Caçar com cabeça, tronco e membros…

Os fenómenos Netflix estão a tornar-se tão frequentes que já deixaram de ser moda, são roupa do dia-a-dia. Eu fui daqueles que escapei ao “estranho” avalanche de “coisas”, e cuja premonição se confirmou (fica para um futuro texto), mas “Mindhunter” fica mesmo no meu beco, na rua do mistério como quem vem de um bom argumento.

O maior inimigo para alguém começar é dizer que se trata de um policial com serial killers, seria o mesmo que classificar “Masters os Sex” como uma série sobre pornografia. A série mergulha na origem de termos que temos como pré-adquiridos e faz as perguntas originais: o que faz alguém transitar do sociopata para o homicida? Como funcionam os ponteiros de alguém que mata, viola e mutila corpos? Uma temática mais que vista mas por uma perspectiva não explorada, numa época em que os policias viam branco no preto e os vários tons de cinzento se limitavam às cinzas dos cigarros… e raios, como aquela gente fuma!

No centro da história está uma fresca alface com um ego que cresce à medida que a temporada avança e os seus métodos começam a dar resultados. O eixo que o controla, e que para mim é o melhor do elenco, é um experiente supervisor, que embora reconheça o brilhantismo do parceiro e embarque na exploração, mantém a ancora bem presa nos ideais familiares. O terceiro pilar do estudo é uma psicóloga com um segredo pessoal que não a define, lutando para perceber onde se encaixa. Ora, temos uma história catita, um elenco de classe, juntamos uma realização mais que competente… mas onde a série realmente brilha é nas conversas. É nestes (longos) momentos dos episódios que vemos todos estes factores em uníssono. O destaque maior vai para os assassinos e a sua interação com os detectives que tentam abrir as caixas de pandora, sem se perderem nela.

Os maiores elogios desta temporada vão sem duvida para a relação sóbria de Holden com Debbie, o regresso mais que desejado da linda e talentosa Anna Torv, o delight que é Cameron Britton como Kemper e Holt McCallany como Tench e, no fundo, a noção lúcida do que a série pretende ser. Há uma intenção de contar uma história com início, meio e fim, os pedacinhos iniciais dos episódios dedicados ao dia-a-dia de um serial killer e a analogia entre o estado da equipa e a relação Torv-gato são momentos geniais. Temos a perfeita sensação que todos os envolvidos sabem o que estão a fazer. Se tivesse que espetar uma faca ou outra falaria dos momentos finais da temporada, como um Formula 1 que não parece saber como abrandar para ir às boxes, no exagero de cenas com Holden a sair do carro para ir a sítios (nos episódios dirigidos por Fincher este parece fascinado pelo processo!), um ou outro arco secundário que podia ser cortado (não sei se precisávamos da investigação à equipa), mas estamos a falar de balas num comboio, nada que prejudique uma viagem sobre carris.

Espero que a Netflix não desmembre esta história em mais que duas/três temporadas (estou a olhar para ti “House of Cards”!),seria uma pena ver tudo isto descambar.

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