Pelos Caminhos de Westeros: Os Baratheon e a outras versões da Rebelião

Agora que “Game of Thrones” entrou num longo hiatus, porque não aprender mais sobre este riquíssimo mundo? É esse o desafio para as próximas semanas: explorar e relembrar os locais, as pessoas e as histórias que GRRM criou e que a HBO transformou em imagem. Nos próximos domingos falaremos sobre as Casas e os seus membros e de acontecimentos que não foram abordados em profundidade na série. Para mais informação sobre a série, façam “gosto” na página “Game of Thrones (Portugal)“. Esta semana: os Baratheon e outras versões da Rebelião de Robert:

Os Baratheon

Os Baratheon são a mais nova das Grandes Casas de Westeros, com origem há cerca de 300 anos, durante a Guerra da Conquista de Aegon Targaryen. Orys Baratheon, um general do exército invasor, foi enviado para Storm’s End para conquistar Argilac O Arrogante, o último dos Storm Kings que em vez de se refugiar no antigo forte enfrentou Baratheon em campo aberto e foi esmagado. Orys ficou com as terras, as posses e a filha, Argella Durrendon. Após a guerra, a Casa Baratheon foi fundada e manteve-se leal à dinastia Targaryen… até o príncipe Rhaegar raptar a pretendente de Robert Baratheon. No final da rebelião, quando a poeira assentou, Robert, descendente do sangue de dragão, sentou-se no trono, Stannis governou sobre Dragonstone e Renly, o mais novo dos irmãos, governou Storm’s End.

Orys Baratheon – Fundador da casa Baratheon e general de Aegon I durante a invasão de Westeros. Supostamente era meio-irmão do novo Rei e o seu único verdadeiro amigo. Conquistou Storm’s End juntamente com a irmã mais nova de Aegon, Rhaenys, e o dragão Meraxes. O último Storm King, Argilac, sabendo que a fortaleza de Storm’s End de nada lhe valeria contra Meraxes, enfrentou o destemido general em campo aberto e foi amplamente derrotado. Orys manteve o sigilo, o lema dos Durrendons e fundou a nova casa com a filha do Rei derrotado, Argella. Os seus feitos valeram-lhe ainda a nomeação para primeira Mão do Rei.

Argella Durrendon – Quando o seu pai, Argilac O Arrogante, foi derrotado,assumiu para si a liderança e título de Storm Queen. Mas o seu povo, temendo a completa destruição, entregou-a a Orys nua e algemada. Este tapou-a com um manto e tratou-a com cavalheirismo. Quando Aegon distribuiu terras, Orys ficou com Storm’s End e tomou Argella como sua mulher.

Steffon – Lord de Storm’s End, casado com Cassana Estermont, pai de Robert, Stannis e Renly e primo em primeiro grau do Rei Aerys. Sob ordens do seu soberano, partiu para as Cidades Livres em busca de uma esposa para o príncipe Rhaegar. Falhando nessa missão (encontraram apenas um bobo da corte que de acordo com eles, “iria ate fazer rir Stannis”), na viagem de regresso o seu navio naufragou ao largo de Shipbreaker Bay, em Storm’s End (só o bobo sobreviveu, traumatizado para a vida). Steffon e a sua esposa, assim como 100 homens, morreram.

A Família

Robert I – Filho de Steffon e Lady Cassana, o jovem Robert e o irmão um ano mais novo, Stannis, viram os pais morrer num náufrago ao largo de Storm’s End. Agora Lord da região, foi para o Eyrie para ser criado por Jon Arryn, juntamente com Eddard Stark. Sem filhos herdeiros, Lord Jon criou ambos como família e estes viriam a tornar-se grandes amigos. Quando Lyanna Stark, grande amor da sua vida, lhe foi prometida em casamento, já Robert tinha uma bastarda, Mya Stone, o que levou Lyanna a prever que ele nunca seria homem de uma só cama. Nota: Mya Stone aparece logo no primeiro livro da saga, servindo de guia a Catelyn Stark no Eyrie, mas na série ainda não figurou.

