Camelot – 1.ª temporada

[SPOILERS] Que estamos a passar por uma Era de reciclagem de sucessos, até os mais desatentos já repararam. O dinheiro é escasso, se é que podemos aplicar o termo a este mundo hollywoodesco, e a vontade em apostar em algo novo e inseguro está, ao que parece, a desvanecer. Mas qual o fundamento para recorrer a uma ideia tão mastigada, repetida, processada, explorada e esmiuçada como a lenda do Rei Artur? Para além dos múltiplos filmes que abordam o tema, de um modo mais directo ou indirecto, temos mais recentemente “Merlin” e, porque não, “Legend of the Seeker”. Que mais se pode dizer sobre esta figura história ou mitológica que alguém não se tenha já lembrado de abordar?

Na minha opinião os criadores parecem ter-se baseado em três princípios: O efeito “Spartacus”, em Eva Green e no início.

O efeito “Spartacus”

Starz, o canal por detrás de “Spartacus”, parece ter descoberto a pólvora… que os outros já descobriram há muito: se juntarmos um tempo antigo ou um mundo imaginário, com sangue, alguma brutalidade de palavras e gestos com uma mão cheia de nudez e sexo, a probabilidade de se ter um sucesso parece aumentar. A única grande diferença entre estes dois sucessos do canal é mesmo os palavrões, porque no fundo tenta usar a mesma fórmula, e o problema foi esse, uma cópia de menor qualidade.

“Camelot” traz-nos uma paisagem menos processada, mais a céu aberto, com imagens bonitas da Irlanda. Foge dos troncos nus e mostra-nos um vestuário de época, bem retratado e honrado com um bom equilíbrio entre o escuro da corte e a luminosidade e os planos mais alargados.

Tudo teria um impacto muito maior, não estivéssemos nós tão habituados a ver estes “fatinhos”, aliás, se atirarem uma pedra ao ar neste momento para o charco de canais da vossa televisão, a probabilidade de acertarem em pelo menos duas saias folhadas, quatro corpetes e 10 espadas é muito grande!

A novidade está no cada vez mais batido mix nudez/sexo que inunda a TV por cabo americana e que tem um papel aqui também. Não me interpretem mal, completamente a favor!

Eva Green

É inerente, quando somos catapultados para estas épocas, esperamos sempre algo Shakespeariano, com diálogos ricos cheios de honra e histórias de batalha, queixos levantados e posturas imperiais. Para isso são precisos bons actores e um bom argumento, terá “Camelot” conseguido? Sim e redondamente não!

Comparando novamente com “Spartacus”, esta teve grande parte do seu sucesso no forte protagonista e na empatia que criou com o público. É um rapaz bem-parecido que consegue transmitir agressividade e ao mesmo tempo fraqueza. ”Camelot” precisava de um líder capaz de provocar o mesmo efeito… e falhou catastroficamente.

Percebe-se que era preciso um actor jovem que encarnasse um Artur inexperiente e cru, mas era um “Artur” não um “actor” assim. Jamie Campbell Bower é uma derrapagem num elenco que está cheio de bons nomes e boas interpretações e é, literalmente, o “Twilight” no meio do elenco.

Quando olhamos ao redor da távola redonda de actores encontramos: Claire Forlani (imortalizada como a mulher dos olhos arregalados em “Meet Joe Black”), que dá vida a mãe de Artur – não se percebe como puseram uma actriz tão nova a fazer de mãe, mas essa passa. Clive Standen e Philip Winchester como dois dos cavaleiros honrosos e que estiveram muito bem, especialmente este ultimo que foi dos melhores em toda a série na minha opinião. Quem também esteve bem foi a Guinevere, Tamsin Egerton, que apesar de tão jovem como o seu eterno amor, conseguiu sacar de melhores pormenores de representação.

O actor que dá origem a maior discussão sobre a sua qualidade é talvez Joseph Fiennes. Há quem não seja mesmo fã do homem, o ache o real over-acting, o teatral que pensa que ainda está a rodar o “Shakespeare In Love” ou “Elizabeth”, até há quem o culpe de ser uma das razões do fracasso de “FlashForward”. Embora não o ache um actor de eleição, não lhe reconheço tão más características. Esteve mal em “FlashForward” mas em “Camelot” conseguiu dar vida a um Merlin diferente, mais obscuro e corroído. Não aquele ser imponente de barba com presença magistral e sábias palavras, mas um ser corrompido por um passado que ninguém conhece (nem a idade que tem) e que em vez de abraçar a magia, foge dela como se de heroína se tratasse. Na verdade, não vimos quase magia nenhuma da sua parte, mas uma mistura entre bicho-do-mato e autista talvez.

Mas onde não surge discussão, é na verdadeira estrela da série, na actriz que a carregou a praticamente às costas nos poucos 10 episódios da sua existência. Morgana foi a líder das intrigas, a dona dos melhores momentos, a senhora da magia e a deusa da nudez e do sexo, praticamente tudo o que é bom de lembrar desta série foi da sua autoria, com muito mérito. Foi um cliché demasiado óbvio usar o seu corpo de maneira tão fácil para prender a atenção? Foi, mas o melhor é que não foi só isso que ela fez bem. Eva Green merece um sólido 20 pela sua performance e pela sua beleza.

Destaque ainda para James Purefoy (“Rome” e “The Philanthropist”), um dos meus actores favoritos, que infelizmente só aparece nos episódios iniciais.

O Início

O segredo para a história está a frente de toda a gente, Camelot, o segredo para contar algo que nunca ninguém contou…é contar o que ninguém contou. Faltava o pedaço da mitologia que narrava a história do nascimento deste utópico local. Camelot é, no fundo, a principal personagem: Artur tenta reconstrui-la, Merlin quer torna-la num símbolo e Morgana quer apoderar-se dela.

A ideia era boa, e foi boa a partir do momento que se tornou uma realidade a vida lá, mas o percurso inicial é demasiado alucinogéno. Desde o momento em que conhecemos Artur e este descobre quem é, até estar com um casaco de pele de coelho a confrontar o Rei Lot em Camelot, passou-se 37 minutos! Demora mais tempo alguém se tornar famoso nos “Ídolos”. Embora pessoalmente prefira sempre uma série que começa mal e melhora exponencialmente do que o inverso, não é um bom método para manter as pessoas agarradas.

Sabemos que algo vai correr mal com a série quando o irmão perdoa Artur tão facilmente por estar enrolado com a sua namorada… e Artur ainda goza com ele!

“Camelot” foi mais uma original series (não sei o que tem de tão original, mas siga) que morreu na praia. Foi a maior estreia em termos de audiência do canal e acabou por ser cancelada, supostamente, por incompatibilidade de agendas dos actores para filmar na Irlanda. Parece-me um pouco rebuscado, mas está bem.

Não vai deixar fãs a chorar por ela, e daqui a uns tempos já ninguém se lembrará dela, mas fica a intenção de colocar intriga numa história repetidamente contada e uma Eva Green que foi a verdadeira one woman show.

O Melhor: Eva Green…
O Pior: Artur e o mau início…

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