Homeland: 3×01 – Tin Man is Down

[SPOILERS] Aqui está ela. A nova temporada de “Homeland” renasce das cinzas (literalmente) qual Fénix, para satisfazer as nossas necessidades e nos curar da ressaca que a curta temporada e o longo tempo de espera provocam. Mas será um voo para a glória ou uma queda para o abismo? Será esta a temporada da confirmação ou a prova que a primeira temporada é apenas a memória?

58 dias desde que 219 morreram em Langley… No meio da “nossa” intriga, envolvendo os protagonistas que conhecemos, não nos podemos esquecer que mais pessoas morreram naquele dia. A série consegue fazer-nos centrar nos indivíduos sem nunca esconder que os seus actos têm impacto em centenas/milhares de vidas.

Esquecendo por momentos que vimos Quinn a fazer uma bomba doméstica como quem cose uma bainhas das calças, encontramos a nossa loira a ser interrogada por um comité, habitualmente formado em casos excepcionais para apurar responsabilidades, sobre o atentado. Embora tenha servido com uma boa rampa de lançamento para o episódio, fez-me logo impressão a facilidade com que a lágrima espreita no canto do olho de Carrie (Claire Danes). Estou a sete minutos do episódio e todo um flashback percorreu a minha cabeça, lembrando-me que 97% do tempo de antena da personagem até agora inclui lágrimas, sangue ou ambas.

Saul (Mandy Patinkin), agora no comando das operações, assumiu o novo cargo nas piores circunstâncias possíveis. Dar Adal (F. Murray Abraham) – relembrando que é um director de operações da CIA que apareceu no episódio nove e 10 da temporada anterior – abre os olhos do velho amigo para o facto do governo, e possivelmente a opinião pública, estarem de costas voltadas à agência, questionando a sua utilidade. Saul reafirma que não quer fazer de Carrie um bode expiatório, embora saibamos que ela consegue “enterrar-se” perfeitamente sozinha. Toda a personalidade tempestuosa continua bem latente, bem debaixo da pele, pronta a explodir quando provocada. O rastilho é pequeno e toda a gente parece querer acendê-lo, incluindo a própria, que não faz mínima intenção de abrandar, desafiando tudo e todos. Vamos esquecer por momentos que Carrie quer provar a inocência do seu amor: se por um lado o caso contra Brody é bastante forte (a CIA não pode assumir a existência do primeiro atentado não concretizado por Brody com o risco de adicionar ainda mais culpas ao cartório, logo, a confissão é “obviamente” para o atentado em Langley), também é verdade que a nossa agente já provou que o seu raciocínio “fora da caixa”, diferente do que toda a gente pensa, costuma estar correcto. É só preciso alguém que confie nela, e agora já não chega Saul.

Na última análise questionava-me que importância teria a família de Brody daquele ponto em diante. Se por um lado foi óbvio (para mim pelo menos) que esse lado da história representou o ponto mais fraco da temporada passada, também me parece que retirar Morena Baccarin, nomeada para um Emmy pelo papel, seria algo altamente improvável. Dana (Morgan Saylor) assistiu horrorizada à confissão do pai na televisão e a pressão foi demasiada para a jovem, que tentou matar-se. Um salto um tanto exagerado já que não vimos nada no finale que pudesse justificar isso. É compreensível e aceitável, mas dá a ideia que foi pensado durante o hiatus para dar significado à personagem. Vê-la num grupo de apoio e aparentemente restabelecida não chateia, chateia sim o início de mais um caso amoroso de adolescentes. E todos sabemos a imensa importância para a história que o último namoro dela teve…

Não sei se fui só eu que pensei assim, mas até à reunião em que nomearam Majid Javadi como responsável, pensei que tinha sido Nazir o pai do ataque a Langley (tinha planeado o assassinato do Vice-Presidente para juntar toda a gente no funeral e aí sim, desferir o derradeiro golpe). A necessidade de criar um novo mau da fita para a temporada talvez justifique a necessidade da mudança, ou talvez fosse essa a ideia desde o início. A mim fez-me “comichão”, mas ok.

Considerando que Saul e Carrie foram os protagonistas deste episódio, há uma palavra que descreve a acção dos personagens: inércia. Saul, inundado pelo peso do cargo que lhe foi atirado para cima, recusa-se a tomar decisões. O efeito disso faz-se sentir na vida profissional, assim como na pessoal, em que o alienamento de Mira (Sarita Choudhury) é evidente, apesar dos esforços desta em reconstruir a ponte. Carrie está numa inércia imposta, equiparável a uma leoa enjaulada. Uma leoa bipolar e teimosa que se atira contra as grades e só se magoa a ela própria. Obrigada a mentir para proteger a CIA, é acusada de traição, o pior que lhe podiam dizer. Já em “24” os produtores tinham a capacidade de criar personagens profundamente “irritantes”, capazes de nos assolar com um enorme sentimento de injustiça e vontade de lhes partir a cara, é notória essa capacidade em “Homeland” também. Este congressista que lidera o comité é prova disso.

O momento “activo” do episódio veio com o assassinato hexagonal de responsáveis pelo acto terrorista. Importante do ponto de vista militar, mas ainda mais do ponto de vista de relações públicas. Sim, Brody é o Osama Bin Laden neste cenário, a face do mal, mas este múltiplo golpe assegura o futuro da agência e eliminação de alvos cruciais. É também aqui que regressamos a Quinn (Rupert Friend) e ao sentido de ironia que a série tão bem faz: não cumpre o plano inicial porque não quer vitimizar a criança, mas acaba por ser o carrasco pessoal dela na casa. Será que isso o vai perseguir durante muito tempo? Curioso por ver em que consiste o futuro da personagem agora.