Após o rapto da sua noiva, somado a uma série de outros eventos, deu-se a Rebelião de Robert, com a qual viria a ascender ao poder. Robert invocou o sangue do dragão do lado da avó, Rhaelle Targaryen, filha de Aegon V, para reclamar para si o trono em vez dos Arryns, Tullys e Starks e conseguiu unir os sete reinos debaixo da mesma bandeira. Conhecido pelo seu charme, sociabilidade e capacidade de tornar inimigos em amigos até o Dorne, que não esqueceu a complacência do rei em aceitar o assassínio de Elia Martell, mulher de Rhaegar Targaryen e os seus filhos, acabaram por aceitar o novo governo, após Jon Arryn ter intervindo nas negociações. Até a relação com Ned ficou afectada com esses homicídios. Ned abandonou King’s Landing revoltado, e partiu em auxílio de Stannis em Storm’s End e só a morte de Lyanna viria a aproximar novamente os dois amigos.

O Usurpador, O Rei Devasso, O Demónio do Tridente, Rei de Westeros, Lord dos Sete Reinos e Protector do Reino durante 17 anos depois de ter destronado o primo Aerys II, Robert era um grande guerreiro, musculado e de barba feita. Mas após a conquista do trono engordou mais de 50 kg. Enquanto comia, bebia, caçava e percorria todas as prostitutas de King’s Landing, Jon Arryn e Stannis tomaram as rédeas do reino. Seis anos dentro do reinado, Robert ainda derrotou a revolta dos Greyjoys, consolidando a sua posição no trono. Os constantes festins e torneios levaram o reino à falência, apesar de os cofres estarem cheios aquando do reinado de Aerys. Isto obrigou a coroa a pedir empréstimos aos Lannisters, Tyrell, à Faith e ao Iron Bank de Bravos. Robert morreria fruto de uma conspiração de Cersei, que ordenou o primo Lancel Lannister, servo do rei, a dar-lhe um vinho potentíssimo que fez com que falhasse o golpe de lança num javali que tentava caçar, sendo o javali a dar-lhe um golpe fatal. Robert não deixou qualquer herdeiro legítimo ao trono e são-lhe conhecidos pelo menos sete bastardos (mas há quem lhe atribua o dobro).

Cersei Lannister – Filha mais velha de Tywin e Joanna Lannister e irmã gémea de Jaime. Com uma beleza só equiparável à sua astúcia, Cersei é um verdadeiro animal político. Irrita-a que o estatuto de mulher a prejudique, no entanto tira partido disso sempre que pode. O seu orgulho, temperamento e impaciência, no entanto, levam-na a cometer decisões menos acertadas. Não gosta de encarar as verdades de frente e é mais selvagem do que deveria, o que joga contra o seu jogo táctico. À medida que a história avança, prova ser uma líder bem menos inteligente do que demonstra ser inicialmente, tornando-se na maior inimiga de si própria. Morre de amor por Jaime e despreza o irmão mais novo, Tyrion, por ser responsável pela morte da mãe e consequentemente amargura do pai. A relação com o patriarca da família é igualmente complexa. Do mesmo modo que o desdenha, tem-lhe um enorme respeito e segue ao máximo o seu estilo de liderança, astúcia e até ausência de compaixão. Decidida a manter Jaime perto de si, e depois da possível junção com o Príncipe Rhaegar ter falhado, orquestrou para que o pai aceitasse alistar Jaime na Kingsguard. Quando Jaime tinha 15 anos, e voltava de uma batalha e passou em King’s Landing para visitar a irmã, esta seduzio-o (dormiram juntos pela primeira vez) e Cersei convenceu-o a alistar-se na Kingsguard. O plano saiu-lhe furado, porque desconhecia a tensão existente entre Tywin e Aerys. Quando o Rei aceitou Jaime não foi por favor, mas para roubar os Lannister de possíveis herdeiros. Assim que Tywin renunciou ao cargo de Mão, partiu para Casterly Rock levando Cersei e separando-os novamente.

No final da rebelião, casou com Robert num arranjo de conveniência. Na noite de núpcias, embriagado, Robert chamou por Lyanna, algo que Cersei nunca lhe perdoou. Não nutrindo qualquer sentimento pelo marido, deposita todo o seu amor nos três filhos, frutos da relação de incesto com Jaime. Mas, embora os proteja de terceiros, não parece ser a melhor educadora, incapaz de impor disciplina e reagindo mal quando estes a desafiam. Até há quem teorize que ela apenas os ama porque são uma extensão da sua própria pessoa, a única com quem parece realmente se importar. (Nota: em entrevista, a actriz Lena Headey diz: “Cersei não ama Jaime, Cersei queria ser Jaime”).

