho para o sucesso, quando ainda pensava que podia manter a alma intacta. Confesso que esperava mais emoção na descoberta do aborto de Mabel, principalmente da parte de Nucky. Gillian tinha avisado no episódio anterior que Mabel (Maya Kazan) tinha medo, suspeitando do desfecho, e o seu estado catatónico mascaram a dor e o choque, mas de Nucky esperava mais intensidade. Sempre almejou a família, deveria ficar mais sentido com a perda de uma parte dela, mesmo sendo um homem que mostra pouco o que lhe vai na alma.

Commodore: “What are you in the end, anyway?”
Nucky: “I’m what I need to be.”
Commodore: “How’s that make you anything at all?”

O mundo de Al Capone desmorona-se mas a interpretação de Stephen Graham não cai com o império. Graham sempre foi dos pontos mais fortes do elenco e por vezes fez-nos questionar porque não teve um papel maior nesta trama (e quem sabe um spin-off. Quando tantos maus surgem, aqui está um que apoiava!). Tal como Eli no episódio anterior, vemos um mafioso rendido aos braços do filho, naquela que é a melhor cena de todo o episódio (não a mais marcante, mas a melhor). Mais uma vez um império nasce e cai sempre com a intenção de deixar um legado. Estes homens que vieram do nada e alcançaram o topo para que os seus descendentes não tivessem que passar pelo mesmo sofrimento. Não nos mostram a verdadeira queda de Capone, essa é sabida, mostram antes o abraço ao filho e o olhar de resignação e medo (algo tão raro) quando fita os agentes na escadaria. A cidade a seus pés, os flashes das câmaras, o fato janota e os punhos lá em cima como o filho lhe pediu… é assim que a série faz por recordar o grande Al Capone e acho que fez muito bem!

Capone: “D’Angelo wasn’t even his real name. Malone. A fucking irishman. That’s what hurts the most”.

Em Nova Iorque vemos Lucky a cair em si, recordando o passado para agarrar o futuro. Também ele já foi ninguém e se sentou à mesa com quem já foi tudo. Não gozou de uma ascensão meteórica e conseguiu surpreender quem o subestimou, trabalhou para estar sentado noutra mesa com uma outra posição de poder. Tem isso com que se orgulhar. O lixo da rua foi limpo, faltava arrumar os móveis à casa. Johnny Torrio deve estar a sentir na pele que esta “malta nova” não tem o mesmo sentido de honra de outros tempos, mas estamos a falar de um homem que traiu várias vezes para chegar até aqui. Lágrimas de crocodilo são choradas. Poucas também são derramadas por Narcisse, que tem uma conclusão previsível. Não se teria perdido nada se não aparecesse mais, pelo menos sabemos que Daughter e a filha de Chalky ficam bem. Partimos da cidade que nunca dorme, com o esboço de um verdadeiro sindicato organizado que irá trunfar, até outros chegarem e os substituírem.

Margaret: “All you did was offer, I’m the one who took.”

A paixão e o amor entre Nucky e Margaret pode ter partido há muito, mas estes episódios finais provam que o respeito e carinho nunca se desfizeram. Partilham uma última dança, lembrando o quão seguros já se sentiram nos braços um do outro, desejando que o tempo voltasse para trás e pudessem sentir-se novamente inocentes. Por momentos até ponderam isso novamente, mas o mundo chama para a realidade na forma de um agente imobiliário. Outrora inocente foi também o amor de Nucky por Eli, mas demasiado aconteceu entretanto. Um homem menor teria cortado o cordão umbilical há muito, ou pior, mas Nucky sempre teve o seu alto sentido de responsabilidade e protecção da família. Quando já nada o obrigava, tem um último gesto, um conselho e um empurrão moral para com alguém que desejou o seu fim mais do que uma vez. Foram duas despedidas que fazem justiça a personagens que partilharam e conheceram Nucky melhor que ninguém. Podem ter passado pelo pior, mas houve sempre uma conectividade, um fio que as prendeu a ele. Pelo menos destes dois momentos Nucky pode orgulhar-se e não sentir remorsos. Acredito que foram despedidas para sempre, quer ele tivesse tido este destino ou não…

Kennedy: “Three things are difficult to understand: The work of the bees, the movements of the tide, and the mind of a woman.”
Margaret: “Here’s an experiment for you. Think about the things you want in life, and then picture yourself in a dress.”

O curioso é que a despedida que teoricamente menos significaria para Nucky é a que o faz lacrimejar um sentimento. Nucky chegou tarde e impotente a Gillian. Para além da mente, já o seu corpo foi violado pelo Dr. Frankenstein. Podemos mesmo dizer que ele foi em procura de redempção mas a pessoa que a poderia dar já não vive naquele corpo danificado. Até nisso a série consegue ser fiel ao que sempre foi: apesar de sempre presente, Gillian nunca foi cabeça de cartaz, um mero meio de transporte para outros arcos. Quer seja o de Commodore, de Jimmy, de Nucky, ou agora do neto.

