O sermão de St. June aos peixes…

[CONTÉM SPOILERS DE “THE HANDMAID´S TALE 2T] Diz quem sabe que se deve começar um bom sermão com algo que agarre logo o povo. Sendo assim cá vai: a primeira temporada foi melhor.

Exórdio

A primeira temporada, revelou uma realidade crua que se sente por debaixo de uniformes vermelhos. Ficamos perplexos não só com o que a protagonista vê mas como a noção de paralelismo com o nosso mundo nos provoca arrepio na espinha. Acaba a temporada e acaba o livro que lhe deu origem, e agora? Qual o rumo? Segue a água para o mar ou limitamo-nos a ver salmões a nadar contra a maré?

Louvores

A beleza continua lá, a tensão está presente, o choque e perplexidade são uma constante para quem observa Gilead. Tivemos menos narração mas não é por isso que acompanhamos menos a mente de June, até porque neste momento Elisabeth Moss está numa estratosfera tão dela que quase é uma lua. Todo o elenco é incrível e é preciso procurar muito para apontar defeitos. Alexis Bledel (Emily) e Madeline Brewer (Janine) continuam num excelente registo, Sydney Sweeney (Eden) foi uma boa adição e Ann Dowd (Lydia) bem mais complacente – continuo a achar que é ela a líder da resistência! – mas destaca-se sempre que está presente. O destaque maior ainda assim vai para Yvonne Strahovski (Serena), incrível ver como continua a adicionar camadas à sua performance.

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Repreensões

June a rebelde, June a castigada, June a domada, June a rebelde, June a castigada, June a domesticada…Serena castiga, Serena voadora, Serena castiga…Fred o fixe, Fred o polvo, Fred o fixe… Há o ser imprevisível e depois há o inconstante. É defensável que são personalidades sujeitas a grande tensão, pessoas reais que se “agarram ao amor onde o encontram”, mas foi impossível acompanhar humores nesta temporada. Os momentos de grande choque (a explosão, a violação, a piscina) pareceram também actos isolados, como que cenas que são inseridas para chocar quem vê e que depois não se traduziam em consequências reais. Porque lá está, as personagens principais iam ao sabor do vento. Quando June pega na foto nos momentos finais do último episódio não pude deixar de revirar os olhos por saber o que aí vinha. Eu já nem digo que ela cagou mais uma vez no aquário de tantos que a ajudaram, mas digo que foi a revelação da “Dark Maid” versão 371, em 2 temporadas.

A não ser o episódio mais focado em Moira (fantástica), os outros flashbacks pouco ou nada acrescentaram à história (o extra que aprendi de Serena, não me acrescentou nada em relação às suas motivações, por exemplo). Outra mudança em relação à 1T é a enorme libertinagem dada às Handmaidens. Foi-nos mostrado um mundo tão restrito e só faltou vê-las a ir tomar café todas juntas, isso sentiu-se de modo geral e em June de modo muito particular… e perdi a conta ao número de vezes que Nick foi ao quarto de Offred, que basicamente serviu de escritório da personagem.

Falando de peixes em particular, não consigo engolir Nick. Faz-me imensa comichão como é que June gosta tanto de um papel em branco que sisma em aproximar-se sempre demasiado dela em público (faz lembrar Edward em “Twilight”!). Como esta relação é o sal da terra nesta temporada, tornou tudo ainda mais insosso. Não queria deixar de referir o episódio 11, em que June está sozinha em casa. Há a contemplação da série, e depois há o inerte! A discussão de Serena e Fred é demasiado abrupta e acaba com mais um parto televisivo em que os bebés saem já em modo clip-on, sem nunca ser preciso cortar o cordão umbilical. E já que estou em Offred: não precisa de chorar em todas as cenas para sabermos que está em sofrimento. É o que dá deixarem ver “Homeland”…

Peroração

Olho para este lago que enchi e penso que se calhar pesquei esta temporada com uma caçadeira. Não é de todo a minha intenção. Como há muita boa temporada que ainda não vi não posso afirmar que seja a melhor serie em exibição. Mas posso afirmar categoricamente que “The Handmaids Tale” é excelente e que merece a vossa total atenção. As qualidades superam muito os defeitos e embora este segundo sermão tenha sido menos católico que o primeiro, ainda me faz ir à igreja ao domingo. Com muito prazer.

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