Vive assombrada por uma profecia que Maggy The Frog lhe fez na infância, prevendo o seu casamento, a infidelidade no mesmo e que viveria para além dos seus filhos, que morreriam Reis e rainhas. Que uma rainha mais nova e bonita um dia iria destrona-la e que no final, quando perdesse tudo, o seu “pequeno irmão” acabaria por matá-la. Isto explica a sua animosidade perante Margaery Tyrell, ao achar que é ela a rainha mais nova e bonita (quando pode muito bem ser Daenerys) e Tyrion, ao pensar que é ele o pequeno irmão que a matará (quando pode perfeitamente ser Jaime, visto que ele nasceu depois dela).

Joffrey I – Mimado, temperamental e sádico, é o filho mais velho de Cersei. Apesar de obstinado, é imprudente, cruel e pouco inteligente, o que leva a decisões irracionais e a maus julgamentos. Dono do amor incondicional da mãe, já Robert sempre foi indiferente com o “filho”, mostrando-se desiludido com o rebento. Em contrapartida, Joffrey nutre por ele um imenso respeito, elevando os seus feitos e tentando sempre conquistar a sua aprovação. Em criança, matou uma gata prenha e abriu-lhe a barriga para ver as crias. Robert ficou tão chocado e bateu-lhe com uma força tal que lhe arrancou dois dentes de leite.

Stannis – Descrito como um homem sério, teimoso, implacável e com um grande sentido de justiça e honra. Um grande guerreiro, marinheiro e comandante, cuja personalidade o impede talvez de ser um grande líder. Apesar de amplamente respeitado, nunca foi alvo de amor do povo ou súbditos. Casado, mas com uma relação fria, com Selyse da Casa Florent (durante o casamento, Robert tirou a virgindade de Delena Florent na cama de Stannis. Originando o único bastardo admitido pelo Rei. Stannis enviou o bastardo para Storm’s End para ser lá criado), tem uma filha, Shireen, que sofre de Greyscale, uma maleita que transforma a pele e deixa-a dura e morta, formando uma crosta. Perdeu a fé nos Sete aos 13 anos, afirmando que Deuses cruéis que lhe levam os pais não merecem o seu amor.

A teimosia e senso de honra valeram-lhe de muito durante a Rebelião. Encarregado pelo irmão de defender Storm’s End, aguentou o cerco de Mace Tyrell durante um ano, impedindo assim que as forças leais ao Rei avançassem para Norte. Aguentou a posição até Ned Stark partir em seu auxílio, suportando a fome resultante do cerco. Robert confiou-lhe seguidamente a conquista de Dragonstone, ainda no comando dos Targaryen, mas quando lá chegou encontrou a ilha deserta. Quando ascendeu ao trono, Robert deu ao irmão o controlo de Dragonstone, e a Renly, que não contribuiu em nada para o combate, a mais rica terra de Storm’s End. A decisão não agradou a Stannis, mas como soldado leal, aceitou. Foi nomeado para o pequeno conselho como Mestre da Frota e foi novamente fundamental ao derrotar a frota das Ironlands, durante a rebelião dos Greysjoys.

Apesar de todos os seus feitos, Robert não lhe concedeu qualquer mérito. Agradeceu a Ned por ter libertado Storm’s End, culpou Stannis por os Targaryen terem escapado de Dragonstone, apesar destes terem partido bem antes de ele lá chegar e quando o Rei estava mais preocupado em aproveitar os prazeres do reino do que a governar e Stannis tomou as rédeas juntamente com Jon Arryn, não recebeu qualquer agradecimento também. Stannis nunca se queixou publicamente. O seu dever é servir, sem necessidade de recompensas.

Foi ainda ele que suspeitou que os filhos de Cersei não seriam do irmão, e procurou Jon Arryn para o ajudar a provar. Stannis achou que o irmão nunca acreditaria em si, mas pela voz de Lord Arryn ele iria ver a verdade. Lord Arryn pretendia ainda que Robert (que na série é Robin), o seu filho, fosse para Dragonstone para que Stannis servisse de tutor, mas entretanto foi assassinado e a mãe levou-o para o Eyrie.

Renly – Ao contrário de Stannis, Renly é amplamente amado pelo povo. Um homem carismático e bonito mas algo frívolo. Apesar de ser desejado por muitas mulheres, Renly é homossexual e manteve uma relação secreta com Loras Tyrell, seu escudeiro.

