Comic Con Portugal 2016 – 20 mil vezes melhor?

Mais um ano, mais uma Comic Con que tive o prazer de acompanhar de perto. Continua a ser um prazer representar o TV Dependente na Exponor, que nos trata sempre tão bem. Espero que as minhas palavras não sejam erradamente interpretadas quando digo que a Comic Con é deliciosamente amadora na sua abordagem, e ainda bem! Não há qualquer duvida, pelo menos para mim, do quão difícil é montar este espectáculo de quatro dias, mas ter um vislumbre no modo como a equipa trabalha no backstage, tudo parece “familiar”, simples na abordagem, tudo é mais ou menos tratado como se os convidados fossem uns amigos emigrados que vêm cá jantar. É uma sensação completamente alienígena para quem visita, fascinados pelos nomes que normalmente vêem atrás de um ecrã, mas que para quem repara é delicioso notar.

É quase difícil quantificar o quanto todo o processo amadureceu durante os anos, mas mais indescritível ainda é o quanto somos bem tratados por quem nos recebe. Sejamos claro, o TV Dependente não é nada no panorama nacional, não é sequer um reconhecido nome, mas sempre que lidamos com a organização somos sempre tão bem recebidos! As pessoas sabem quem somos e apreciam a nossa dedicação ao evento, não são arrogantes na sua abordagem, algo que poderia acontecer com o passar das edições. Falam connosco como se fossemos a Sky News, dão-nos oportunidades para falar com os artistas como se a nossa voz fosse “megafónica”. São detalhes destes que muitas vezes são ignorados ou não apreciados por alguns mas que eu farei sempre questão de salientar. A Comic Con é feito por pessoas, para pessoas, e sempre fomos “mimados” como pessoas que têm algo a contribuir. Então, o que pudemos observar neste fim de semana prolongado?

OS QUATRO DIAS QUE NÃO FIZERAM GRANDE DIFERENÇA…

A Comic Con é algo ambíguo do ponto de vista de quem visita. A verdade é que a feira em si pode ser vista em meia manhã, mais se realmente tivermos de esperar na fila para um determinado stand. Mas o evento é, algo que a organização vem repetidamente a salientar, uma experiência. A adição do quarto dia permitiu que houvesse mais um dia de espaço “vazio”, para que aqueles que desejam ver e visitar tudo sem filas. Se possa respirar! O sábado será sempre o pior dia para ir à Comic Con, porque a verdade é que é tanta gente que nem dá para desfrutar do espaço. Não vemos os cosplay com atenção, há filas a mais, há constrição… Mas é sábado, faz parte da experiência. Do meu ponto de vista não acredito que tenha sido o quarto dia a trazer as 20 mil pessoas extra à Exponor, se fosse apenas três dias o número não seria muito diferente. No entanto, pela primeira vez, fiquei chateado por não acompanhar tudo. Há tantas actividades, painéis e eventos que fui obrigado a escolher. Por vezes era só infelicidade (queria ver dois painéis à mesma hora, mas durante o resto da tarde não havia mais nada de excitante), mas aumenta a ideia de que é um espaço para todos, que faz sentido ir mais do que um dia se realmente quiserem desfrutar. Houve mais de 200 convidados e mais de 100 painéis e no final foram contabilizados 72.891 visitantes… a Comic Con não é (só) cabeças de cartaz.

STANDS – LOCATION, LOCATION, LOCATION…

No que toca ao sucesso dos stands, só há uma coisa melhor que a localização dos mesmos – a sua actividade. Não posso dizer que tenha havido melhoras neste aspecto desde o ano anterior, a verdade é que o layout me pareceu basicamente o mesmo. Houve diferenças de aparência mas tudo foi bastante familiar. A melhoria foi mesmo a nível de actividade dos parceiros em si, com stands mais interactivos e interessantes e uma maior presença (pouca) de marcas conhecidas. Neste aspecto o destaque vai para aquela que é para mim a campeã deste ano, Westworld do TV Séries, que tinha sempre fila e era um espaço com criatividade. A Fox foi outra clara vencedora com o seu espaço de tatuagens. Foi-me dito na sexta-feira de manhã que já tinham bookings completos para o resto do evento e os tatuadores não tiveram mãos a medir. O espaço de restauração também teve mais escolha mas o maior destaque nesta área vai para a Knorr, que ofereceu Noodles a quem quis experimentar e a avaliar pelas filas à hora de almoço, foram alguns! A Filinto Mota promoveu-se com uma engraçada e “action packed” experiência com a equipa de duplos da “Action X Team”, que tive o prazer de experimentar. Uma última palavra de apreciação para o espaço do “Séries da TV” que teve bastantes visitas, estiveram activos e promoveram o seu nome. O que me leva à critica neste sector: apatia. Eram muitas as bancas em que pouco ou nada acontecia, se a Comic Con é toda uma experiência, essa alegria não deveria contrastar com pessoas eternamente sentadas com olhar apático, simplesmente a marcar presença. Muitas vezes me perguntei “porque raio estás tu aqui?!”.

