O ciclo vicioso da opinião…

A ideia para este texto ocorreu-me durante a análise à temporada de “The Event”. Sobre o meu papel, como alguém que dá uma opinião pública, na avaliação de uma série e as consequências dessa avaliação na pessoa que a está a ler.

The Event”, para quem seguiu as minhas reviews, tornou-se no meu saco de pancada nos últimos meses (principalmente por culpa própria, mas adiante…). A questão levanta-se: até que ponto é que eu tenho razão no que digo? Até que ponto tenho eu o direito de expressar a minha opinião e influenciar as pessoas que se dão ao trabalho de a ler (obrigado, já agora)? Estarei eu a fazer algum tipo de serviço público? E de um ponto de vista mais geral, qual o papel dos críticos no que vemos? Vocês, os consumidores, deixam de ver algo ou aderem com base no que vos é dito? Será que os prémios das, que parecem ser cada vez mais, academias são ainda uma boa referência para o que é ou não bom de se consumir? Terão os críticos simplesmente deixado de gostar do que estão a avaliar? Por partes…

Nos tempos em que me dedicava mais ao cinema que às séries, lia muita literatura dedicada à temática. Gostava de saber a opinião de quem era entendido na matéria, afinal de contas, se tiver doente vou ao médico ou se precisar de um armário vou a um carpinteiro, porque não procurar a opinião de um verdadeiro especialista para me ajudar a escolher o que é melhor, na imensidão do que é oferecido? Com os anos fui-me apercebendo que tinha demasiada confiança depositada naquelas pessoas, que elas não iam de acordo com o que eu pensava e, mais grave, a opinião delas não ia de acordo com a opinião dada pelas mesmas em peças anteriores. Acabei por formar assim uma imagem negativa destes “seres” que teimam em se multiplicar em revistas, jornais e blogues.

Os críticos são snobs! Talvez não sejam todos, mas uma grande parte deles sofrem deste síndrome. São crianças que crescem a ver aquilo que mais gostam. Verdadeiros fãs que entendem sobre o assunto e se destacam dos demais por serem capazes de exprimir a sua opinião de uma maneira mais capaz, enquanto expõem os seus conhecimentos para que o público “beba” deles o máximo possível e também assim enriqueça. Mas rapidamente crescem e se tornam em indivíduos capazes de construir ou destruir algo, há como que uma corrupção da mente e de repente tornam-se nestes monstros devoradores, capazes de formar opiniões e destruir ideias nos mais fáceis de manipular. Em Portugal nem tanto, mas nos EUA certos críticos que têm acesso a material antes do público, conseguem sozinhos ditar a esperança média de vida de algo que envolve centenas de pessoas, milhões de dólares e outros tantos seguidores. Isso é poder a mais.

Sejam actores por um momento e coloquem-se no papel de um crítico de uma revista de renome. A semana está a correr-vos pessimamente e até a vossa esposa/marido saiu de casa, na mesma semana que têm de fazer uma peça sobre uma comédia romântica. Imaginem que estão em pleno Agosto, com amigos numa casa espectacular com vista para o mar e umas bebidas exóticas a acompanhar e alguém traz um filme para todos se divertirem, “A Lista de Schindler”.

A vossa opinião vai ser sempre influenciada pelo momento: Se foram despedidos não vão gostar de “Doidos por Mary”, mas talvez gostem muito de “Dexter” e da perspectiva de seguir os seus ensinamentos no ex-patrão. Se está calor lá fora querem ver algo leve e rápido como “Hawaii Five-O”, se está um frio de fazer tremer os dentes vão preferir ver “Sherlock” enrolado num cobertor.

Nem tudo ocorre de uma maneira voluntária. Neste mundo, como em quase tudo, tem de haver uma sensação de timing. Por vezes são coisas que não se pode controlar e que, quer queiramos ou não, vai influenciar-nos. A indústria do cinema percebeu isso há muito tempo, por isso é que os blockbuster saem sempre no Verão e os filmes que são nomeados para os Óscares saem para as salas em Dezembro e Janeiro (filmes cada vez mais deprimentes, que quanto menos falas tiver melhor é o argumento… e Deus me livre se tiver efeitos especiais!). Tudo tem uma altura propícia para ocorrer e perder esse ponto crítico pode ser a diferença entre o sucesso e o fiasco. Será então justo para o produto seguirmos a opinião de alguém que teve influencias menos boas e que vai manchar a nossa ideia sobre ele?

E numa alínea secundária, será correcto avaliar com estrelas ou pontuações algo que pode ser tão diverso? Se eu for comparar a “Ressaca” com o “Padrinho” é mais do que óbvio que lhe vou dar uma pontuação baixíssima, mesmo que possa ser uma das melhores comédias de sempre (as comédias fartam-se de ganhar Óscares!). Pessoalmente, não sou adepto de avaliações, não acho ser possível comparar qualidade quando há tantas variáveis a ter em conta. Embora perceba perfeitamente que é algo “necessário” e torna-se muito mais fácil para quem escreve, expor a sua opinião imediatamente a quem lê.

