Homeland: 1×02 – Grace

[SPOILERS] Muito se passou desde que escrevi sobre o piloto de “Homeland”. A crítica rendeu-se, quem não ia espreitar, deu uma vista de olhos e adorou. Promete ser (muito provavelmente) a melhor estreia da temporada… só ainda não me explicou o porquê daquele shot em que Claire Danes se “limpa”…

Antes de mais o genérico. Mostra a nossa protagonista a crescer com os sucessivos ataques terroristas aos EUA e respectivos depoimentos dos presidentes. Explica o porquê da sua determinação em prevenir um novo ataque, agora que pode fazer algo em relação a isso. Mas mostra muitas vezes um labirinto, ou seja, o caminho não vai ser fácil e muitos becos sem saída vão surgir (um paralelismo com a sua mente confusa também). Mais um bom genérico que a Showtime já nos habituou.

Brody (Damian Lewis) está claramente afectado pelos anos que passou em cativeiro. Os “ataques” à sua mulher, pesadelos em que escava o túmulo do seu companheiro (destaque para a realização nessa cena), tudo sinais que o trauma está bem presente, quer tenha sido convertido ou não. Todo um mundo se abriu para ele, mas precisa ainda daquele canto de parede para se sentir seguro.

Na sua família as coisas estão muito frágeis, as caras são falsamente simpáticas e está tudo num estado indefinido. Nota-se no entanto um real esforço da parte da mulher Jessica (Morena Baccarin) para remendar a relação e compensar o tempo perdido.

Saul (Mandy Patinkin) tenta ajudar a sua protegida com um caso sólido. Enquanto ela persegue caminhos tudo menos legais e moralmente aceitáveis, ele exerce pressão sobre um juiz em quem parece ter algum tipo de chantagem. Não chegamos a conhecer estas duas personagens antes deste momento de tensão, mas sente-se que uma barreira de confiança entre mestre/aluna, entre amigos, foi realmente quebrada. Saul acredita nas capacidades de Carrie (Claire Dannes) como investigadora, nos seus instintos, mas não lhe vai dar mais “linha” do que tiver que dar. A “traição” foi grande demais para ele, não pelo acto em si, mas pela pessoa que o cometeu.

Pormenor de um pé pintado e outro não. A bipolaridade da personagem, o certo e o errado, o culpado e o inocente. A série nunca nos deixa criar uma ideia permanente do que está a acontecer, ora está a mostrar um Brody frágil e inocente, ora está a mostrar uma interpretação válida, e culpada, do que está a acontecer do ponto de vista de Carrie.

Depois da melhor entrevista de emprego que já vi, ficamos a conhecer uma informadora que trabalha para o Príncipe Farid, personagem que será mais activa nos próximos episódios. Pela primeira vez em oito anos, são registadas imagens do terrorista mais perigoso do mundo, na mesma altura em que Brody aparece.

David Estes (David Harewood), em mais um passo político, faz pressão junto do Capitão Faber (Diego Klattenhoff) para que este pressione o seu camarada de armas a voltar ao activo e para a frente das câmaras. Caso seja preciso um pequeno incentivo é só relembrar a amizade colorida com a mulher e deverá chegar. A ideia de não deixar esquecer que a ameaça é real pode parecer nobre, mas é claro o interesse que o medo geral nunca desapareça junto do público, caso contrario as forças armadas e os serviços de inteligência ficariam sem trabalho. Enquanto isso não acontece, Estes tira prazer em carregar nos calos de Carrie.

A reacção face à proposta de se tornar o rapaz de propaganda no exército não caiu bem, e mais uma vez surge a dualidade: a sua raiva perante a guerra inútil que travou, que lhe roubou oito anos de vida e substituiu por oito anos de tortura e dor, é a de alguém que descobriu outro propósito e outros ideais, ou um simples soldado que quer viver a sua vida em paz, na tranquilidade do seu lar?

Mentir faz parte da profissão de Carrie, mas ter de o fazer para assegurar uma informadora terrificada não é de certeza a sua ideia de um bom trabalho. No entanto ela também já percebeu que Brody é um excelente mentiroso (quando diz que está tudo bem À mulher, depois de passar horas no chão).

Surgia a dúvida de como é que Carrie arranjava os comprimidos, como mantinha a sua doença escondida do olhar abrangente da agência. A sua irmã, que também cuida do pai de ambas que sofre da mesma doença, serve como “traficante”. A obsessão pelo trabalho afastam-na de uma vida normal, de uma vida com interacção com a família e amigos.

O episódio acaba da mesma maneira que o piloto. Com uma noção de culpa de Brody, desta vez ao vê-lo a rezar a um Deus que não o esperado. Seria uma questão de tempo até que Brody explodisse e nestas alturas aparece sempre um repórter que está mesmo a merecê-las. Porque é que Brody inspeccionou o shopping todo? Só a actualizar-se sobre os novos produtos e comprar o tapete mais adequado ou para deixar pequenas pistas? Terá sido uma nova crença que descobriu durante aqueles anos e lhe trouxe uma sensação de paz e força? Ou o começo do plano pré-definido aquando da “conversão”?

Confesso que receava por “Homeland”, mesmo após a brilhante estreia, a série pudesse perder força, mas não foi claramente o caso. As interpretações são brilhantes, o trama está bem definido mas, acima de tudo, adoro aquela noção de dualidade que nos acompanha ao longo de todo o episódio. Damian Lewis confirma o que se viu em “Life”, o grande actor que é. Claire Dannes é uma excelente antagonista e parceira, juntos fazem um grande par.

Melhor: Damian Lewis, perfeito! A noção que estamos a ver algo para adultos.
Pior: A não instalação da câmara na garagem foi de um amadorismo que não me convenceu, uma maneira “barata” de manter Carrie na ignorância. Podiam ter arranjado melhor desculpa.

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