Nada(r) sem forma…

​[CONTÉM SPOILERS DE “THE SHAPE OF WATER”] Em dia de Óscares, um texto controverso sobre um filme nomeado para um evento que me diz pouco, de um meio que já não domino. Vivo casado com a televisão e só vou a casa da ex para dar umas cambalhotas divertidas, sem esperar grande compromisso. Acima de tudo quero ser entretido e os nomeados raramente são sinónimos de leveza. Então o que me fez ver “The Shape of Water”? Pura curiosidade.

Queria saber que tipo de filme, com uma premissa tão incaracterística, convence a academia. Chego à conclusão que esta nomeação é tudo aquilo que me afasta dos prémios (em geral). Ora tenha sido política, dinheiro investido ou aquela tentativa dos velhotes de cachimbo da academia parecerem hipster todos os anos, ao escolher filmes fora do molde para ver se enganam os mais desatentos. Seja qual for a razão, não se percebe.

O mais estúpido desta cena, de todas que se pode enumerar, é achar que o pó está POR BAIXO do motor…

Octavia Spencer é cativante como sempre, mas aqui dão-lhe pouco para baralhar, Richard Jenkins é sempre um delight e Richard Strickland faz de de gajo branco, cristão, do governo (check, check check), como sempre. A premissa, muito basicamente, é a história de uma muda latina (check e check) que se apaixona por um Aquaman invertido. A historia em si não me chateia, o que chateia é como nos é apresentada. Após 5 minutos de casal, vemos a protagonista num “monologo” emocionadissimo em que tenta convencer o melhor amigo gay (check) que encontrou o amor da sua vida. Chegamos ao fim com a sensação que tudo é tão vazio, que se saltou umas etapas e se encalhou noutras. Sim, a cinematografia é boa e dá um visual diferente e bonito ao filme… e?! Que interessa isso se no fim não temos nada que nos faça lembrar do filme, a não ser a masturbação na banheira e a demonstração de como um anfíbio “monta a tenda”?

“A Forma da Água” é uma daquelas coisas que se diz quando se tenta ser profundo e artístico mas que no fundo não significa nada. A água não tem forma e este filme não tem um conteúdo que mereça o destaque que tem recebido.
Deixo espaço para a possibilidade de que o seu valor secreto esteja a uma profundidade que não me aventuro a mergulhar. Como digo, não me tenho como especialista em vida aquática. Mas ponho também a possibilidade de que este seja mais um caso em que tentam colocar confetes num poio e chamarem-lhe brigadeiro. Fico na minha insignificância então… desculpem lá!

Quem nunca levou o Walkman gigante para a beira da água e comeu uma sandes na sala secreta do governo, ponha o dedo no ar!

Form(ul)as de Génio:

  • Protagonista tem uma casa cuja porta encosta a bochecha na do vizinho, dorme no sofá, mas tem uma casa-de-banho gigante e uma sala de estar enorme com uma mesa pequena. Que artística arquitectura!
  • Protagonista decide transformar uma divisão da casa no Oceanário e não lhe passa pelo caviar que seja uma profunda estupidez. Que artístico slow motion debaixo de água!
  • Protagonista escreve no calendário “Chuva/Docas” para o antagonista saber onde ela está. Porque hoje em dia uma pessoa é tão ocupada que se pode esquecer de Libertar o Willy. Que artística estupidez!
  • Antagonista profere a frase “Um homem lava as mãos antes ou depois de fazer as necessidades, se o fizer duas vezes demonstra fraqueza de carácter”… e muitas pessoas acharam que devia entrar no filme. Que artísticos germes!
  • Protagonista, mulher das limpezas, tem acesso a altos segredos de Estado ao virar de cada esquina e consegue inclusivamente merendar com um, na boa. Que artística segurança!
  • Sapo Cocas começa a descamar apesar da Julieta estar aparentemente a tratar bem dele com sal de mesa… Que artístico trigger de enredo!
  • Espião russo às portas da morte revela quem tem o Flipper depois de passar o filme a ser fiel às suas convicções. Que artística conveniência!
  • Protagonista tem marcas no pescoço que toda a gente percebe ser futuro mecanismo para guelras e se revela ser, de facto, mecanismo para guelras! Que artísticas cicatrizes!

PS- Temos também um numero musical (check).

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