Comédia, nos tempos de “cólera”…

Uma vez que estamos agarrados às correntes da manta, à cruz da almofada e à guilhotina do sofá… porque não ver umas comédias enquanto estou a “contra” a minha vontade, em casa, sossegado…


Feel Good – Aqui está uma deliciosa surpresa que não deverá passar abaixo dos vossos radares. Numa série quase auto-biográfica, Mae Martin escreve e protagoniza o que para já é uma curta temporada de seis episódios mas que aborda a adição de substâncias, relações familiares e de amizade, sexualidade e identificação de género e, claro, o amor. Feel Good nem sempre vos fará “sentir bem”, mas tem um enorme coração e é muito engraçada, muitas vezes ao mesmo tempo. Conta ainda com a participação de Lisa Kudrow no papel de mãe (eu juro que esta mulher está viciada em fazer séries em que aparece em webcams!). A série está disponível na Netflix.


Russian Doll – Sim, era eu a única pessoa que ainda não tinha visto. Mistério resolvido. O único motivo para adiar lhe pegar era mesmo a premissa, a de reviver o mesmo dia depois de se morrer. Para alguns pode ser algo original, mas quando já se vê ficção há mais de meia dúzia de dias percebemos que raras são as ideias originais. O que Russian Doll faz bem é dar um twist nessa premissa, preferindo mergulhar no mesmo lago “The Good Place”, a moralidade. A protagonista, irmã gémea de Dark Helmet de “Spaceballs” e uma fast talking sedente da aprovação de Aaron Sorkin, tenta perceber o que raio lhe está a acontecer para estar presa num loop sem fim. Loop esse que nunca é aborrecido de se ver porque a série não o usa como escape de narrativa, apenas como “vírgula” ao que deseja realmente explorar. Charlie Barnett (Alan) e um bom elenco secundário, em que se destaca a escolha de actores improváveis para ex-namorados, dão ainda mais consistência a um tema que seria muito fácil de se azedar. Os oito episódios, com duração total de quatro horas, estão disponíveis na Netflix.


Dead to me – Imaginem que vos matam o marido num acidente de carro e a assassina decide tornar-se a vossa melhor amiga. Christina Applegate e Linda Cardellini estão no centro desta comédia que pisca mais o olho ao público feminino. Realço-o não de maneira depreciativa, pelo contrário, a série explora a amizade feminina sem que com isso seja exclusivamente feita para “elas”. James Marsden está bem como mau da fita/paspalho de serviço e a história oferece suficientes pontos de interesse para ser interessante de acompanhar. O final deixará os fãs de Big Little Lies presos e abre prospecção a pelo menos mais uma temporada. Os dez episódios, com duração total de cinco horas, estão disponíveis na Netflix.


The Good Place – Os mais atentos já devem ter visto esta recomendação em tudo o que é canto, mas nunca é demais fazê-lo. Recentemente a série finalizou a sua quarta e última temporada e ofereceu ao mundo uma enorme sensação de bem-estar e conclusão que tanto precisamos. Nos temas abordados estão a morte, a moralidade, o karma, a amizade, o sentido da vida e consequências dos actos, e pelo meio temos comédia e lágrimas de alegria e tristeza. Obriga-nos a pensar na nossa própria existência e se estamos a viver a vida que queremos viver. Não há, no entanto, palavras suficientes para recomendar mais The Good Place. É daquelas obrigatórias. Os 50 episódios, com duração total de 19 horas, estão disponíveis na Netflix.


The Marvelous Mrs Maisel – A terceira temporada desta comédia sob o efeito de cocaína traz-nos uma Midge mais confortável na sua pele, com espaço para explorar o elenco que a suporta. Temos mais Susie e Joel, mais Abe e Rose, mas infelizmente nunca o suficiente de Ben. Os episódios de uma hora poderão ser detrimento para alguns e o estilo pilar da série não agradará definitivamente a todos, mas esta comédia de época é do melhor que podemos ver em representação e argumento actualmente, e a história nunca fica muito tempo no mesmo sítio ao ponto de se tornar aborrecida. Aliás, tudo nesta série tem pulgas no rabo… Os 26 episódios, com duração total de 23 horas, estão disponíveis na Amazon Prime.


Silicon Valley – Mais uma que chegou ao fim em 2019, e já não era sem tempo. São seis temporadas que nunca deviam ter passado de umas 4/5 mais bem pensadas. A ideia geral da história prometia mas rapidamente foi esticada para lá do razoável por uma necessidade em explorar o sucesso. O final está bem longe de satisfatório no que ao meu paladar diz respeito mas continua a ser ideal para quem ressaca por uma comédia mais nerd (que Big Bang Theory prometeu nas suas primeiras temporadas). Os 53 episódios, com duração total de 26 horas, está disponível na HBO Portugal.


Succession – Fica para o fim uma extraordinária dramédia (como eu odeio este termo, mas é o possível) que prova que nem sempre a primeira impressão é a mais acertada. Não lhe “fui com a cara” inicialmente, não fazia o meu estilo e a incapacidade de me relacionar com qualquer personagem foi um entrave. Mas os constantes elogios que lhe atiravam fizeram-me engolir sem mastigar quase toda a primeira temporada… e ainda bem. A T2 encontra as personagens num ponto bem mais confortável, sem a necessidade de se darem a apresentações, e toda a história ganha com isso. Vão dar por vós a tender para uma personagem por quem torcer e a perceber, mais tarde ou mais cedo, que não é em nada melhor que os restantes abutres (o meu favorito continua a ser Tom. Matthew Macfadyen é simplesmente genial). A segunda temporada é menos cómica mas mais madura e consciente, com um final altamente satisfatório. É para mim do melhor que a televisão actual tem para oferecer. Os 20 episódios, com duração total de 21 horas, estão disponíveis na HBO Portugal.

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