Cuidado com as companhias, Netflix Miguel…

Será 2019 o último ano de domínio quase absoluto da Netflix? Amazon é uma extensão do Prime e Hulu ainda não é fenómeno mundial, mas a certeza da Disney+, a tentativa da Warner Media e os bolsos largos da Apple TV+ estão a chegar. O que significa isso para o futuro do “monopólio” da N? A companhia consome mais de 15% de todo o tráfego mundial da internet e nós, quais glutões do Presto, engolimos tudo sem sequer degustar ou filtrar. Até quando?

Números

De certo modo, o streaming é a democratização da televisão, em que o povo, através do poder da subscrição e tempo de visualização, determina se as séries vivem ou morrem… certo?! Mentira. Ao menos os números Nielsen, com todas as suas falhas em representar o grande público, permitem um raciocínio lógico neste processo das audiências. Mas a Netflix (e não só) escolhe não difundir quantas pessoas vêem determinados programas. Nem mesmo os criadores das suas séries o sabem! Por vezes revelam que 15 triliões viram Stranger Things sem que percebamos se viram cinco minutos, um episódio, ou tudo. Podem dizer o que lhes apetecer e cabe-nos aceitar ou não. Não temos qualquer poder de decisão porque estamos mais às escuras do que nunca. Irá a entrada de novos jogadores no mercado mudar isso? Sinceramente duvido. Não há uma razão forte para as companhias serem forçadas a fazê-lo. Renovam o que for bem sucedido e cancelam o que não for. Além disso, o sucesso de uma determinada série em relação às outras nem é o mais importante. A Netflix usa como política para decidir o futuro de uma série a capacidade de angariar novos subscritores. Se uma série agradar a 10 milhões que já usam serviço será sempre ultrapassada pela que fará um milhão de novos subscritores. Crescer, crescer, crescer. É por isso que a recente notícia do abrandamento no crescimento de subscritores, pela primeira vez na sua história, criou tanto impacto.

Conteúdo

A Netflix ganhou nome com séries premium (House of Cards, Orange is the New Black, Marco Polo, Narcos, The Crown). A “HBO das massas”, se mo permitem. A mentalidade agora é outra, ou pelo menos é 100% assumida: mais é melhor. A ideia é engolir o mundo, criar conteúdo que agrade a gregos e troianos, que prenda o espectador, não porque tem as melhores séries, mas porque há sempre algo para ver. Curioso é que agora é-me mais difícil recomendar o serviço de 16$ com 1000 séries do que era nos primórdios, ainda para mais quando a Disney irá disponibilizar sete perfis por conta, quatro streams simultâneos e 4K por 7$. Pelo menos para quem quer qualidade em vez de qualidade. Se a isto somarmos a saída de um enorme catálogo antigo, séries como The Office e Friends preferem comprar casa do que alugar espaço na maior plataforma do mundo, e a entrada de novos senhorios com o poderio da Disney, diria que a mentalidade tem os dias contados. A Disney+ ainda não chegou e já tem um arquivo de respeito (Marvel, Pixar, Simpsons, National Geographic) e ninguém duvida da capacidade em criar novo conteúdo de referência (Star Wars, Universo Televisivo da Marvel). Pensar que as pessoas vão ficar só porque já conhecem é o mesmo que acreditar que o público não iria abandonar a network para ver séries na internet. Não acredito na capacidade da Warner Media acrescentar valor ao mercado. Há muito que provaram que não são consistentes e nem sequer parece haver uma “mentalidade criativa única”. A Apple acha que criar televisão é o mesmo que fazer telemóveis e tem feito quase tudo mal nos primeiros passos (fazer anúncio do serviço com gente famosa a rodar no palco sem mostrar qualquer conteúdo, data de início ou preço). A Disney não terá de abarcar saldo negativo durante muito tempo porque é uma máquina tão bem oleada que só um desastre não os colocará em pé de igualdade com a Netflix em finais de 2020.

A Hulu como suplente…

Ainda podemos ir mais fundo na análise à Netflix e descobrir um miolo a apodrecer. O molde, embora flexível, dita que as séries devem ter uns 10/13 episódios. Mas ninguém parece muito preocupado que haja história que os justifique. É difícil hoje em dia mentalizar como eram capazes os produtores e argumentistas fazerem temporadas sem fim, de 24 episódios. Eu pergunto: como é que consegue esta gente fazer 13 episódios quando não há história para oito (as séries da Marvel eram exemplo perfeito disso). Fossem estas temporadas alvo do escrutínio em episódios semanais da network e muitas delas seriam canceladas porque a audiência perdia entretanto o interesse (ao que tudo indica, Mandalorian será disponibilizada semanalmente, veremos se é política geral). Até nisso a companhia do rato tem um backup. Tudo o que não encaixar no molde family friendly do Disney+, terá o seu espaço na Hulu. A experiência que o serviço de streaming já tem, o dinheiro, IP da Disney e capacidade de criar programação original de qualidade como a FX, tudo num só “pacote secundário” (por 13$ será possível nos EUA ter acesso à Disney+, ESPN e Hulu com anúncios). Então, a Disney tem na mão as ferramentas para agarrar as massas e o conteúdo premium.

