Boss – 1.ª temporada

[SPOILERS] Se o “leitor” for daqueles que vai espreitar a nota final e já tirou conclusões, aviso já… “Boss” não é para toda a gente. Não é série para se ver num Domingo à tarde, com um olho aberto e outro fechado. É algo que deve ser degustado e aproveitado com calma e com toda a concentração. “Boss” exige isso de nós e é por isso que gostamos tanto dela.

“Oh, Vítor, não estarás a ser um tanto ou quanto elitista?” Não! É um facto que nem toda a gente vai gostar da série. Quase todos irão reconhecer-lhe qualidade, mas não é para todos os gostos, principalmente para quem procura algo leve e descartável. Depois de ver um só episódio de “Boss” dá vontade de ir vestir o nosso melhor fato, acender um charuto e beber um whisky (puro! Gelo é para maricas!)

Se tivermos que comparar os dois gigantes (“Homeland” e “Boss”) quem sai vencedora? Qual a melhor e porquê? Não estou a forçar uma resposta politicamente correcta, mas a verdade é que não há vencedores, para além de nós que desfrutamos de séries assim (na verdade eu acho que ganha “Homeland”, mas para o argumento em causa vamos fazer de conta). Se ambas fossem uma mulher, a série de espiões seria a mulher nova, cheia de intriga e mistério, linda de morrer, que nos mantém agarrado quer queiramos quer não. “Boss” é uma mulher na casa do quarenta, pode não ter o fogo-de-artificio dos vinte, mas sabe bem o que quer. Não é evidente, quando joga connosco não só não nos apercebemos que estamos a ser enganados como nem fazemos ideia que estivemos a jogar. É preciso pensar bem e estar com atenção para percebermos tudo o que está a acontecer, caso contrario somos mais uns coitados que foram devorados por uma viúva negra, sem que víssemos uma sombra a aproximar. Analogia esclarecedora? Nem por isso. Demasiado melodramática? Definitivamente!

No texto de análise ao piloto referi: “O Melhor: Os actores, a escrita, os planos da câmara, o tom sério. O Pior: Por vezes a quantidade de informação pode ser avassaladora e criar confusão. O tom sério pode afastar os mais impacientes e irrequietos.” Sete episódios depois nada mudou. Kelsey Gramer é o pilar de toda a série, ela vive atrás dele, respira quando ele respira e relaxa quando ele relaxa. Os discursos (tão bem escritos), a sua cara de ferro, os olhares penetrantes, a fraqueza na doença…é impossível descrever tudo o que ele fez bem, mas é fácil dizer o que fez mal, nada. Claire Dannes já é vencedora de tudo o que é prémio por “Homeland”, Gramer não deve ser diferente, qualquer outro resultado é inaceitável. Assistido por um argumento consistente com picos de altíssimo nível e planos de câmara que dizem mais do que mil palavras, tudo se torna mais fácil para brilhar, mas não lhe tira mérito.

Não foi só o “melhor” que se confirmou, o “Pior” também e até agravou. Não me costuma acontecer, aliás, nunca revejo um episódio das séries para apanhar mensagens subliminares ou perceber melhor o que se passou, mas em “Boss” dei por mim a volta atrás uns minutos várias vezes para que tudo se encaixasse e entendesse perfeitamente o que se tinha passado…e mesmo assim. Essa quantidade, por vezes avassaladora, de informação pode irritar os mais impacientes, mas é a real recompensa para os que não desistem.

A sua doença foi uma personagem extra a partir de certa altura da temporada. Quando percebemos que nem todos os momentos que vemos podem ser verdade, mas um produto da alucinação de Kane, as coisas ganham outra perspectiva. Por exemplo, na recta final da temporada, terá Kane falado com Ezra no seu escritório? Quando se despede dele não vemos ninguém na sala, teria ele já saído do escritório ou tudo aquilo foi fruto da sua imaginação? Em vez de mostrar uma loucura evidente da personagem, brinca connosco, deixa-nos na dúvida, e nós gostamos disso.

O restante elenco segue mais ou menos a mesma onda, mas é principalmente muito equilibrado. Não penso que houvesse ninguém menos bem, mas tenho de destacar algumas performances.

