Hell on Wheels – 1.ª temporada

[SPOILERS] Dez episódios depois, o épico western chega ao fim da linha da primeira temporada. O problema é que veio mesmo de comboio, devagar e com a linha por acabar.

Quero avisar de antemão que vou dizer mais mal do que bem da temporada, o que é meio parvo considerando a nota final, mas tentem perceber onde quero chegar.

As personagens:

# O protagonista foi exactamente aquilo que se antevia depois do piloto, pior, foi o que menos/não evoluiu. Entre passar a vida a beber, cuspir para o chão e a tentar furar a testa dos outros com olhares penetrantes e grandes silêncios, Bohannon (Anson Mount) não foi equipado com diálogos de nível. Temos aquela impressão que ele influenciou todas as personagens principais, mas que ele próprio não foi a lado nenhum, um pouco à semelhança da sua procura por vingança: Dez episódios passados, fica a impressão de que ele nunca perseguiu verdadeiramente o último nome na lista da vingança e sempre que se aventurava a resolver o passado, alguma coisa acabava por puxa-lo de volta àquela cidade fantasma. O “problema deste problema” é que sendo ele o protagonista, a série fica sem grande propósito. Se o objectivo central é vingar a mulher, poderia bem ter terminado neste final, se não é…

# Thomas “Doc” Durant (Colm Meaney) foi a desilusão maior. Aquela irreverência e dureza que lhe vimos não se prolongou ao longo da temporada. A paixão por Lilly tornou-o num personagem mais “fraco” e moldável e perdeu assim caracterização. Só quando ele joga com o senador e o arruína é que temos um deslumbre daquilo que ele prometia ser.

# Elam é de certeza a personagem que mais evoluiu, parabéns ao Common pelo bom trabalho. Começa como um simples “escravo” a trabalhar nas linhas, torna-se amigo de Bohannon, chega a líder dos seus semelhantes, começa a andar armado e conquista algum respeito junto dos outros pistoleiros, apaixona-se e parece ter a sua vida encaminhada. Esta evolução torna a sua decisão de não querer assentar com a tatuada Robin McLeavy ainda mais incompreensível. Sim, ele teria de abandonar o cargo que tanto lutou para conquistar, mas teria a paz e liberdade que tanto batalhou para ter. É uma decisão que só se percebe pela existência de uma segunda temporada.

# Lilly (Dominique McElligott) foi outra subvalorizada. Após a termos visto batalhar durante os primeiros episódios, esperamos que ela se torne uma mulher mais forte e lutadora, mas nunca chega a tomar as rédeas da sua vida. No final faz Doc prometer que a mantém por perto para ver o fim da linha férrea…a fazer o quê? O trabalho do marido? Ela já forneceu os mapas e perdeu assim a moeda de troca. Queria vê-la a manter o posto pela astúcia e força, não por ser mulher e o dono ter uma paixoneta por ela.

# Os índios são outro grupo muito mal representado na série. Não se transmite o crash entre culturas e o verdadeiro conflito. Aparecem poucas vezes, dá a ideia que não passam de meia-dúzia e que o único problema deles é parar o comboinho. Falta mostrar o estilo de vida e de que modo aquela onda de modernização os ameaça.

# O Reverendo Cole (Tom Noonan) vai caindo na desgraça e não se percebe qual a sua importância no futuro. Mickey (Phil Burke) e Sean (Ben Esler) McGinnes são personagens, para já, absolutamente irrelevantes. O índio Joseph (Eddie Spears) vai amadurecendo e prevê-se que a sua influência crescerá quando o conflito com os nativos escalar.

# Deixei para o fim a melhor personagem. O Sueco (que na verdade é norueguês) revela-se uma personagem mais importante do que o piloto deixa prever, mas a maneira como é tratado no final é altamente desrespeitadora daquilo que foi durante a temporada (quase a roçar os vilões do “Sozinho em Casa”). O que é feito dos homens que andavam com ele? Após a humilhação vai-se simplesmente embora? E o apoio do Sr. Durant? Fico ainda mais indignado porque é uma personagem que, embora mafioso como as cobras, me agradou bastante e que foi muito bem interpretada por Christopher Heyerdahl. Sempre que ele entrava em cena dava mais prazer ver a série.