Durante a Rebelião, Renly foi protegido para que não fosse raptado e no final da guerra recebeu as ricas terras de Storm’s End em detrimento do irmão mais velho Stannis. Foi ainda nomeado para o pequeno conselho como Mestre de Leis. Após a morte de Robert, Renly tentou arrecadar o apoio de Ned Stark para suceder ao irmão, quando não conseguiu, fugiu e refugiou-se em Storm’s End. Devido ao amor que o povo tinha por si, conseguiu mais seguidores que o próprio Stannis, incluindo os Tyrell, através do casamento com Margaery. Tentou manter-se à margem da Guerra dos Cinco Reis, cortando o fornecimento de alimento para King’s Landing e esperando que Lannisters e Stark se desgastassem entre si. Quando Stannis avançou sobre Storm’s End, Renly recusou o conselho de Catelyn Stark de uma resolução amigável e decidiu combater. Morreria na noite anterior ao combate.

Tommen I – Apesar da semelhança física, Tommen é bastante diferente de Joffrey. Descrito como uma criança doce, de bom coração e que muitos acreditam que seria melhor Rei que o seu irmão mais velho. É implicado ainda que Joffrey abusava e intimidava o irmão, chegando a matar e esfolar o seu gamo de estimação (um animal semelhante a veado).

Myrcella – Filha mais nova de Cersei. Com toda a beleza e nenhuma da maldade da mãe, é uma criança delicada, cortês, corajosa, determinada e inteligente.

Gendry – Com a mesma idade de Robb Stark, Gendry desconhece ser bastardo de Robert Baratheon. Quando atingiu uma certa idade, um lord pagou o dobro da fiança necessária de aprendiz para que este aprendesse a arte de ferreiro com Tobho Mott (suspeita-se que tenha sido Varys). Pouco se sabe sobre a mãe, apenas que trabalhava numa cervejaria, tinha cabelo loiro e morreu quando ele era ainda criança.

As Stormlands

Entre King’s Landing a Norte, o Mar de Dorne a Sul e o Reach a Oeste, situam-se as Stormlands. Caracterizada por tempestades fortes e uma cultura guerreira, foi governada pelos Storm Kings desde a Idade dos Heróis e por Baratheons assim que Orys conquistou as terras. Uma das mais pequenas regiões de Westeros, é dominada por montanhas, costas rochosas e florestas verdejantes.

Segundo a lenda, Durran, o primeiro Storm King conquistou o amor de Elenei, a filha do Deus do Mar e Deusa do vento. Os pais divinos não aprovaram o casamento e na noite do casamento destruiram o castelo, matando toda a familia do Rei e convidados. Furioso, Durran declarou guerra aos deuses que em resposta atacaram as suas terras com tempestades. Cada vez que Durran construía um castelo a desafiar os deuses, era destruído pelas tempestades. Persistente, continuou a construir fortificações cada vez maiores e resistentes e, ao sétimo castelo, o forte resistiu às tempestades do mar. Alguns acreditam que só foi possível devido à magia das crianças da floresta, outro que foram os conselhos de um rapaz, o futuro Bran O Construtor, fundador da Casa Stark (talvez justificando a aliança entre as Stormlands e a Casa Stark desde a Dawn Age), que aconselhou Durran durante a construção.

A veracidade da história perdeu-se com o tempo, mas a verdade é que Storm’s End ainda hoje permanece imponente, desafiando os deuses. É o foco de poder da região e um dos mais antigos fortes de Westeros. Está tão bem construído, e as pedras tão perfeitamente juntas, que nem o vento passa. A lenda diz ainda que as paredes estão protegidas por uma poderosa e antiga magia, justificando que o forte nunca tenha caído sobre cerco ou batalha. Composta por apenas uma vasta torre e um conjunto de muralhas de modo a que, à distância, os inimigos vejam o que parece ser um punho em direcção ao céu, em sinal de provocação. Orientado para a Shipbreaker Bay, tem um penhasco com 50 metros de altura até ao mar.

As ilhas de Estermont e Tarth também pertencem à região, esta última característica pela cor azul da água que a rodeia, merecendo a alcunha de “Ilha de Safira”.

Os bastardos desta região têm o nome “Storm”.

A Rebelião de Robert Baratheon por Sir Davos

“Em King’s Landing, se sair do Red Keep e não tiver cuidado, pode dar por si em Flea Bottom. Nessa fossa, a Casa Seaworth teve o seu início glorioso.