CONVIDADOS

Agradavelmente surpreendido com os convidados este ano. Do ponto de vista pessoal, foi o mais fraco dos três anos, porque nenhum deles me suscitou especial interesse, mas todos eles mantiveram a tradição de serem simpáticos para todos os que querem um “bocadinho” deles. Depois de Paul Blackthorne e John Noble, Cobie Smulders sagra-se rainha da terceira edição. Espalhou simpatia, abraços e fotografias e foi incansável nos dias que esteve presente na Comic Con. Eu e a Maggie tivemos oportunidade de a entrevistar num one-on-one depois da conferência de imprensa e fomos basicamente mimados pela simpática actriz. Ofereceu-nos de beber, puxou da cadeira para nos sentarmos, respondeu às nossas perguntas e no final tirou foto com os babados.

CONFERÊNCIAS

Rila Fukushima foi simpática mas não foi incrivelmente interessante, Lennie James teve uma presença mais séria (à semelhança de Jason Isaacs) mas bastante informal e interessante, Ivana Baquero surpreendeu não só pela beleza mas pelo à vontade, Cobie Smulders foi o espectáculo que já referi e Kevin Sussman um adorável nerd que deixou todos com sorriso na cara enquanto o ouviam falar. Katie Leung gozou um pouco da sombra de Jason Isaacs e não acresceu nada de muito significativo e Sean Teale foi outra agradável surpresa, suscitando curiosidade e mostrando ser mais do que uma cara bonita. Continua-me no entanto a surpreender a pouca afluência dos media no evento em geral e nas conferências em particular e, quando estão presentes, não mostram interesse. As perguntas colocadas são por parte dos media menos conhecidos, os verdadeiros fãs do trabalho de quem está a ser recebido na Exponor. Já deveria estar habituado a esta realidade, mas ainda me faz pensar. A organização agradece-nos a presença e nós agradecemos a oportunidade de o poder fazer. Já que os outros não aproveitam, aproveitamos nós.

DE ARREPIAR A ESPINHA

O meu momento favorito deste ano vai mesmo para o painel do Rock in Rio no primeiro dia. Não porque a intervenção de Zé Ricardo tenha sido particularmente interessante, mas porque este contou com a presença da Orquestra Filarmónica das Beiras que deliciou o publico presente com temas clássicos do cinema. Regresso ao Futuro, Missão Impossível, Super-Homem, ET, Harry Potter, Jurrassic Park, Indiana Jones, Star Wars… e Senhor do Anéis, com a presença de um pequeno cantor que fez as delicias do público. Uma experiência incrível que espero possa ser repetida.

VOLUNTÁRIOS

Começo a soar repetitivo, mas o voluntariado continua a ser os pontos mais negativos. Continuam a ser demasiados e mal informados, cada vez mais novos e perdidos num show que continua a crescer. “Exigia-se” uma equipa mais pequena, mais informada, mais a par do que acontece e do que é permitido. Outro aspecto a notar foi uma maior presença de seguranças na Exponor. Não que em anos anteriores não tenha havido, mas foi muito mais notório e percebe-se que há uma intenção que tudo corra pelo melhor.

MUDANÇAS

De certeza que a organização estava à espera deste texto para tirar notas e estão todos a ler isto à volta de uma fogueirinha. Eles são os primeiros a admitir que são necessárias mudanças, mas estas não podem acontecer sem que haja a experiência de passar pelos erros. Toda a gente espera um San Diego à segunda edição, é a sina de fazer eventos para tugas… O espaço Spotlight não resultou, pelo menos para esta edição, é possível que haja candidatos no próximo ano, mas arrisco-me a dizer que nos quatro dias não houve dois participantes. A organização deveria também apostar numa secção Q&A no seu site com um resumo de todas as duvidas, porque no grupo de fãs do evento há visitantes a fazer constantemente as mesmas perguntas. Gente elucidada é menos propícia a dizer asneiras ou a criticar por ignorância. Uma das críticas que pude observar é a lamentação que o concurso de cosplay seja realizado no Auditório B, já que este não consegue receber toda a multidão que pretende assistir, mas a verdade é que este é o único espaço que tem backstage e pode assim receber os participantes…

