Mundo Mágico vs. Caixinha Mágica

Aqui estou eu para vos fazer pensar um bocadinho (ou tentar) sobre as grandes questões do nosso tempo! Não, nem por isso…

Nunca vos surgiu, durante uma discussão de amigos, a velha temática “o filme ou a série”? Em que são sempre os únicos a defender a honra da singela donzela, claro. Mas afinal, qual é a caixinha mais mágica? Qual merece mais a nossa atenção? Estará a TV cada vez mais a aproximar-se do conceito do filme? Porque optaram vocês por este mundo quando a grande maior parte prefere o outro?

Nos meus tempos de petiz era muito viciado em filmes. Via os bons, os maus e os piores porque sempre consegui encontrar prazer em todos os estilos (menos no terror), mais não seja em ver o “horrível” para apreciar melhor o “excelente”. Não consigo no entanto determinar a altura exacta (nem motivo) em que a balança pendeu para o outro lado. O momento em que disse: “nah, em vez deste filme que possivelmente é mau, vou antes ver este filme de 16 horas que possivelmente é mau” (para os que estão a questionar-se sobre o 16… 24 episódios a 40 minutos cada). Será que estou agora mais virado para a televisão porque cresci com o cinema?

Falei há tempos sobre a qualidade das séries, estarão os filmes a ir pelo mesmo mau caminho? Hollywood é uma caixa de clichés ambulantes e falsas modéstias separados em dois mundos: filmes que se levam tão a sério que parece que estamos a levar socos no estômago (sempre nomeados aos Óscares, claro) Vs a frivolidade dos milionários que querem vender-nos a ideia de que o dinheiro não traz felicidade, que não precisas de super-poderes para seres um herói, que há vida para além da fama e que o Bem e o Mal “são os lados da mesma moeda, em que o Mal tem as melhores falas e o Bem a palavra final”.

A televisão tem um grau de insucesso que ronda os 70% (escusam de ir verificar porque foi um número à sorte), mas o cinema faz-se rodear das sequelas e do lucro mais rápido, fácil e vazio. Toda a gente pensa “Meu Deus, perdi horas da minha vida para isto ser cancelado”, mas ninguém pensa que perdeu 50 euros em 10 maus filmes. A sensação de ser roubado e voltar à sala de cinema é inacreditável: no ano passado atingiu-se receitas recorde na história do cinema, no entanto, já não ia tão pouca gente ao cinema desde 1997. Sim, os bilhetes estão assim tão caros e o 3D rouba a um ritmo alucinante! Nem há aquele tranquilizante de “vou ao cinema e não vejo publicidade!”, algo que em casa nos é um pouco indiferente, provoca tanta irritação na sala escura como na sala de estar.

Numa coisa o cinema tem vantagem: quando é bom, normalmente tem sucesso nas bilheteiras, não tanto como os blockbusters, but still… enquanto as melhores produções televisivas podem ter o seu futuro ameaçado por falta de um público exponencialmente mais burro à medida que os anos passam. Quem não tem umas lista na ponta da língua de séries que nunca na vida deveriam ter sido canceladas?! Mesmo que não se dêem ao trabalho de ir ao shopping para ver uma película e a visionem na mesma televisão das vossas séries, valerá na mesma a pena?

As diferenças entre os dois mundos é cada vez menor, com a televisão a evoluir para temporadas mais curtas, com menor desperdício. Não seria melhor séries de uma só temporada? “24” é um pouco assim, cada temporada é mais ou menos independente, o que talvez justifique algum do sucesso do franchise. Uma longa série de várias temporadas pode ser como uma grande tablete de chocolate negro: chega ao fim e nunca satisfaz; enquanto histórias “individuais” são como embalagens de sugos que vamos devorando aos bocadinhos: se gostar, devoro outro, senão, fico com a sensação de dever cumprido e estou pronto a experimentar outro sabor. Tudo muito lindo, mas ao gostar da primeira temporada não íamos logo exigir o seu retorno, como alguns o fazem com os cancelamentos? Não somos nós vítimas da nossa própria gulodice? Devoramos dezenas de temporadas por pura gula quando sabemos que só aquela pequena salada inicial é que foi nutritiva, o restante foi só para aumentar o período de translação do cinto (pronto, tantas referências a comida, fiquei a pensar no raio do ginásio, bolas!). Será a televisão simplesmente mais “confortável”? Aquele “bicho” que domesticamos porque o temos em casa, enquanto o cinema ainda temos que nos vestir para assistir (nem que seja a camisola de um clube, que fica sempre tão bem na sala de cinema!).