Ainda falta saber de que modo o conteúdo da HBO irá evoluir, agora que as cabeças pensadoras/donos são outros. Desconheço a experiência nos outros países mas o que é certo é que a qualidade franquíssima do serviço em Portugal, o serviço em si e não o conteúdo, já manchou de modo irreparável quem esteve disposto a experimentar. As falhas com Game of Thrones, a incerteza da hora em que o conteúdo é disponibilizado, dificuldade em fazer download… era difícil fazer pior. A plataforma é também o aspecto mais negativo do Amazon Video. Não tem um aspecto clean como as rivais e o aspecto retail não ajuda: Amazon Video – venda digital | Amazon Prime – serviço que inclui Prime Video | Prime Video – serviço de streaming… o conteúdo do Amazon Video aparece no Prime Video mas não está incluído no serviço, é preciso comprar à parte…confusão!).

Solução…?!

Chapéu pensador da Netflix: “Talento, a resposta está no talento. Vamos prender as mentes criativas e deixamos que criem conteúdo que alicie actores e realizadores para a nossa plataforma! Vamos dar absurdos contratos exclusivos a criadores de séries que já têm créditos provados (!) na indústria.” Muito bem, então temos Shonda Rhimes (150 milhões assinou por cinco anos) que está a preparar 8(!) séries, Ryan Murphy (300 milhões por cinco anos) a afogar-se em multi-projectos e Kenya Barris que só tem Black-ish de reconhecível (100 milhões por três anos). Se a isto somarmos semelhantes contratos para os criadores alemães de “Dark“, os Obama, Jenji Kohan (de Orange is the New Black e Glow) e os 100 milhões só para ter a série Friends na plataforma em 2019… são muitos milhões a sair da conta. Se faz sentido tantos milhões em individualidades? Bom, só o futuro dirá se os projectos oriundos justificarão ou não o investimento. Mas antes que passem um atestado de genialidade à companhia, quero relembrar que mais recentemente pagaram 250 milhões por cinco anos de contrato com  D.B. Weiss e David Benioff (Game of Thrones…sim, foi só isso que fizeram). Os senhores cujo CV consiste em levar ao charco uma série que há muito tinha fugido à sua alçada total e dependia sim do esforço de uma multidão em multi-localizações. Responsáveis por afundar criativamente a mais badalada série dos últimos anos assim que a muleta dos livros desapareceu. Duo que nem pintados a ouro justificam que se dê 250 milhões para usufruir deles em exclusivo por cinco anos… ou cinco meses.

Marketing e Imprensa

Outra mudança na política da empresa é a publicidade que faz aos seus produtos. Inicialmente era gasto tempo e dinheiro a promover o que de melhor criavam. Mas como agora não interessa que se distinga um ou outro projecto (lembrem-se, interessa é a quantidade), as pérolas que realmente merecem atenção morrem nas areias movediças do catálogo. Não dá para perceber porque é que uma série como Mindhunter não é disponibilizada aos jornalistas para a enaltecer. Quem diz Mindhunter, diz Final Space e Big Mouth, duas animações incríveis que não divulga. Parece só haver lugar para Casa de Papel e Stranger Things, que chama um publico suficientemente vasto que o justifica. Isto sou eu a tirar ilações, mas talvez pensem que já são grandes suficientes para não terem de se auto-promover. A Coca-Cola da televisão. Mas se a plataforma não expõe na pagina inicial o que de melhor tem (ao invés apresenta lista com séries para revermos!) e se não dá oportunidade à imprensa para dar hype, que interessa criar bom conteúdo?! A descoberta de ouro só é feita quando tropeçamos na mina ou quando algum canário amigo nos avisa.

Resumindo, a Netflix é sinónimo de sucesso, uma máquina rica e com uma estratégia clara (para eles). Eu vejo uma máquina com peças a mais, pneus carecas e uma estrada incerta. Será a plataforma capaz de virar e entrar na faixa que leva a um bom rumo ou será lembrada apenas por ter sido a primeira a mostrar como se faz isto do streaming. Anunciar a morte do serviço é uma premonição que este Nostradamus não se atreve a fazê-lo. O que posso dizer é que para mim já não penso em qualidade certa, ou muito provável. Estou bastante entusiasmado com o que Disney+ nos irá dar (para lá do arquivo) e, principalmente, o crescimento da Hulu para um mercado internacional.


PS – Imagem do artigo é uma montagem com base na capa da Bloomberg Business de 05/08/19.

PSS – Não referi a BritBox no artigo porque para já ainda é um serviço que só cobre os EUA e Canada.

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