Mais do mesmo, para o bem e para o mal…

Antes de mais, tenho de salientar bem que se trata de uma visão pessoal. Já sei que há quem discorde completamente e até há quem só concorde com dois quartos e um terço. Este texto pretende assim retratar a minha visão no que toca a séries chamadas procedurals e para onde tende a ir a qualidade das séries actualmente, na esperança que lance a discussão e dêem a vossa opinião.

Procedurals – género televisivo que consiste na introdução de um problema, investigação e resolução no mesmo episódio, pode ou não ser criminal. Embora exista há muitos anos, penso que todos concordamos que foi em 2000, com “CSI”, que este estilo explodiu realmente e mudou em muito a televisão. Foi um risco tremendo na altura e foi recusada por quase todas as estações até a CBS pegar mesmo nela pois consideravam-na demasiado violenta e complexa para o telespectador comum acompanhar. Tornou-se a série mais famosa mundialmente e mudou a maneira como as pessoas abordavam as séries, e vice-versa.

Mas este estado de graça tem vindo a mudar. Aquilo que era novidade há uma década, agora é cada vez menos tolerado e tende a mudar. Porquê? Porque com a mudança de mentalidade das pessoas vem o seu desejo por algo que constantemente as surpreenda, afinal de contas estamos a falar de uma espécie que passa milénios a olhar para o céu, e mal se vê fora do planeta está logo mortinho por ir mais longe e longe.

Alguns problemas com “CSI”:

  • Está bem que o estilo de chama procedural, mas os episódios não têm de ser sempre iguais! Já para não falar da história central…dou por mim a apanhar um episódio na televisão e não sei se é da terceira ou da nona temporada.
  • Já se sabe que as duas primeiras pessoas que detêm para interrogatório, são inocentes.
  • Se a personagem diz alguma coisa no inicio e não aparece no resto do episódio, vai ser ele o assassino (A actriz Andrea Bowen apareceu no episódio 22 de “Hawaii Five-O” como assistente da vítima. Aparece um pouco no inicio e depois nada… claro que iam buscar uma actriz assim conhecida para fazer um papel menor e óbvio que não era ela a assassina!).
  • Os actores escolhidos para maus da fita são sempre os mesmos! Ou pelo menos minimamente conhecidos (ou eu definitivamente vejo séries a mais e reconheço-os ao longe). Não os iam contratar para fazer um papel menor, logo, são os assassinos.
  • Os constantes atentados à inteligência. Toda a gente percebe que é uma série de televisão, é ficção, mas não têm de nos ofender com revelações absolutamente idiotas. As análises aos ADN em 2 horas já estamos habituados, mas ver fotos de um telemóvel rasca a ser aumentadas 15.000% para se conseguir ler uma matrícula? Fazer triangulações e saber de qual janela em que estava o atirador através da medição de distâncias e vectores de uma fotografia? Fazer reconstruções de fragmentos mínimos de balas e até se conseguir ler inscrições nela embutidos?
  • Um disparo para o ar que atinge alguém do outro lado da cidade?
  • Alguém diz meia dúzia de componentes químicos e outro alguém sabe SEMPRE a que substância corresponde!
  • Ao fim, o culpado confessa sempre! Não deixa ir o caso para tribunal a ver se safa, confessa logo ali para não chatear muito.
  • Técnicos de calcinha branca e tacões de 20cm de um lado para o outro a analisar sangue e entulho.
  • Já para não falar claro, que os técnicos forenses fazem tudo: vão à cena de crime, recolhem, investigam, questionam e detêm… para quê agentes da polícia?!
  • “CSI” é muito obscuro a roçar o deprimente, “CSI: Miami” tem excesso de imagens bonitas, tudo se passa a mil à hora e o Horatio tornou-se uma verdadeira caricatura e um modelo de “como não ser actor”. “CSI: Nova Iorque” é demasiado…Nova Iorque, com personagens cheios de atitude (Carmine Giovinazzo), ou pronuncias exageradas.
  • Quando não são os actores a ser actores a mais (Melina Kanakaredes).

