Homeland: 3×12 – The Star

[SPOILERS] É sabido o meu entusiasmo para esta temporada, o quanto ela me entusiasmou e deliciou e a quantidade de momentos inesquecíveis que ficaram para sempre no Hall of Fame da televisão. Pois muito bem, agora a isso acrescentem o facto de ter sabido de antemão o maior spoiler deste final (novamente, muito obrigado a essa pessoa) e imaginam a minha vontade em ver este finale. No fundo não é spoiler, porque já tinha referido que se adivinhava, ainda assim gosto de ter a escolha de não ser spoilado. O Natal traz ao de cima o melhor e o pior das pessoas e os season/midseason “finalez” desta época trazem a vontade incontrolável de alguns em querer mostrar aos outros, o mais rapidamente possível, o quanto não conseguem conter-se. Mas enfim, vamos à recta final que já se faz tarde.

A frase cliché para se iniciar um texto destes é dizer que “o palco está montado”, mas o termo mais acertado neste caso é “a peça acabou, está na altura de arrumar a sala”. Brody faz as limpezas, Carrie (Claire Danes) anda e Javadi vira o volante para direita e o carro vai para a esquerda… Uma hora para nos dizerem de que modo pretendem salvar a temporada. Não ocorreu a ninguém que se o plano fosse bem-sucedido, Javadi iria ser, como novo líder, responsável pela caça ao homem e isso requeria um sacrifício. Honestamente não me ocorreu antes, mas agora faz todo o sentido: Javadi tem de caçar Brody para que a sua posição seja cimentada. Saul não quer ver a decisão inteligente e opta pelo coração. Não é que tenha muito a perder, mas para arquitecto deste plano, não foi o movimento com mais lógica.

Durante a viagem de carro até ao ponto seguro, começamos a ver a “despedida” de Brody. Um momento de contemplação que nunca é sinal de algo bom. Quando um personagem, em qualquer série, começa a falar da sua infância com um olhar perdido no horizonte ou em contemplação, é sinal que não sobrevive muito mais tempo. Se a isso juntarmos a necessidade que “Homeland” tem em fazer sempre o contrario daquilo que passa episódios a construir e que a cara de felicidade e alívio espelhados nas faces de Carrie e Saul (Mandy Patinkin) quando planeiam juntar-se todos na Alemanha para beberem umas ‘jolas, estava mesmo a pedir tragédia…

Quando algo nasce torno, dificilmente se endireita. Quando o “torto” é algo que pode nascer, não há nada a fazer. Esta gravidez nunca deveria ter acontecido, nunca deveria ter sido um arco e muito menos numa temporada tão mal orquestrada como esta. Nunca haveria um tempo certo para Carrie contar a Brody mas não me restava grandes duvidas que iria ser usado como uma arma ou consolo. Dito quando Brody está deitado no chão a morrer, com a cabeça no seu colo a dizer que tem muito frio e que está a ver uma luz ou, o que foi o caso, para lhe dar algo porque lutar. O sargento tem ser uma vez mais a voz da razão e explica à moralista Carrie (a frase “És um marine, as regras são diferentes” vai ficar gravada na minha memória!) que nem sempre os fins justificam os meios e ela larga a bomba, como sempre gosta de o fazer. No final houve algo como “estamos destinados a estar juntos” e “o nosso futuro passa pela vida” numa referência ao estarem juntos mas também à criança que está para nascer. Ora, são duas coisas que não se viram nesta temporada. Não nos mostraram de forma decente o amor que une estes dois (por falar em coisas que não deviam ter acontecido) e ela tem vindo a negar esta gravidez até a ela própria. Mas fica bem puxar destas coisas na véspera de eliminarem um deles, dá significado à personagem apesar de tudo.