  • Ezra (Martin Donovan) foi um poço de sabedoria e calma, perfeito, é com imensa pena que vejo a sua partida no final, mas é absolutamente indispensável para percebermos até que ponto Kane descarrilou. Ezra está muito perto daquilo que víamos em “The West Wing”.
  • Kathleen Robertson foi a grande surpresa para mim. Não esperava tanta maturidade e complexidade no papel. É verdade que foi muito usada a nível de corpo mas não se tornou uma personagem banal e desinteressante, fez-nos torcer por ela e perceber o que sentia. A relação com Zajac ocupou-lhe a maior parte do tempo de antena e o seu ar de desilusão no final foi bem evidente. Quando o vê rendido ao Imperador Kane, aquele homem em quem ela depositava tanta confiança, debaixo do sapato do Presidente, mais um. Penso que aquela gravidez foi um pouco cliché e era evitável, mas ajuda a perceber os seus passos nos últimos episódios.
  • Mrs. Kane (Connie Nielsen) prometia ser uma personagem e revelou-se outra. Não ficou mais fraca nem mais forte, simplesmente navegou com a maré ao longo da temporada e acabou por apostar no cavalo errado. Mas sendo a mulher que é, no fim fez o que era preciso para atingir o objectivo. É acima de tudo uma personagem com alto sentido de auto-preservação).
  • Depois existem duas personagens que podem ser bem mais exploradas: Sam Miller (Troy Garity) prometia muito nos episódios iniciais mas depois acabou por perder potência. O seu discurso no final fez antever que ainda tem muito mais para dar, vamos a ver. A filha, Emma (a lindíssima Hannah Ware) é outro exemplo de uma personagem que não foi levada ao limite. É um tanto ou quanto “insossa”, sem o fogo que as outras transmitem. Talvez seja o facto de ser das poucas que está fora do mundo da política, mas seja como for, pela posição que ocupa na família Kane pode vir a tornar-se uma peça bem mais interessante.
  • Em nota final, Doug James, o homem para toda a obra, delicioso como mantiveram a personagem tão misteriosa.

No início ficamos coma ideia de que Tom Kane é um homem com prazo de validade, disposto a emendar o passado. Mas como o seu assessor Ezra o descreve no final da temporada, isso não o tornou perdulário nem o fez embarcar numa cruzada de justiça política, tornou-o mais perigoso. A descoberta da doença, a maneira como lidou com ela, a relação com a filha e a mulher, as constantes traições e os jogos de interesses…tudo foi explorado durante estes oito episódios. Mas se tivesse que descrever a temática que mais me marcou teria de ser os jogos políticos dentro da Câmara e durante as eleições. Pequenos detalhes, pequenas manobras que se tomam nos bastidores e que iludem o povo eleitor. Damos por nós chocados mas ao mesmo tempo a admirar a astúcia (para quem reparou neste ultimo episódio, a ordem de começar umas obras para impedir que um determinado grupo de eleitores pudesse votar… genial!). Tudo isto que elogio, traz um senão: Esta “loucura” e constantes twists tornam “Boss” numa grande peça de ficção, mas também a afastam um pouco da realidade que pretende retratar, chega quase a ser demais (pelo menos espero que assim seja, senão Dezembro de 2012 já vem tarde!).

Melhores momentos:

  • O momento da descoberta da doença.
  • O discurso de Kane a Zajac no telhado da Câmara com a descrição dos antigos bairros.
  • O discurso de Kane a Mata, com o arrastar pelas orelhas.
  • Kane a dar instruções a Ezra, Ezra a transmitir ao jornalista e o jornalista a perguntar ao político…
  • Todos os momentos de erotismo de Kitty.
  • Aquele quadro branco de Kitty com as estações televisivas que mudaram de “Chicago” para “Bensenville” e todo o esquema usado para isso acontecer.
  • O final do sétimo episódio.
  • Kane a obrigar Zajac a pôr-se de joelhos.
  • A mudança de côr (de cinzento para laranja) no início do último episódio, como se de um renascimento da fénix se tratasse .
  • A conversa final (real ou fictícia) entre Kane e Ezra, a música, o ambiente…

Apesar da referência a estes momentos, reafirmo: a série vale pelo todo, pela noção com que nos deixa no final de cada episódio. “Boss” faz-nos sentir graúdos, sentir legitimamente contentes por estarmos a ver algo tão consciente do que faz. Esta temporada serviu para formar pilares e a segunda será com certeza diferente. Promete trazer um Kane menos estável com maiores desafios pela frente. Eu vou estar definitivamente aqui para ver, e vocês?

O Melhor: Kalsey Gramer. É uma série altamente competente e adulta.
O Pior: Tudo o que a torna fantástica, afasta-a do gosto das massas.

Partilha o post do menino no...