O fenómeno não parece ser pessoal, as pessoas parecem dar cada vez menos valor a quem faz do acto de dar opinião profissão. Preferem saber o que os seus “semelhantes” pensam ao invés de alguém que lhes chega por uma folha impressa ou um site de renome. A opinião de alguém que lhes pareça mais próximo e com a qual se identifiquem parece ser mais importante do que aquela opinião que, para todos os efeitos, pode estar a ser comprada pelo mesmo franchise que estão avaliar na peça.

A pessoa comum quer saber se o filme que vão ver logo à noite é tão bom ou pior que aquele do mês passado que toda a gente conhece. Se é algo que se veja sem provocar nauseas ou não vale os 47 euros (ou lá o que eles cobram hoje em dia por um bilhete de cinema!). Não querem saber o que determinado crítico acha sobre o cinema coreano e a sua perspectiva sócio-economico-fisio-pedagogico-cultural na era moderna da tradicional sociedade da Europa de Leste! Então, terão estas pessoas o direito de expressar a sua opinião?

Mas aquelas pessoas mais “respeitáveis” ao menos dão a cara pela sua opinião. Não será pior o perigo do anonimato da Internet? Dizer o que se quer sem risco? (Dá para perceber isso em comentários que as vezes se lê em certos posts aqui no TVD). Então já que exploramos o “80”, temos de falar do “8”.

Com certeza todos vós conhecem alguém super-entendedor. Alguém que se auto-proclama uma entidade em alguma coisa, simplesmente porque sim. Alguém que acha giro dizer que o cinema comercial de Hollywood é mau! Ou que a música Pop é intragável, mas aquela banda que ninguém conhece é que é fantástica porque não está sob o “tentáculo do polvo comercial” (pelo amor da santa!), que não gostam de algo só porque é mainstream (qual é a lógica do “Eu não gosto porque toda a gente gosta”, não está a fazer exactamente a mesma coisa? A não gostar de algo SÓ porque toda a gente gosta?). Ou então tudo o que é antigo e vintage é que é bom, os LP’s é que têm o som mais puro, os “Star Wars” antigos é que são bons, os westerns é que são clássicos, os primeiros filmes das triologias são bons e os outros não prestam, as séries antigamente é que tinham uma “mística especial”. Vocês sabem, pessoal que gosta de soar inteligente e select durante uma conversa. Terão estas pessoas o direito de escrever em blogues e inundar a Internet com tão valiosíssimos comentários? Terão eles o direito de expressar a sua opinião?

Já vimos os dois lados da moeda no que toca a opinião, mas isto não se trata de uma visão bidimensional. Como tudo o que é fabricado hoje em dia (mortinho que saia papel higiénico em 3D!), também o mundo da opinião tem um terceiro lado, vocês!

Escrever para o TVD tem uma desvantagem: em vez de simplesmente desfrutarmos o que estamos a visualizar, estamos a esmiuçar, detalhar e a apontar tudo, com pausas pelo meio e um pouco de reflexão (meu método, pelo menos). Isso tira algum prazer ao processo de ver a série, ainda por cima porque geralmente escrevemos sobre séries que gostamos mais. Será que é isso que acontece com os críticos? Tornam-se tão atentos aos defeitos que desligam a opção “gostar”?

E se falarmos de críticos, que dizer dos fãs que desligam? Estou a falar para vocês, fãs que votam nos episódios porque sim, porque gosto da série e por isso todos os episódios são MESMO bons! Não estão também vocês a negligenciar e a dar má fama ao poder de escolha e de bem ou mal dizer? “Gosto porque sim” é um argumento tão mau, ou pior, que “Esta série é uma ofensa á memoria de Katsuhari Nakamura e ao seu expressionismo neo-vanguardista com influência da Papua Nova-Guiné!”.

Já vos ocorreu não gostar de uma série quando começaram a dedicar-se a este mundo, e agora se a visse iam adorar porque estão mais “maduros” para a saborearem? Esta maturidade não é algo a ter em conta na altura de se expressarem e, principalmente, de concordarem ou não com a opinião que alguém está a fornecer-vos? Não terão vocês também de merecer esses créditos antes de terem o direito de concordarem ou não com que está a ser dito?

Eu sei que levanto muitas questões. Mas, no fim, depende sempre de vocês porque o direito à expressão está sempre aliado à capacidade de cada um ouvir essa ideia e fazer o seu juízo. Seria muito mais simples calar quem diz opiniões contrárias à nossa, quem o faz de maneira diferente ou de forma negligente. Mas o melhor sinal de maturidade de opinião é ser capaz de ouvir/ler, filtrar, respeitar e formar uma opinião por vós próprios e assim criar um bom ciclo vicioso.

“Everyone’s a critic”, que traduzido dá algo como “todos somos treinadores de bancada”. Se tens uma opinião e se for exposta com civismo e respeito, capaz de nos tornar melhores e incentivar a cultura, deixa o mundo ouvi-la! senão… “o silêncio é de ouro”.

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