Homeland: 3×03 – Tower of David

[SPOILERS] Torre de David é uma cidadela construída em 200 antes de Cristo e que servia de forte num dos portões de entrada da velha Jerusalém. Destruída e reconstruida com as invasões de vários povos, contém achados arqueológicos com mais de 2500 anos e o seu nome deriva da crença que é o mesmo local do palácio do lendário Rei David, que alguma doutrina cristã acredita ser um ancestral de Jesus e o Islão um profeta. O seu filho foi o Rei Salomão.

A acção em que este episódio se desenrola não é a mesma, mas é UMA Torre de David. Vítima da fuga constante, Brody (Damian Lewis) reaparece num estado lastimoso, entre a vida e a morte. Não nos contam o seu paradeiro até então, mas não é difícil de adivinhar que é feito de correria, fugindo a quem o quer morto ou vivo. Acaba por cair nos braços de um “aliado” que parece estar a pagar algum grande favor a Carrie. Terá de ser grande para se arriscar a esconder um homem que sete biliões de pessoas andam à procura.

O cenário escolhido para esta recuperação em cativeiro é muito bem pensada: Brody está livre, mas na verdade está “preso”, como que num palácio bem alto nas nuvens, mas rodeado de pobreza, cercado por armas, mas com uma alma caridosa a tratar dele (Esme – Martina García), com o som da mesquita para lhe dar algum felicidade, mas sem liberdade para a visitar. Uma amostra da ambiguidade que a série faz tão bem. Na análise passada queixava-me que Brody estava demasiado ausente, agora queixo-me de overdose. Os primeiros 20 minutos do episódio têm cenas que se prolongam demasiado (exemplo disso é que Brody cai e a acorda do “coma induzido” umas três vezes), e embora entendo que seja uma maneira de contar a história, de nos emergir na sua vida e pensamento, poderia muito bem ter sido mostrado aos poucos nos dois primeiros episódios, minha opinião.

Entretanto, a sua “amada” está num tipo de prisão diferente. Três semanas após o último ataque histérico e do “Fuck You” mais sentido dos últimos tempos, Carrie (Claire Danes) tenta ludibriar o médico para conquistar também a sua liberdade, sem sucesso. É palpável o seu desejo de sair dali e sofremos com a personagem, não só porque sentimos a sua dor mas porque o seu arco está em stand by sofrível enquanto estiver cingida a paredes almofadadas. Com o regresso da medicação vem também a sensação de adormecimento dos sentidos que tanta confusão lhe faz, talvez por isso se tente magoar, para que sinta algo novamente.

Descritos os cenários, a segunda metade do episódio faz por mostrar ambas as histórias em simultâneo, como real par que são. A mesquita em que Brody procura refúgio representa mais do que a saída da torre, quando Brody estava refém de Nazir, foi o Islão que lhe deu paz e esperança e o objectivo aqui era o mesmo. Mas ele já não é aquele “Nicholas” e o mundo não é como ele desejava que fosse, remetendo-o mais uma vez para um buraco que lhe deixa más memórias. Devo confessar que não gostei minimamente deste médico que o acompanha ao longo do episódio. Ao início parece ser uma coisa e depois vai ficando cada vez mais estranho ao longo do episódio, revelando-se um pedófilo meio sádico que quer viciar Brody em heroína sem razão aparente, a não ser “adormecer” a sua vontade de escapar. Por falar em escapar: para onde quer ir Brody?! Entendo que as acomodações não sejam cinco estrelas, mas para um fugitivo de escala mundial estar num lugar relativamente seguro já é bom! Quer fugir pela simples noção de não estar muito tempo no mesmo sitio? Não se percebe… Já Carrie encontra uma aliada dentro do hospital, sem que nós percebamos o porque de esta arriscar tanto a ter problemas no emprego por uma simples paciente. A entrada deste “advogado” enigmático parece ter dado a Carrie mais força do que duvida. Será mesmo um espião estrangeiro, será uma tentativa de Saul em ver se Carrie ainda é de confiança, ou será algo completamente diferente? Seja o que for, deu um alento à pobre coitada, basta puxarem pelo seu sentido patriótico.

Ambos os personagens têm a sua Torre de David. Um lugar que os afasta do mundo real e que lhes prende não só o corpo mas a mente. Escrito pelo mesmo homem de “Q&A” e “Broken Hearts” da temporada passada, devo confessar que não gostei (pessoalmente) assim tanto do episódio, embora lhe reconheça qualidade. Simplesmente não concordo com a maneira como tudo isto corre e se desenrola, tanto o arco de Brody como o de Carrie. Não consigo identificar para onde tudo isto caminha, o que é mau considerando que quase um terço da temporada já lá vai. Apenas identifico a vontade de contar a vida atribulada de personagens ao invés de o fazerem com uma história de fundo que prenda. Outra coisa em que este episódio falhou, aliás, em que a temporada tem falhado, foi na verdadeira ligação das personagens pilares. Quer queiramos ou não, estas duas almas penadas estão unidas pelo amor, mas até num episódio que se focou em retratar as suas misérias não houve um pensamento de Brody para Carrie ou um sinal de que esta pensa nele, zero! Podiam argumentar que a série não é sobre o romantismo deles, mas esse barco há muito que partiu, porque não foram os fãs a desejar que isso tivesse tanto impacto na história, por isso não vale a pena agora a série fazer de conta que nada se passa. Um episódio diferente, que valeu só por isso.

Não se esqueçam de visitar a Torre de David de “Homeland (Portugal)“, lá também não se está mal…

O Melhor: A viagem de sofrimento de Brody, que embora demasiado extensa, foi bem feita. A história do do casal ser contada em paralelo. Carrie berrou, mas não chorou. Não houve Dana.

O Pior: Para onde caminha a história? O médico estranho, sádico e pedófilo. A previsibilidade de que o paraíso de Brody ia ser temporário. Não houve Saul nem Quinn.

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