Quem aprecia televisão, gosta deste lento tango. O acompanhar de personagens durante anos, vê-los a transformar e evoluir quase a tempo real. Descobrimos o seu passado, relacionamentos, hobbies e interesses, aproximamo-nos destas pessoas, são família! Algo que o cinema nunca conseguirá fazer. A televisão é rádio com imagens e baseia-se muito mais no argumento e diálogo, o cinema vive mais da imagem e do show. Acredito que esta “Era dourada” da TV pela qual estamos a passar acabará eventualmente porque começa a sofrer do mesmo ego de Hollywood. O sucesso tem destas coisas, nunca antes se ouviu falar tanto dos criadores e produtores, gente que devia estar por trás das câmaras parece ter tanto protagonismo como as estrelas que encarnam as personagens que eles próprios criaram. Todos querem o próximo “Lost”, todos querem ser J.J. Abrams!

Só há três desfechos para uma série televisiva: agarra-nos e depois é cancelada, pura irritação; agarra-nos e vai perdendo qualidade, levando à frustração; Ou então podemos morrer enquanto a série ainda está no ar! Podemos observar pela perspectiva do copo meio-cheio se preferirem, em que a série se prolonga por anos, nos dá pura felicidade e tem direito a uma morte digna, memorável e satisfatória. Mas, sinceramente, quantas vezes isso realmente acontece?! O cinema é um one night stand, alguém que conhecemos num bar e que pode ser o melhor que nos aconteceu ou um puro desastre ambulante, mas aconteça o que acontecer, na manhã seguinte já não vai lá estar e… venha o próximo! O interesse é casual e temporário. Uma série exige muito mais, exige compromisso (o cinéfilo não é de confiança, o “gajo” que vê séries é para casar! Ouviram meninas?!).

É claro que isto é tudo uma batalha redundante (aliás, apercebo-me que todos os meus artigos de opinião não chegam a conclusão nenhuma). Numa batalha há vencedores e vencidos, o máximo que ocorre neste duelo, em que o cinema tem o músculo e a TV combate com superioridade numérica, é uma eterna guerra fria: o poder vai balançando entre as duas superpotências, a televisão vai formar actores que vão eventualmente acabar no cinema… e o cinema vai arruinar a carreira dos actores que vão procurar a bóia de salvação novamente na TV. Spielberg vai entreter-se com os “Falling Skies” e J.J. Abrams irá aventurar-se com os “Super 8″… e que maravilhoso é este mundo em que podemos escolher entre dois montes de bosta: ser raptados durante semanas por uma série para no fim nos deixar numa valeta, com a sensação que fomos violados sem nos apercebermos disso., ou ser roubados em dez euros por um filme (sejamos francos, que sentido faz ir ao cinema e não comer pipocas?!) que nos prometeu “mundos e fundos” em três minutos de fogo-de-artifício no Youtube, em que o máximo que nos ofereceu foram efeitos especiais de segunda categoria e a profundidade de caracterização das personagens da “Dora, a Exploradora!” (Nada melodramática e exagerada esta analogia!)

Antes de vos deixar sossegados, um último pensamento: O comediante Aziz Ansari referia durante um espectáculo de stand-up que a NBC proibiu, num episódio “30 Rock”, que uma personagem dissesse que tinha sido violada por um dinossauro! Enquanto isso, a MTV emite programas que só agravam o nível de estupidez da juventude americana. Até que ponto conseguimos nós – quando digo nós refiro-me à humanidade, porque é muito fácil criticar os americanos pelo seu falso pudor mas é notório a incapacidade do português em aceitar certas noções de humor – conseguimos ser hipócritas?! Não temos problema em mostrar crianças com moscas na boca e amputados cheios de sangue durante o telejornal ao jantar e, porque não, os excessos e mesquinhices das estrelas pop durante galas de entrega de prémios… mas bloqueia-se os “fuck”, os “shit” e as mamas, com lençóis estranhamente adaptáveis a homens e mulheres. Se tivesse novamente onze anos provocava-me menos impacto qualquer cena de sexo de “Spartacus” do que as mais recentes imagens de revoltas na Líbia e Inglaterra… mas se calhar sou eu, que em miúdo não me atirava da janela a pensar que podia voar como o Son Goku nem precisava de mensagens de “Por favor, não tente isto em casa” antes de um programa que envolvesse explosões. Eu comi areia, pus muito brinquedo chinês na boca e usei as golas da camisa levantadas… e estou vivo!

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