O Senador Lockhart foi feito para ser o mau da fita, Dar Adal (F. Murray Abraham) foi florescendo ao longo da temporada e manteve-nos sempre em alerta sobre a sua verdadeira intenção, aliança com Saul ou olhar por si mesmo, no fim imperou a última. Serão os iranianos a dar o golpe final, mas foram os EUA a construir o caixão e a entrega-lo por correio. Já Carrie se preparava para fazer sabe-se lá o quê (provavelmente detonar uma bomba atómica para salvar Brody), quando Javadi intervém e lhe dá uma notícia chocante! Que Brody está preso e sentenciado à morte. Porque é que é chocante? Não é, nem deveria ser sequer para Carrie, que já devia ter somado dois mais dois e percebido o que raio se estava a passar. Pensava que o iam mandar para um spa nas Maldivas?! Mas o mais deslocado da conversa nem foi esse aspecto, mas sim quem faz a chamada para a realidade. Não é Saul, não é Quinn nem sequer Brody, quem faz o resumo de toda a situação e explica as coisas é a pessoa que menos faz sentido que o faça. As palavras proferidas não são compatíveis nem com a pessoa que as profere, nem vão de acordo ao relacionamento que estas duas almas tinham desenvolvido até agora (quase nenhuma, além da profissional). Ainda assim o último desejo de Carrie é concedido e tem oportunidade de despedir-se do seu grande amor. Após cismar no mesmo assunto, da salvação milagrosa, a verdade que nem se despede de Brody, não verdadeiramente. Ambos deixam que o silêncio fale por eles.

Brody lava-se dos seus pecados e recusa tapar a cara na altura da morte. Poderia ser entendido como uma afirmação (dar a cara pelo que fez, assumindo as suas acções) mas neste caso é simplesmente para dar mais drama à cena, para que possamos ver a sua vida a esvair-se aos poucos. Muito conturbada foi a viagem do sargento Nicholas Brody ao longo destas temporadas. Um homem que fez tão bem o seu trabalho que a sua estadia foi prolongada para lá da data de validade. Quer queiramos ou não, Damian Lewis deveria ter morrido naquele bunker e com isso “Homeland” tivesse sido muito diferente. Perderíamos uma grande performance, sim, mas talvez a série fosse agora muito melhor. O mais curioso é que foi a personagem “estragada” e relegada para segundo plano foi a que mais brilhou nestes doze episódios. Num momento em que Carrie não é mais uma favorita do publico (o número dos que já não podem com ela crescem a olhos vistos) e falhada a transição de Quinn (Rupert Friend) numa personagem mais relevante e, quem sabe, substituta de Brody, o buraco deixado por esta morte é ainda maior. Há um tempo poderia dizer que a sua partida teve um propósito, que foi realmente um mártir sacrificado em busca da qualidade, mas o que se sente agora é que uma série a afundar perde o seu melhor nadador. A ironia da cena final é que para além do facto de este ter sido um enforcamento lento (em vez do tradicional alçapão que abre, este método previne que o pescoço quebre na queda e prolonga o sofrimento), exemplifica o passar desta temporada. Esperemos que a série não tenha o mesmo destino no final. Adeus Damian Lewis. Depois do cancelamento de “Life” e do conturbado caminho em “Homeland” espero que o vejamos novamente no ecrã e que continue a mostrar o grande actor que é. Já não é a minha “Homeland” sem ti.

Quatro meses passados e a agressividade passiva anda no ar. Todas as relações/conversas (excepto com Quinn) me pareceram falsas e forçadas. Carrie prossegue com a sua vida da melhor maneira que consegue e Saul vive a vida, literalmente. Com a proposta de Istambul, Carrie é obrigada a pensar no futuro desta filha do pânico e das dificuldades, que lhe lembra a morte do grande amor e a prende como uma âncora na altura de lançar uma brilhante carreira. Aliás, nada realmente saiu do “porto” no final. Pela primeira vez na série não houve um cliffhanger, não houve suspense, não houve surpresas nem revelações. Não foi deixado nada ao qual as pessoas se possam agarrar:

  1. Não deve estar ainda decidido o que vão fazer a seguir.
  2. Não se querem prender a um arco antes de decidirem o rumo a tomar.
  3. Isto torna muito mais fácil a missão daqueles que querem desistir da série, porque na verdade não há nada para desistir.
  4. Consequências e impacto do homicídio da criança em Quinn? Agência de advogados responsável pela bomba? É muito fácil prometer que tudo fará sentido mais à frente na temporada e depois não dar seguimento a nada. O problema é que já nem me chateia.

Não sei por vocês, mas eu não consigo afastar da ideia que este dava um bom final de série. Aliás, até preferia!