Nucky: “The first time I got a nickel I thought, the world is a marvelous place, but then I thought… a dime, a dime would be better.”

Não foi surpresa de que aquele miúdo era o último Darmondy, nem sequer foi surpresa o desfecho de Nucky. O mérito da série está em conseguir provocar impacto antecipando ou não o destino do protagonista. O mundo das séries dizem-nos que quando as despedidas são abundantes e intencionais, essa personagem não vê o episódio seguinte. Se ainda duvidas tinha no início, foram-se dissipando à medida que Nucky ia descarregando a consciência. O cruzamento entre o passado e o presente é perfeito. Commodore testou o jovem Nucky e este “falhou” miseravelmente. Questionou-lhe a pureza da alma, como nós o fizemos tantas vezes ao longo da série, e quem “chumbou” foi a velha versão, no mesmo passadiço à beira-mar. Em ambos os espaços temporais vemos a morte do protagonista, primeiro da sua pureza e depois da sua vida. Foram os pecados que ele iniciou com a “venda” da jovem Darmondy que desencadearam o final às mãos de um outro jovem Darmondy. Nucky foi, assim, a causa da sua própria ruína, uma ruína que não pode ser comprada com mil nem com dois milhões de dólares. Podemos argumentar que Tommy só teria 14 anos nesta altura (representado por um actor de 22 é difícil de acreditar), que não nos foi mostrado características da personagem que levassem a crer na capacidade para esta violência ou que poderia ter morto Nucky em qualquer outra altura, mas penso que foi aquela nota rasgada que realmente fez o copo transbordar.

A grande surpresa recai sobre aqueles que pensavam que a série ia seguir a história, que Nucky serviria quatro anos na prisão por evasão fiscal, que trabalharia em vendas nas companhias Richfield Oil e Renault Winery e morreria com 85 anos num lar de Atlantic City. Mas esse foi Nucky Johnson, não Thompson, este não chegará a El Dorado. Não podemos acusar a série de não ter as coisas pensadas, não a podemos acusar de não ter sido fiel às personagens, não podemos sequer acusar se não ter sido fiel à história real! Não podemos acusa-la de nada. A única coisa que poderíamos apontar a este final é que não teve a intensidade do episódio anterior. Em que a morte de Narcisse e o disparo sob Nucky foram os momentos mais “mexidos” do episódio, depois da injecção de adrenalina na semana passada. Mas “Boardwalk Empire” nunca teve essa missão! Foi, literalmente, um episódio de despedidas, em que Nucky serviu de veículo para nos despedirmos daqueles que partilharam consigo o ecrã. Despedidas que deixam um bom calor cá dentro, era algo necessário para encerrar a história.

Nucky: “Went out past the surf line. Further than I ever dared as a kid. “Keep going,” I thought, “keep going until you can’t turn back.” That’s where there isn’t any choice… You don’t know where that is. You can’t know until you pass it.”

As cortinas fecham, os tambores de guerra silenciam-se, os réis estão mortos, viva os novos réis!… e aqui jaz Nucky Thompson, o homem que arruinou três gerações de Darmondys e que pagou por isso. Jaz o homem que, tal como Jimmy e Richard, parte com o seu “happy place” em mente, que no caso de Enoch é aquele em que apanha finalmente a moeda debaixo de água. Jaz o protagonista de uma série que subiu ao topo de qualidade, que teve marés baixas, mas soube acabar com uma procissão que deixaria Poseidon orgulhoso. A vitória é da HBO, que finalizou mais um produto televisivo com honras, de todos os envolvidos na produção, ao recrearem cenários e guarda-roupas que nos transportaram 90 anos no passado, do elenco, sem dúvida um dos mais talentosos alguma vez reunidos, e de Steve Buscemi… aquele que para mim é o grande vencedor (com a ajuda do jovem Marc Pickering na recta final). O que ele fez com Nuchy é incrível e bem merecia mais reconhecimento.

Um amigo perguntou-me no início da temporada se eu recomendaria ver a série, eu disse que não. Estava longe do que já fora e não tinha confiança que esta temporada fosse corrigir isso. Hoje vou-lhe dizer para ver, porque o sumo que se tira do final é muito bom e abundante. Nos tempos que correm não posso dizer isto muitas vezes. Fiquem com um vídeo de despedida dos actores e produtores que vale a pena ver também. Adeus fãs, foi um prazer estar convosco no fim.

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