Fantasia, nos tempos de “cólera”…

Sigam o meu conselho no que toca a fantasia em televisão: baixem muito as vossas expectativas! Quer seja adaptação de livros, videojogos ou ideias originais, a verdade é que a televisão parece não ser capaz de adaptar bem o género. Nem quando lhe atira barras de ouros para cima. Poderão dar-me o exemplo de Game of Thrones para contrariar esta ideia e eu respondo que o melhor da série nunca foi a fantasia…

His Dark Materials – Hollywood tentou com o filme a Bússola Dourada e falhou redondamente numa altura em que Narnia parecia até dar um arzinho de sua graça. Esta adaptação surge sob a alçada da HBO, sedenta de um Game of Thrones 2.0, mas falha ao não perceber quem deseja alcançar. Dafne Keen, um elenco juvenil e um argumento fácil puxam as crianças, enquanto que uma Ruth Wilson, um Lin-Manuel “Indiana” Miranda e um James McAvoy esforçam-se para oferecer uma componente mais negra à historia. O resultado é uma sopa de boca doce, um pudim-à-brás, uma coisa que não é uma coisa nem outra coisa e que irá frustrar quem vê. Termos como Daemon, Dust e Magisterium nunca assentam e perdem-se noutra dúzia que nos obriga a andar com cabula para entender o que se está a passar. Uma aposta cara que nunca oferece o equivalente em conteúdo. Os 8 episódios de uma hora cada estão disponíveis na HBO Portugal.

The Witcher – o segredo aqui é não compara com livros (que nunca li) ou jogos (apenas joguei Witcher 3). Aquilo que His Dark Materials oferece a mais, Witcher oferece a menos, sendo igualmente confuso. Só nos tempos finais da temporada é que percebemos que os três arcos da historia ocorrem em timelines diferentes! Henry Cavill não diz muito mas é uma presença suficientemente carismática para cativar e Yennefer, essa sim a verdadeira protagonista na minha opinião, foram o pilar do elenco. Infelizmente o terceiro arco não é interessante, e não sei até que ponto é Freya Allan (Cintra) é culpada disso. Para contrabalançar A temática da fantasia, a série oferece muito palavrão e muita mama para prender o mais céptico, sem oferecer suficientes cenas de Cavill a esventrar humanos e bestas. Curioso em ver o que a segunda temporada nos traz, agora que as introduções foram feitas e está tudo na mesma linha temporal. Os 8 episódios de uma hora cada estão disponíveis na Netflix.

See – Aqui está uma que não caiu no goto de muita gente. See é uma daquelas com uma premissa ridícula (de que a humanidade ficou toda cega e a acção ocorre num futuro em que as pessoas regressaram às tribos), com incongruências parvas (guerreiros pintam a cara antes de uma batalha…com outros cegos), mas é também daquelas em que o orçamento tapa lacunas. É uma série bastante agradável à vista e o carisma de Jason Mamoa e a qualidade de Sylvia Hoeks (Queen Kane), Hera Hilmar (Maghra) e Christian Camargo (Tamacti Jun) tornam a experiência agradável. Não estamos na presença de um argumento fantástico, mas há cenas de luta que matam saudades de Daredevil. Os 8 episódios de uma hora cada estão disponíveis na Apple+.

Carnival Row – Deixem-me apenas salientar algo: Cara Delevingne é uma actriz medíocre. Valerian, Suicide Squad… projectos já de si fracos mas em que Cara fez mais de chumbo no sapato que boia de salvação. Carnival é mais um desses casos, e a beleza não nos torna cegos para o resto. Orlando Bloom bem tenta dar algum calibre à coisa, mas até ele parece meio de férias. O estilo steam punk/medial da série é sinal dos bolsos fundos da Amazon, mas o dinheiro não chegou à sala dos argumentistas, que criam diálogos fracos e uma historia previsível. Esta não é portanto uma “recomendação”, mas antes um “olhem, existe, vejam por vossa conta e risco!”. Os 8 episódios, com duração total de sete horas, estão disponíveis na Amazon Prime.

Preacher comete o erro de ter uma temporada a mais, é pena, mas isso não diminui a sua incrível criatividade. Seth Roguen dá o nome à produção e começa a ser daqueles que melhora tudo em que toca. Preacher é a história de um padre ex-militar (Dominic Cooper) que se vê possuído por Genesis, uma entidade que lhe oferece o poder de controlo sobre quem ouvir a sua voz. Há anjos, demónios, Deus e Lúcifer e um fantástico Pip Torrens (Herr Tarr), como vilão principal. Ruth Negga e Joseph Gilgun (Tulip e Cassidy) são excelentes. É uma série bastante crua na violência, o que poderá não agradar a todos. Mas se gostaram de Banshee, têm aqui uma série “familiar”. Os 43 episódios, com duração total de 32 horas, estão disponíveis através da AMC.

American Gods – ah, como era tão bom que esta série desse certo. A premissa de ver entidades divinas antigas em guerra silenciosa com deuses modernos, visualmente diferente e um elenco bem competente… mas sem ninguém ao leme. A série vai para a terceira temporada e para o seu terceiro/quarto showrunner (depois de Brian Fuller abandonar o projecto). A segunda temporada já não teve a mesma qualidade e sofre de graves problemas de ritmo, com esporádicos momentos de genialidade. Se gostam dos livros, de fantasia no geral e se consideram o look de Hannibal a vossa praia… dêem uma chance. Os 16 episódios, com duração total de 15 horas, estão disponíveis através do Syfy.

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