JOE REITMAN

Uma pequena palavra para aquele que é a alma da Comic Con em Portugal. No domingo Joe teve de fazer um painel “tapa rolhas” devido a um cancelamento, um painel que se cingiu à sua presença no auditório para uma conversa com os visitantes. Durante uma hora muitos foram os que apareceram, muitas foram as perguntas e do nada criou-se um dos painéis mais porreiros deste ano. Joe apontou ideias de futuros convidados que agradam ao publico português, falou da dificuldade e processo de trazer talento em Portugal, da crise de valores que afecta Hollywood, de como começou a sua “carreira” no evento começou, do carinho que recebe em Portugal, do facto de ter estado mais ausente este ano e o evento ter sofrido com isso e de Portugal, local onde se sente “mais amado em toda a sua carreira”. Uma conversa informal, com bastante humor e interessante da “cara” do evento em Portugal. Que possamos contar com ele durante muito tempo paras nos apadrinhar.

O PRIMEIRO “REAL” EXCLUSIVO

“Valerian – A Cidade dos Mil Planetas” marcou a história da Comic Con tornando-se no primeiro “real” exclusivo em Portugal. É verdade que o Syfy tem feito alguns (este ano foram três), mas uma das séries já tinha estreado há um ano nos EUA. O filme contou com a produtora e esposa de Luc Besson, que nos trouxe designs usados, assim como seis minutos de cenas do filme que não tinham sido exibidas antes. Para a organização este tipo de apostas é fundamental cultivar, pois permitem ao evento crescer em importância, e chama a atenção das produtoras. Devido à sua importância, o painel contou com uma segurança nunca antes presenciada em todas as edições, em que foram absolutamente proibidas as presenças de máquinas fotográficas, câmaras e até telemóveis. Virgine Silla foi interessante, o painel foi interessante, o publico portou-se bem e gostou, a organização cresce… mais uma pequena vitória.

COSPLAY

Ficará muito mal da minha parte se disser que este ano foi um pouco mais fraco que o ano passado?! Fiz por estar mais atento a esse aspecto do evento e embora tenha visto muito, pareceu-me menos inspirado que anos anteriores. Até a legião esteve “menos” no evento. Os cosplayers continuam, ainda assim, a ser a “life force” na Exponor, são eles que fazem a diferença e a sua dedicação é sempre de louvar. Uma palavrinha para o painel da Angélica no domingo (a cobrir mais um cancelamento), que mostrou o quanto a dedicação pode tornar arte possível. A paixão com que fala do tema e o conhecimento que partilhou com o publico revelam que é possível evoluir desde que haja vontade para isso. Afinal de contas, ela é “apenas uma arqueóloga”.

PAINÉIS

Confesso que este ano “fugi” um pouco dos painéis dos artistas cinema/tv, tentando explorar outras áreas do evento. Mas fiquei surpreendido com a afluência ao painel de Kevin Sussman e os dois de Cobie Smulders estiveram cheios. A Paramount criou um painel em que falou das estreias no nosso país para 2017 e embora a ideia seja boa, a verdade é que não deram nenhuma novidade a quem saiba ver trailers no youtube. O painel de “Refrigerantes e Canções de Amor” foi outro momento muito bom de acompanhar, com um publico mais adulto reunido para ouvir principalmente um sempre carinhoso Nuno Markl. Houve apenas duas críticas a apontar (que tenham chegado a mim): a repetição “abusiva” do material exibido no ecrã gigante, que ao terceiro dia já se tornara enjoativo, e a fraca performance de Andreia Novo na moderação dos painéis em que participou. O publico pediu mais presença de Joe Reitman e espero que isso seja uma realidade. Se tivermos mais Joe e mais Luís Filipe Borges, eu fico contente.

PARA O ANO

O próximo ano está a ser desenvolvido desde o dia 12 de Dezembro, com a promessa constante de tornar sempre a experiência melhor. Há uma possibilidade de o primeiro dia mudar e se focar no lado empresarial do meio, uma espécie de “websummit” em que nomes importantes das produtoras possam visitar o nosso país. Mais ainda é cedo para confirmar ou salivar com essa ideia, ainda para mais porque envolve outros custos para os visitantes. Acima de tudo, mais do que convidados que desejaria ver e mais do que mudanças desejo que tudo aquilo que torna a Comic Con um evento agradável de acompanhar se mantenha. Se assim for, os visitantes voltam todos os anos.

Por fim queria agradecer à Maggie, a excelente acompanhante nos quatro dias, incansável na excelente cobertura e à Vicky Duarte do Portal das Séries, não só pela companhia (“olha aquele cosplay! Tira foto! Corre!”) mas pelo bom trabalho na reportagem fotográfica. Até para o ano maltinha!

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