NOTAS:

  • Sou a favor de mostrar, não dizer. Mas colocar Saul a empacotar as coisas no escritório a meio de uma missão destas só para mostrar que ele está mesmo de saída. Enfim.
  • Quando Brody espera e desespera por Carrie e ela nunca mais chega, volta para o carro… o carro de onde ele escapou do homicídio e que tem a matrícula procurada. Saiu de vista para se enfiar no carro mais procurado do Irão.
  • A necessidade de dizer que o líder morto fazia mal a criancinhas e que o seu homicídio é mais que justificado, e não apenas uma manobra política. EUA! EUA! EUA!
  • Por falar nisso: És um marine, as regras são diferentes”… Todos a uma só voz:  “From the Halls of Montezuma, to the Shores of Tripoli”… HURRA!!
  • Quando Brody é preso, Carrie diz ao militar iraniano que quer falar com Javadi e que ele explica tudo. Ainda o homem não aqueceu o lugar e já ela o queima com a associação aos EUA. Estas atitudes irrefletidas matam-me por dentro.
  • No meio de uma entusiástica multidão que exige a morte de Brody, Carrie destaca-se, literalmente, e chama pelo seu nome. Porque não usa ela um verylight na testa para passar mais despercebida? Como é que a multidão não se vira contra ela depois daquela manifestação?
  • Se um dia Brody regressa como fantasma ou alucinação juro que tomo um comprimido de cianeto!
  • Não houve qualquer menção sobre a explicação que os EUA deram sobre a morte de Brody. É suposto o mundo acreditar que não tiveram nada a ver com o assunto? Foi ilibado do atentado bombista?!
  • A quantidade de vezes que foi repetida a mensagem “não poderia ser de outra maneira”, referindo-se ao destino de Brody, soou incrivelmente como um pedido de desculpas por serem obrigados a fazê-lo. Nós não precisamos de ser convencidos, já sabíamos que esta era a única maneira de acabar!
  • Eu não estou muito bem dentro do assunto, mas alguém que já tenha tido um filho me esclareça: aquela cena à alien, com o movimento do bebé a ser visível na barriga é possível?!
  • Surge-me a questão: porque recebe Carrie a promoção?! Será que desobedeceu a ordens suficientes que lhe valeram isso? Tipo cartão de pontos? Ao menos assim ela só pode desobedecer às suas próprias ordens daqui em diante… é possível!
  • Não se dignificaram sequer a mostrar o efeito da morte de Brody na sua família. Nem antes nem depois dos quatro meses. Já nem falo de Jessica e do filho, mas pelo menos Dana. Vocês lembram-se! Aquela miúda em que gastaram quase metade da temporada!
  • Na última conversa, Saul nem faz referência à gravidez de Carrie, não pergunta sequer pela “neta”.
  • Mais alguém estava a espera que Carrie se fosse vingar do pessoal da CIA que abandonou Brody?!
  • Não consigo entender uma grande parte de comentários que li na net que mostram pessoas ficaram satisfeitas com este final e que de algum modo “desculpa”e dá sentido à temporada. Para mim nem foi satisfatório, nem desculpou nada.
  • Durante este longo hiato, acompanhem todas as novidades sobre a série nos nossos parceiros da “Homeland (Portugal)“, a quem aproveito para agradecer o apoio ao longo destas semanas.

Obrigado a todos que acompanharam as análises no TV Dependente. Reparei que o fluxo de comentários foi diminuindo ao longo da temporada, se calhar coincidindo com o número crescente de pessoas que perderam fé nela e até desistiram. Ficaria muito bem, e coerente, finalizar o texto dizendo que vou deixar a série mas estaria a mentir a mim mesmo e a vós. Veremos o que traz 2014, ciente de que é necessário um reboot, que é difícil fazer pior do que este terceiro capítulo (por favor não tentem!) e que “Homeland” é neste momento uma série sem identidade.

O Melhor: Damian Lewis e Nicholas Brody. Carrie a desenhar a estrela na parede. O sentimento de conclusão que a série oferece a quem quer desistir dela.

O Pior: Os erros de espionagem em prol do peso dramático. O alinhamento improvável de chakras que permitiu a fuga de Brody. A conversa que Carrie teve com Javadi, não pela conversa, mas pela pessoa com quem a teve. O choro constante de Carrie tem este senão: quando chora de pânico já não surte efeito em nós. Quinn foi ignorado até ao fim. A motivação que não foi dada para quem quer continuar com a série. O sentimento de alívio por a temporada ter acabado. Temo que a série perda, com Brody, a sua identidade.

Partilha o post do menino no...