É claro que é uma visão muito cartoon e exagerada das coisas (e vocês lembram-se de outras coisas mais), mas serve apenas para ilustrar o meu ponto de vista. O “CSI” resultou porque foi o primeiro, tem de longe as mais interessantes personagens… e “CSI: Miami” resulta porque as pessoas gostam de ver praias, pessoas bonitas e cores vivas a mexerem-se muito rápido (nesse aspecto não somos diferentes de qualquer criança a ver o canal Panda!). Mas ao fim de 11 anos já nada surpreende e aquelas que já não estão cheias dos clichés estão lá perto.

Então porque continuam as pessoas a acompanhar estas séries? Facilidade, conveniência e comodidade. Sejamos sinceros, nós que vemos mais séries, somos os geeks/nerds/sem vida/condenados a uma vida de solidão rodeados por 17 gatos e com o hálito a cheirar a naftalina (talvez nem tanto, vá), o resto da população não tem tempo para acompanhar tanta hora de programação:

  • Estas séries estão mais disponíveis nos canais;
  • Não é necessário acompanhar uma historia central para perceber o episódio, por isso podem ver um agora e outro daqui a três meses;
  • É o ideal para descomprimir um bocado antes de ir dormir.

Há quem goste e tenha visto todos os episódios de todas as temporadas, mas é uma percentagem mínima, a grande maior parte vê como simples hobby.

Parece-me no entanto importante destacar outras séries de melhor qualidade, como “Bones” e “NCIS”, esta última das séries mais vistas (senão a mais vista) nos EUA. É mais consistente, interessante e tem investigadores “normais”. A Abby é gótica de aparência, mas até isso é balanceado, sendo a personagem mais “fofa” da TV (nem acredito que tem 42 anos).

O que mudou então? A intolerância e a impaciência? A vontade de ser chocado e surpreendido constantemente? As pessoas cansam-se das séries por as viverem mais intensamente, algo em que a família vê enquanto jantam. Não esperam uma semana com ansiedade para ver as suas personagens favoritas na TV, vêm na TV/PC todos os dias antes de ir dormir, compram DVD’s, pedem ao amigo, vêm dois episódios e encostam. Se perguntarem top de series a alguém conhecido, a resposta ou é “Há tantas” ou então “as melhores para mim são “CSI”, “Grey’s Anatomy”, “Donas de Casa Desesperadas” e “House””, porque não conhecem mais e estas passam incessantemente na televisão. Não procuram algo mais, algo mais complexo, por falta de tempo ou porque o vício não é assim tão grande.

Enquanto penso neste tema também me ocorre que isto escapa às mesmas pessoas, da população em geral, que assiste as séries em versão “light”. Por isso pergunto a vocês, maiores fãs e apreciadores, para onde caminha a qualidade da programação da caixinha mágica?

As séries das principais cadeias parecem, cada vez mais, todas iguais. Porque são as de cabo melhores? Porque têm mais dinheiro, tempo, despreocupação maior com audiências? Por serem de cabo usam uma premissa diferente do mainstream? Porque aqueles que gostam mesmo de séries preferem pouco e bom, 13 episódios intensos do que 24 enrolanços? Porque têm pessoas mais capazes e competentes por detrás dos projectos? Provavelmente todas as opções acima.

Eu vejo-me cada vez mais a seguir essa tendência. Prefiro um sumo de laranja feito em casa, com polpa e fresquinho… do que estar constantemente a comprar o mesmo que toda a gente parece não gostar mas a fazê-lo por hábito. Algo que está a ficar mais caro e a trazer constantes dissabores, uma televisão cada vez mais remixadas, remakizada e pobre de ideias. Sem coragem em arriscar e com o dedo no gatilho do cancelamento desde o primeiro minuto de transmissão. Parece ser mais importante falar das séries do que elas darem que falar.

O futuro? Lamento, mas neste caso não sou um tipo com ideias revolucionárias nem sob o efeito premonitório de Nostradamus. Ofereço sim, duas alternativas: Ou tudo se mantém igual, ou até agrava (séries de primeira temporada em que se vai safando uma ou outra de vez em quando. Geração Chiclete de TV) ou tudo o que é tendências muda e temos uma nova fase da TV Americana.

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