Mal pude escapei daquele lugar e arranjei trabalho num navio de contrabando. Em breve, todos os portos tinham uma recompensa sobre a minha cabeça e seria mesmo apanhado se não desse dinheiro às pessoas certas ou apanhasse as marés certas. Eu era muito bom. Davos de Flea Bottom dava-se com órfãos e mendigos, Davos o contrabandista foi recebido por mercantes e senhores. Curiosamente, o trabalho honesto veio dos piratas, com o notório e sanguinário Salladhor Saan, um velho amigo, que só queria que alguém comprasse a sua carga e a vendesse sem que dissesse de onde tinha vindo.

Com o tempo juntei dinheiro para uma terra e encontrei uma mulher que virasse o olhar ao meu tipo de negócio. Deu-me um filho, Matthos (terceiro de sete filhos), e sonhamos com o círculo dos comerciantes do Mar Jade. Só uma viagem e teria dinheiro para a minha família para o resto da vida.

Foi então que um Senhor das Stormlands se revoltou contra o Rei. As guerras não são tão boas para contrabandistas como se pode pensar. Os portos estão cheios de guardas e inspectores, o mar cheio de bloqueios e piratas, pagos por ambos os lados da rebelião para se atacarem. Embora não morresse de amor pelo Rei Aerys, estava habituado ao ambiente de King’s Landing e pensei que este Robert Baratheon fosse acabar como os restantes rebeldes, em cinza. Mas não. O Norte, Riverlands e Vale juntaram-se e nas tabernas as pessoas brindavam à sua saúde, tolos, pensei eu, que não podia dar-me ao luxo de perder a cabeça pois tinha uma família para alimentar.

Quando Mace Tyrell marchou sobre Storm’s End pensei que a guerra terminaria ali. O irmão mais novo, Stannis, foi encarregue de defender a casa de Robert com uma pequena guarnição. Não iria aguentar muito tempo e Robert perdia o seu pilar de sustento. Mas meses depois Stannis ainda lá estava, a segurar o forte… e ninguém queria saber. Em viagens vi de perto o que faz a fome e pensei naqueles homens que morreriam esquecidos, tal como os órfãos em Flea Bottom. Convenci-me a mim mesmo e à minha mulher que conseguiria um preço alto pelas cebolas e bife, mas na verdade seria capturado pela frota Tyrell ou morreria afogado. Mas era demasiado teimoso.

No escuro da noite parti num pequeno barco de vela preta e amaldiçoei-me e à Lua enquanto esperei pela maré. Quando o vento veio, bateu com tanta força que me rasgou a vela. Receei que os Tyrell tivessem ouvido o estrondo, mas eles tinham-se tornado complacentes. Remei pelas correntes traiçoeiras e emaranhado de pedras que faziam jus ao nome Shipbreaker Bay. As ondas finalmente levaram-me a porto seguro, ensopado e quase cego da água salgada. Stannis Baratheon aproximou-se…

O cerco tinha-o deixado magro, mas não fraco, nunca fraco! Cumprimentou-me e agradeceu as minhas cebolas com cortesia, sem emoções, enquanto todos os outros choravam. Distribuiu a comida pela mulher e cada um dos seus homens e só depois comeu. Uma porção nem maior nem mais pequena que todos os outros. Quando me agradeceu percebi que a sua mente já se tinha voltado para as defesas do castelo, o seu dever.

Depois de Aerys ter caído e o Lord Stark ter levantado o cerco, Stannis chamou-me. Pelo auxílio, Davos de Flea Bottom foi nomeado cavaleiro, tornado em Davos da Casa Seaworth, recebeu a sua própria fortaleza e o seu filho Matthos serviria o próprio irmão do rei (o brasão da família é um barco com velas negras e uma cebola). Mas pelos meus crimes passados como contrabandista, cortar-me-iam a ponta dos dedos de uma mão. Stannis afirmou que defraudei a lei durante anos e uma boa acção não anula uma má. Com um corte, ou cinco, Stannis (o próprio entregou a sentença) deu à minha família um nome e ao meu filho um futuro que nunca poderia ter imaginado ou merecido sozinho. Ainda tenho uma bolsa com os ossos à volta do pescoço para me lembrar o que era antes e o quanto devo a Stannis (viria a perdê-la na batalha de Blackwater), pois durante muitos anos visitei vários portos, tabernas e becos escuros e vi muitas coisas neste mundo, mas nunca justiça… até encontrar Stannis.”