Um sinal de que não se seguiu um rumo consistente: Bohannon aconselha os irmãos McGinnes a não tomarem nenhuma acção ofensiva contra o Sueco, a descobrirem antes os podres que ele possa ter no armário e desmascara-lo. Pensei eu: vão descobrir a sua ligação ao senador e deixar que seja o próprio Durant a lidar com ele…não, fazem uma mini-milícia e expulsam-no da cidade.

Perguntam vocês, mas “Hell on Wheels” seria uma grande série se traçasse o seu objectivo para uma só temporada? Teria sido melhor, mas o problema não se restringe a isso. O defeito está na abordagem a uma grande variedade de temas sem nunca se focar verdadeiramente em explora-los. Não é uma série sobre os desafios da construção porque passam grandes períodos sem nunca ser referenciado (é como a escola em “Vampire Diaries”, só existe para encher os espaços de tempo em que as personagens não estão a fazer outra coisa qualquer), não é sobre a escravatura, sobre as mazelas da guerra civil americana, nem o conflito com os nativos, é tudo! E já se sabe o que acontece quando se tenta fazer tudo ao mesmo tempo, não se faz nada bem.

Para quem leu a minha introdução à história reparou que dei bastante destaque a um monólogo de Durant. Esse momento levou-me a pensar na altura que esta seria uma série com grande escrita, de épicos confrontos de palavras que só um ambiente western poderia fornecer, foi antes mais uma desilusão. Os diálogos foram pobres, considerando a expectativa, e em muitos casos usou-se e abusou-se dos olhares frios e cuspidelas para o chão numa tentativa de dizer alguma coisa. É ainda pior quando pensamos que vem da mesma estação de “Mad Men”, “Breaking Bad” e “The Walking Dead”, séries que têm os seus momentos lentos mas que os complementam muito bem com grandes palavras.

Obviamente que a série tem aspectos positivos: As personagens centrais evoluem, temos a noção que elas ultrapassam desafios e conseguimos criar alguma afecto por elas; Se o ritmo mais lento não é um problema, é bem agradável de se ver; Representa bem os costumes, o ambiente e as dificuldades de um certo tempo na história; A realização e fotografia poderiam ter sido bem mais exploradas mas fazem um excelente trabalho; Tem alguns momentos fantásticos (o genérico, o discurso de Doc no piloto, a sobrevivência de Lilly durante os primeiros episódios, a música “Jamais Je Ne T’oublierai” no quarto episódio e a batalha e a música no início do nono).

Um sinal de que não souberam criar expectativa: A revelação de que afinal o Sargento não estava presente na altura da morte da mulher de Bohannon não foi só revelado após a morte da personagem, já o sabíamos quando ele o disse ao Sueco. Quando houve surpresa do protagonista não conseguimos associar-nos a ela, perdeu-se um clímax. Mais, a surpresa que Bohannon teve não foi nenhuma, o homem fartou-se de dizer que não estava lá até ter as mãos à volta da garganta. Porque é que ele não sacou logo do papel?! Era logo a primeira coisa a fazer! Enfim.

“Hell on Wheels” é um estereótipo de uma era, uma história que tenta contar muita coisa mas que não conta nada, é no geral vazia e mal escrita. Vale por alguns personagens e teve alguns momentos excelentes ao longo dos episódios, mas não é o suficiente para nos prender loucamente. Vou continuar a acompanhar, mas sem qualquer expectativas de alto nível. É uma série satisfatória que poderia ser muito mais, o potencial está lá!

O Melhor: O Sueco. A representação de uma era. O “Doc” do piloto. Os olhos e sorriso de Lily.
O Pior: A escrita. A falta de um objectivo final plausível. A banalização de algumas personagens.

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