Mas quem pensa que um cenário de guerra seria o momento mais tenso do episódio é porque nunca esteve numa sala com Carrie enervada. Digo-vos uma coisa, é mesmo difícil gostar desta mulher. Depois da tempestade no restaurante é impossível não pôr a mão na testa e abanar a cabeça. Nem referindo a estupidez de falar o nome Brody num restaurante cheio de gente, mas desafiar abertamente os chefes é uma atitude francamente estúpida. Justificável, compreensível, mas tremendamente estúpida.

O final do episódio veio provar que as maiores dores chegam por palavras e não por balas. Não só Dana ouve que a sua avó a menosprezar a tentativa de suicídio (e talvez a incentivar uma segunda tentativa), como Carrie sente a traição de Saul, a nível nacional. Muito provavelmente a sua figura paternal teve de o fazer para proteger a agência, um motivo de força maior, mas fê-lo. Saul não pode mais desafiar a cadeia de comando para apoiar a pupila, é ele que está no topo dessa escada! Carrie deixa assim de ser a leoa em cativeiro, para ser um cordeiro no meio da alcateia. Muitas vezes a série coloca-nos numa ponto em que questionamos o que mais pode acontecer a uma personagem que a “enterre” ainda mais… normalmente é imediatamente antes do seu destino sofrer uma volta de 180º. Será o caso?

Um bom começo que lançou uma temporada que promete ser conflituosa e tensa. Disse-o antes e repito-o: a verdadeira relação e a que vale a pena esmiuçar, pelo menos no meu entender, é entre Carrie e Saul. Foi boa a decisão de focarem neles a acção deste regresso. Há batalhas a travar em todas as direcções e Carrie não parece capaz de aguentar com o seu próprio peso nem a CIA com o massacre social. A ausência de Brody (Damian Lewis) é claramente propositada, com a intenção de nos deixar curiosos sobre o seu paradeiro e missão, mesmo assim a sua ausência fez-se sentir. Foi um episódio mais centrado em resumir e cimentar a temporada anterior do que em desenvolver e lançar a nova. Como principal ponto negativo, e chamem-me implicativo, mas o arco de Dana. O salto narrativo entre a miúda desolada com a confissão do pai e a que que sobreviveu a uma tentativa de suicídio e está recuperada foi demasiado grande e rebuscada para mim. Teria sido interessante ver esse momento da “queda” da personagem. Como se isso não fosse mau o suficiente, metem-na mais uma vez num arco desinteressante, com mais um interesse amoroso. Esta é a série de conflitos mundiais, tensões de alta patente, assassinatos cruciais, atentados bombistas… e da Dana a ser adolescente. Não me interessa minimamente, independentemente do quanto a actriz é boa.

Notas / Curiosidades:

  • O caderno em que Carrie faz um diagrama fez imediatamente lembrar aquela parede do final da primeira temporada, em que por momento ela encontrou serenidade na loucura dos seus pensamentos.
  • A imagem de Carrie a olhar para o Capitólio é comparável à de Brody a contemplar a Casa Branca no piloto. Duas guerras pessoais.
  • Para alguém que a vida como espiã, Carrie é uma horrível mentirosa.
  • O eterno problema de usar jovens actores em séries: eles crescem mais depressa do que deveriam. Comparando as fotografia que Dana tem no quarto, assumindo que não foi muito tempo antes do finale, é notório o quanto cresceram. Principalmente Chris Brody (Jackson Pace) que deu um verdadeiro salto num espaço de dois meses.

  • Curioso ver Saul a dizer que a CIA não é uma companhia de assassinos, mas antes de analistas mais perto de serem “psicólogos armados” cuja função é a busca de informação, do que da aquela imagem que temos do James Bond. Também curioso é que ele tenha dito isto na noite anterior a ter morto seis terroristas simultaneamente!
  • Algo me diz que no mundo real, matar uma criança não é um impeditivo para levar a cargo uma execução pela CIA.
  • Dana, a suicida, a quebrar o gelo de uma conversa com uma piada sobre suicídio.
  • O que significa aquele momento de sexo fortuito de Carrie? Brody não está esquecido, terá sido apenas carnal? A necessidade de sentir algo de bom no meio de tanto desastre?
  • Os alvos assassinados têm alcunhas da história do “Feiticeiro de Oz”.
  • O que é feito de Mike Faber (Diego Klattenhoff)? Vai continuar a ser usado apenas como “penso rápido”?
  • O leque de bons actores continua a crescer. Podemos ver David Portillo (Pedro Pascal – antes de o vermos em “Game of Thrones, em 2014) e Tim Guinee como novo Galvez. Esperemos que não tenha o mesmo destino inútil do seu antecessor.
  • Não se esqueçam de fazer “gosto” na pagina de “Homeland (Portugal)” para estarem a par das novidades da nossa série.

O Melhor: Foco em Carrie e Saul e a excelência da representação dos dois actores.

O Pior: Tínhamos mesmo de começar com a Carrie chorona? O salto narrativo rebuscado que deram a Dana, o facto do seu arco não interessar para nada e uma avó que cai meio de para-quedas.

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