“A Rebelião por Margaery Tyrell”

“Algumas Grandes Casas chamam-nos de novos-ricos, mas a verdade é que enquanto os Lannisters e Starks foram derrotados pelos Targaryen, a Casa Tyrell floresceu.

Durante milhares de anos a nossa família serviu lealmente os regentes do Reach (Casa Gardener) até o ultimo ter caído queimado pelos invasores Targaryen. Para salvar o Reach do mesmo destino, entregámos Highgarden a Aegon e as suas irmãs, que em gratidão, deu à Casa Tyrell domínio sobre a região. Assim tornámo-nos senhores do castelo no qual, por gerações, tínhamos servido.

Sob a nova dinastia, Westeros prosperou, longe das guerras dos sete reinos e da busca de glória que elas incitavam. As Westerlands enriqueciam o Reino, o Norte protegia-o e o Reach e as Riverlands alimentavam-no. Foi esta harmonia que Robert Baratheon destruiu na rebelião. Quando a chamada às armas chegou não queríamos responder. O Reach é uma terra gentil e, honestamente, o Rei Louco não era amado, mas a minha família devia paz e prosperidade aos Targaryen. O meu pai, Mace Tyrell, chamou os seus bannermen para cavalgar em direcção a Robert a Norte, que já tinha derrotado três forças num dia… em Ashford, o meu pai venceu. (Há, no entanto, quem diga que foi Randyll Tarly e os seus homens que derrotaram realmente as forças de Robert).

Houve quem criticasse o meu pai por não perseguir Robert, mas cortámos o acesso das forças rebeldes às Stormlands, obrigando-o a ir para Norte, ao fácil alcance do Lord Lannister, Mão de Aerys durante 20 anos. O meu pai resolveu antes cercar Storm’s End. A Rosa estrangularia o Veado enquanto o Leão o calcava… mas o Leão adormeceu e Robert passou pelas forças do Rei para se juntar a Ned Stark.

Podíamos ter mobilizado para Norte para ajudar as forças reais, podíamos ter invadido as muralhas da Casa Baratheon, mas tínhamos suprimentos e controlo sob a terra e o mar e, acima de tudo, paciência. O nosso cerco seria bem-sucedido, eventualmente, com baixo custo para nós. Se Robert prolongasse a guerra com vitória insignificantes, a captura de Storm’s End resultaria no seu fim, se Robert perdesse, bem, não iria ficar contente em nos encontrar no seu castelo com o corpo do irmão.

Quando o Leão finalmente mostrou as suas garras e… purgou King’s Landing, sabíamos que a nossa causa estava perdida. O meu pai escolheu a rota pacífica e ajoelhou-se perante Robert, que nos perdoou. Estranho, considerando que o derrotámos e deixámos o irmão à beira da morte com a fome. Mantivemos as nossas terras e títulos mas sabíamos que nunca seríamos bem-vindos na Corte. Não importa. O Reach continua a terra mais fértil dos Sete Reinos e continua sob a nossa mão. Todas as flores, até a rosa, precisam de ser podadas… depois crescem fortes.”

A Rebelião por Stannis Baratheon

“O meu irmão, Robert, chamou os seus bannermen e, juntamente com Jon Arryn, Ned Stark e Hoster Tully das Riverlands declararam rebelião ao Rei Louco. Mas as terras dos aliados estavam longe, com as forças do Reach, do Oeste e King’s Landing entre nós e eles. Até os lordes de Robert estavam contra ele. Foi a decisão mais difícil da minha vida: o meu irmão ou o meu rei, sangue ou honra. Aerys governava por direito e toda a gente sabia o preço da provocação, mas há leis mais antigas e profundas: o irmão mais novo curva diante do mais velho. Segui Robert.

No início da guerra a vitória indecisa de Mace Tyrell cortou o acesso de Robert a Storm’s End, e em vez de seguirem para Norte e arriscar o seu registo vitorioso, virou-se para Este e pressionou a nossa Casa. O seu vasto exército e marinha cercaram-nos e impediram o abastecimento por terra e mar. As carroças eram queimadas, os navios afundados. Estávamos presos em Storm’s End, a morrer à fome, mas o meu irmão disse para aguentar, independentemente do preço. Não poderia dar-se ao luxo de perder a sua cadeira, aquela que nunca tinha caído.

