Homeland: 3×09 – One Last Time

[SPOILERS] A recta final começa aqui e eu estou entusiasmadíssimo, quer dizer que o suplicio desta temporada pode estar a acabar.

Voltamos à valsa que é o contraste entre Carrie e Brody, ou melhor, a coincidência de destinos e locais. Enquanto Carrie (Claire Danes) está “presa” a uma cama de hospital depois de Quinn lhe ter enviado um carinho a 900 metros por segundo no braço, a rapariga continua num sacrilégio, desta vez a de ter uma conversa com Lockhart. Depois de ter tentado formar aliança com Adal (será que não conseguiu?!), tenta agora esticar a mãe a Carrie, mas sem sucesso. Não sei se é costume uma pessoa que não está no cargo ter tanto acesso e tanta informação da agência, mas vamos lá presumir que sim, pronto. Do outro lado do espectro, como sempre, está Brody.

O episódio dedicado a ele, quer se tenha gostado ou não, provou o que já era mais que certo: Damian Lewis é um actor fantástico, este só vem acrescentar mais um tijolo ao muro dos elogios. Consumido pelos sintomas do desmame é ainda assim sujeito a um tratamento de choque que até o faz alucinar (e a acelerar o processo para efeitos de história) com o ex-melhor amigo Tom Walker (Chris Chalk). Todo o processo está muito bem representado, não só pelo actor mas pelos pormenores que fazem questão de nos mostrar (o lençol com as manchas castanhas das fezes). Brody é, no início do episódio, um homem quebrado e derrotado, sem vontade de viver que quando confrontado com a possibilidade de se redimir, não o aceita, longe daquela persona que vimos a caminhar para o helicóptero no final. Pelos vistos é também um homem que não pergunta pela mulher que ama…

A conversa entre Carrie e Saul (Mandy Patinkin) confirma mais uma vez a minha opinião: Carrie é uma péssima espiã! Uma analista incrível, de uma inteligência e capacidade estratégica incríveis, mas com uma capacidade de esconder emoções igual a uma criança de seis anos. Não esconde a surpresa da viagem a Caracas com Lockhart e no chat com Saul mostra todos os pontos que a afectam. Não estamos a falar de uma missão em terreno inimigo, mas ela é, em todos os aspectos, a sua pior inimiga. Outro ponto que me saltou à vista foi o modo como a conversa se desenrolou de modo a que nenhum deles confirmasse que sabia onde estava Brody. Terá Carrie ficado zangada por Saul lhe mentir sobre ir a Caracas porque sabia que Brody lá estava? Quando acusa Saul de o tratar mal, ele responde que o “encontrou” daquela maneira, mas pode querer apenas dizer que ele ordenou que o grupo mantivesse Brody em cativeiro mas não autorizou que o drogassem. Outro ponto que suporta a teoria de ter sido Saul a pagar pela protecção e não Carrie (como o “Homem Aranha” disse), foi a rapidez com que encontra o soldado caído, como se soubesse desde sempre que ele lá estava. Se por acaso nenhum deles sabia, porquê referir o nome de Carrie? Apenas para tranquilizar Brody?

O que me irritou na conversa foi mais uma vez o moralismo com que me tentaram violar. Saul fala da possibilidade de este homem infiltrado ser uma ponte para que estes dois países se sentem à mesa das conversações e se discuta paz, bla bla bla whiskas saquetas e arco-íris a sair do rabo! Javadi é uma fonte de informação, uma fonte à revelia ainda por cima, sem qualquer ligação ideológica aos EUA. Não estamos a falar de um agente americano infiltrado a puxar cordelinhos e, tal como Saul referiu, torna-se e um dos três homens mais influentes, não um íman das decisões. Além disso, qualquer alteração em comportamento (pró-EUA) levantaria altas suspeitas sobre a sua lealdade. Mais, quem conhece minimamente o regime iraniano sabe que quem detém a maior parte da decisão no país é o líder religioso (e político), o Aiatolá. Mas lá está, é importante mostrar que estamos todos com intenções de paz e tal (calhou mesmo mal ser na semana em que se fala de armas nucleares no Irão do mundo real). Fora isso, Saul mostra continuamente que é o mais lúcido em tudo isto e o seu plano faz sentido. Com o prazo limite a aproximar-se é preciso “abri” Brody e essa chave é Carrie, apesar de em ponto algum nesta temporada a série ter feito por mostrar a ligação entre estas personagens, zero! A maneira como os mostraram ligados nos dois pontos da temporada não foi a nível sentimental, foi a nível clínico.

O plano de Carrie em usar Dana (Morgan Saylor), que pelos vistos se comprometeu mesmo a uma nova vida, tem pontos positivos e negativos: se por um lado dá um sentido a Brody, uma noção de objectivo (redempção aos olhos da filha), acaba por manchar ainda mais a imagem dela própria aos olhos dele. Ao seu novo camarada de armas Brody confessa que não há nada entre eles, o que vai de acordo ao que tem mostrado nos últimos tempos, mas pode também ser uma mentira. Permanece a pergunta: porque está ele zangado com ela?

