Era uma vez…*gri gri*

Tarantino é sinónimo de amor pelo cinema, planos únicos, performances memoráveis, argumento rápido e mordaz. É também sinónimo de filmes sobre “nada”.

À superfície, é difícil argumentar contra o nono filme de Tarantino. Tudo o que é a sua imagem de marca transborda por todos os lados. Isto faz com que muitas vezes dê origem a produtos brilhantes, mas dá também asas a que se caia no exagero. Este filme pega em todos esses pontos forte/fracos e, infelizmente, não se controla em exagerá-los.

No centro da história estão as duas peças fundamentais para que tudo dê certo. Sem Di Caprio e Pitt, tudo se desmoronaria rapidamente. Brad está a um nível de cool que já não via desde Troy e Leo goza da liberdade que Tarantino lhe proporciona para expandir e nos deliciar (a cena do meltdown na caravana é exemplo disso). Se ao carisma adicionarmos um argumento com espinhos, está reunido o cenário para os dois brilharem ao mais alto nível. O que acontece.

Infelizmente Tarantino não resiste em, e perdoem-me a expressão, masturbar-se durante todo o filme. Em 2h45, dá-se ao luxo de mostrar viagens de carro longas, com vários planos, ao longo de vários momentos do dia, ao som de várias trilhas sonoras e repetidas vezes. Os amantes de cinema, e especialmente de Tarantino, dirão que é isso que torna a experiência única. Eu digo que ao fim de um tempo é enfadonho, corta completamente o ritmo do filme e não acrescenta nada.

Mas, para mim, o maior pecado é o exagero de uma história cheia de nada. Não é que eu precise que tudo seja um poço de significado, tudo tenha três arcos fundamentados e encaixe como Legos. Mas chego ao final e não consigo perceber o porquê deste filme ter acontecido. Não consigo identificar uma evolução (ou não) nas personagens e o que sei no fim não é diferente do que sabia no início. O exemplo mais gritante é todo o arco de Sharon Tate, que Margot Robbie perfuma no ecrã. Se cortassem todas as suas cenas, o filme nem dava por ela.

É uma carta de amor do realizador a uma era, com um filme colorido e bonito. Mas é também a obra de um homem que claramente não tem quem lhe controle todos os desejos. Não há sumo a espremer daqui, para além de performances de classe mundial. Eu não tenho de saber a história real da família Manson para entender um filme que se passeia durante três horas, mas que ao mesmo tempo não acha necessário dar-me essa informação para o engolir melhor.

Ao entrarem na sala, não se esqueçam de ir à casa de banho, de dormir bem na noite anterior e preparem-se para gostar muito ou detestarem o que estão prestes a ver.

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