Enquanto Robert esmagava o príncipe no Tridente, os meus homens comiam os cães, porque os cavalos já tinha sido devorados. Enquanto os Lannisters saqueavam King’s Landing, nós comíamos ratos. Se o contrabandista Davos não tivesse furado o bloqueio dos Tyrell com as suas cebolas, teríamos comido os nossos próprios mortos. Mas eu aguentei o castelo, até o Lorde Eddard se lembrar de nós e marchar contra o cerco. Os Tyrell nem sequer deram luta… e Robert deu uma festa para celebrar a vitória do Lord Eddard…

Fui enviado para a fortaleza de Dragonstone para lidar com Viserys e Daenerys, os sobreviventes Targaryen, mas antes de lá chegar já eles tinham fugido pelo mar. Robert ficou furioso! Retirou-me Storm’s End e deu àquele tolo arrogante, Renly, o meu irmão mais novo. Eu podia ficar com Dragonstone.

Agora Robert está morto e um bastardo mancha o meu trono enquanto o reino se enche de conspiradores e traidores. Mas o Rei legítimo está a caminho e não descansarei até purgar esta terra das abominações. Os Baratheon dizem: Nossa é a Fúria… eu vou-lhes mostrar que a fúria arde!”

A Rebelião por Catelyn Stark

“Família, Dever, Honra… Todas as crianças Tully aprendem estas palavras, mas já era uma mulher quando as entendi.

Quando atingi a idade, o meu pai aceitou um pedido pela minha mão em casamento. Brandon era herdeiro do Norte e um par adequado para uma filha da Casa Tully. Para mim, ele era assustador, sempre rodeado de risos e problemas… amava-o com todo o amor de uma primeira paixão. Assim como Petyr me amava a mim.

Há muitos anos, o meu pai recebeu uma criança dos Fingers, uma zona montanhosa do Vale, de seu nome Petyr Baelish. Devido à origem e ao tamanho, o meu irmão deu-lhe a alcunha de Littlefinger. Quando Petyr descobriu que tinha ficado noiva, desafiou Brandon num duelo pela minha mão. Só sobreviveu porque implorei ao meu noivo que não o matasse. Afinal, Petyr era família… se fosse hoje, deixava-o morrer. (Petyr foi posteriormente banido de Riverrun. Enviou uma carta a Cat quando Brandon morreu, mas ela queimou-a sem ler.)

Dias antes do meu casamento, quando me imaginava feliz para sempre, o príncipe Rhaegar raptou Lyanna Stark e, temperamental como sempre, Brandon apressou-se para King’s Landing em busca de justiça. Justiça essa que Aerys concedeu, da sua maneira distorcida. Quando o corvo chegou com a notícia da morte do meu Brandon, tranquei-me no quarto durante dias… até o meu pai me lembrar do meu Dever. Deveria casar com Ned Stark, irmão mais novo de Brandon e de quem nunca tinha ouvido falar mal, nem nada sequer. A nossa união cimentaria a união do Norte, Vale, Stormlands e Riverlands em revolta contra o Rei Louco. Eu era uma Tully, cumpri o meu Dever. Casámos rapidamente e tivemos direito a apenas uma noite até ele voltar ao campo de batalha.

Grávida, esperei à janela por novidades que condenassem o meu filho a um futuro sem pai, ou sem futuro sequer. Sabíamos o preço da derrota. Ouvi os rumores pelos corredores em busca de notícias: Robert ganhou e derrotou o Rei Louco… Robert perdeu mas Jaime Lannister era agora Rei… Robert quase que ganhou mas o Rei Louco transformou-se num dragão e incendiou King’s Landing… rumores. À noite só desejava que a guerra acabasse em breve.

Robert venceu, e o meu amor regressou para os meus braços. Mas quando chegou não me olhava nos olhos e vi o motivo ao seu lado… Eu sei que muitos homens têm bastardos e, sobre a tensão da guerra, qualquer homem, por muito honroso, abandonaria os votos por uma noite de calor que talvez não tivesse mais, mas Ned não era como outros homens, a sua honra do Norte não o permitia perder a vergonha numa casa de alterne qualquer. Trouxe este rapaz, este Jon Snow, e criou-o junto com os seus filhos legítimos, meus filhos…”

A Rebelião por Varys e Littlefinger

“Varys: Por 300 anos, a dinastia Targaryen governou Westeros. Ainda havia guerras, casas ainda eram queimadas e homens ainda morriam, mas em comparação com o caos anterior, o reino era estável…

Littlefinger: …e aborrecido! Os Targaryen mentiram, roubaram e mataram tanto quanto os outros lordes, apenas tinham dragões para responder às reclamações. Até deixarem de ter. Quando o último dragão morreu, foi apenas uma questão de tempo até os Targaryen os seguirem…

Varys: …por uma questão de tempo, refere-se a mais um século?!