O encontro de Brody com Dana deve ter sido o momento a que Gansa se referia quando disse que Brody ia ter um papel fundamental e que Dana era a ligação com ele. Pois bem, como seria de esperar, não valeu a pena o sacrifício das cenas de Dana. Antes de mais, é importante falar sobre a reacção dele em saber que a filha tinha tentado o suicídio. Carrie fez bem em guardar essa para o fim porque é a que mais custa ouvir e à qual Lewis soube reagir tão bem. O encontro cara a cara foi um bom momento por vários aspectos: Foi bem representada, não caiu em nenhum cliché de filha aos abraços com o pai, nem exagerou no rejeite por parte dela. É notória a sua dor, mas não a representou de modo estridente como eu esperava, foi lúcida. O curioso é que ao não nos darem um final feliz para a situação acaba por motivar ainda mais Brody para a missão, querendo voltar para mostrar algo à filha.

Mas mais uma vez o digo, o saldo da prestação de Dana continua muito negativo. Era possível trazer a personagem até este ponto sem nos terem mostrado tanto e sem meter aquele romance pelo meio. Os fins não justificam os meios, aqui está a prova. Apesar de tudo, este é para mim o melhor episódio da temporada. Teve fundamento, foi muito bem representado e orienta a história. As inconsistências continuam lá, mas quando o episódio é agradável de se ver torna-se mais fácil aceitá-las e fazer por as ignorar. Continuo a achar que esta melhora vai tarde de mais para salvar a temporada, mas o episódio não tem culpa. Foi bom.

NOTAS:

  • Gostei de ver a relação Saul-Carrie. Sempre foi dos pontos que mais me interessaram em toda a série e foi muito curioso ver as constantes (pequenas) mentiras que cada um conta ao outro, enquanto tentam ao mesmo tempo remendar a relação. Carrie foi pertinente ao dizer que têm de se entender ou pelo menos fingir bem, mas devia tê-lo dito ao espelho.
  • O caso “Amante de Mira” acabou por não dar em nada de muito complexo. O sumo é que Saul conseguiu mais tempo para preparar a missão. Para além de ser um pouco imperceptível o porquê de Lockhart usar um espião israelita para o trabalho, pode-se dizer que parece irrealista que Saul tenha abdicado de uma arma tão poderosa para resolver de vez o cancro que é Lockhart, mas acaba por ir de acordo com o personagem. Saul é consistente e precisamos que ao menos ele se mantenha lúcido.
  • Brody diz que quer voltar não só por Dana mas por Carrie (ficou subentendido). Torno a perguntar, porquê? Não basta a série dar estas frases de intenção, é preciso mostrar mais! Não digo mostrar mãos dadas em direcção ao pôr-do-sol, mas alguma coisa! De intenções está o inferno cheio.
  • Muito provavelmente a Showtime não deixou que Brody morresse quando devia, força dos prémios que angariou para o canal e de todo o mediatismo que puxou para a série, obrigando os produtores a mudar os planos… mas se têm uma arma deste calibre no arsenal, porque não usá-la mais vezes?! Este episódio provou que Damian Lewis faz falta a “Homeland” e não é coincidência que esteja nos dois picos de qualidade na temporada. Um desperdício.
  • Viram como a cena do “afogamento” mostrou mais o estado de espírito de Brody do que qualquer fala que ele pudesse ter? É bom saber que a série ainda sabe o que é o “show, don’t tell“.
  • Tudo bem que Brody só viu Dana no carro, mas nem quis ver o resto da família… o puto não interessa nem a Brody!
  • “Homeland” é a série que perde episódios inteiros com Dana e depois acelera a recuperação de Brody em modo flash (só faltou uma montagem com música), que fica entre o impossível e o caricato. Embora o tenham feito de um modo “aceitável”, e que passa mais ou menos despercebido, quando paramos para pensar faz alguma impressão.
  • Depois de não aparecer na semana passada, Quinn aparece quase só para dizer que vai às aulas. A série gere muito mal estas coisas.
  • Visto que Fara (Nazanin Boniadi) não estava presente na reunião onde estava Quinn, não deve ter ido trabalhar ainda.
  • Dana não estava a viver com uma amiga?!
  • Com a perspectiva que esta missão ocupe muita da atenção da equipa no resto da temporada, como fica o arco dos advogados/bombistas?
  • Podemos adicionar o tabaco ao número de coisas às quais Carrie faz o bebé passar… se sobreviver, vai nascer já um Navy SEAL, tal as adversidades que já superou.
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  • Já chega de notas, não?!

O Melhor: Damian Lewis. A viagem de Brody entre o início e o fim do episódio. Os momentos de lucidez das personagens, da história e, como resultado, da série. Os furos na lógica tornam-se mais aceitáveis quando a série é mais agradável de se ver. Saul, o lúcido.

O Pior: Que Carrie não seja sempre a personagem do final deste episódio. Não conseguir evitar a sensação de “é tarde de mais para salvar a temporada”.

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