Littlefinger: …que eles desperdiçaram, tentando substituir a vantagem perdida. Incinerando os seus próprios palácios para chocar ovos de dragões, bebendo fogo selvagem para se tornarem dragões e, não nos esqueçamos, da favorita do Rei Louco: queimar homens vivos para que fingisse SER um dragão.

Varys: Pedimos a Aerys que perdoasse Brandon Stark. O rapaz tinha ameaçado o príncipe Rhaegar, mas Rhaegar tinha roubado a irmã dele. E o “rapaz” era o primogénito do nosso Regente do Norte.

Littlefinger: Quem é mais tolo, um rei louco ou o homem que tenta argumentar com ele? Aerys via adagas em cada sombra. Quando disse para tratar os Stark com cautela, deixou-o com medo. E o que ele temia, ele matava.

Varys: Não pensei que vós, entre todos, se preocuparia com recriminações pela morte de Brandon, Lorde Baelish. Não depois do seu, como dizer, “duelo” com ele.

Littlefinger: Brandon era tão arrogante como estúpido, assim como o seu pai, Lorde Stark, que respondeu ao chamado de Aerys à capital. Eles mereceram os seus destinos. Mas o filho mais novo, Ned, qual foi o seu crime para que Aerys ordenasse a sua morte também?

Varys: Ao contrário dos homens, as famílias não morrem quando se corta a cabeça…

Littlefinger: No mínimo você deveria ter dito que o leal e submisso Ned estava a morar com Jon Arryn, um lorde orgulhoso e íntegro com um castelo inconquistável e sem filhos. Talvez pudesse ter poupado a Aerys o constrangimento de uma revolta.

Varys: Se ao menos o tivéssemos consultado, Lorde Baelish. Mas suponho que primeiro teríamos de saber quem você era…

Littlefinger: Ninguém conhecia Robert Baratheon também, mesmo assim ele exigiu o direito de se sentar no Trono de Ferro.

Varys: Ele tinha sangue dos Targaryen do lado da mãe…

Littlefinger: Um vestido bonito para uma mentira feia. Era guerra e ele conseguia brandir um martelo melhor que as outras opções. Quando soube que tinha perdido, Lorde Varys?

Varys: Quando Robert matou o príncipe Rhaegar no Tridente.

Littlefinger: Errado. Perdeu a guerra quando deixou Ned Stark fugir para o Norte. Nem o maldito portão do Vale, nem o Moar Cailin no Norte teriam caído. Eles teriam sido mantidos por anos, mesmo se tivesse morto Robert, mas também ele o deixaram fugir.

Varys: Eu disse à corte que Robert estava escondido no Stony Sept, mas o Mão do Rei perdeu muito tempo a procurar na cidade. Algo sobre a glória de um único combate. E depois o exército de Ned Stark chegou para salvar o dia.

Littlefinger: Que pena que o lorde Tywin não era mais o Mão. Ele teria destruído a cidade e acabado com tudo.

Varys: Talvez, e talvez os rebeldes tivessem encontrado mais gente para lutar pelos seus estandartes…

Littlefinger: Quase me esqueci. Não foi sempre leal aos Lannister durante a guerra, pois não?

Varys: Cumpri o meu dever com o reino. Quando Lorde Tywin apareceu em King’s Landing professando lealdade, avisei Aerys para não abrir os portões. O príncipe Rhaegar estava morto, os nossos exércitos espalhados… o leão não se mexe se não sentir o cheiro de carne.

Littlefinger: Admiro os seus poderes de persuasão, Lorde Varys. Pouco teriam traficado tantos segredos com tão pouca vantagem.

Varys: Grand Maester Pycelle disse a Aerys o que ele queria ouvir. Que o seu velho amigo Tywin estava lá para o salvar.

Littlefinger: Depois o “velho amigo” de Aerys saqueou a cidade e o seu filho esfaqueou Aerys pelas costas.

Varys: Uma infeliz, mas necessária acção.

Littlefinger: Assim como os perdões que o novo rei Robert deu aos monarquistas: Mace Tyrell, Barristan Selmy, você…

Varys: O rei Robert escolheu sabiamente ordem em vez da vingança.

Littlefinger: Jon Arryn escolheu sabiamente por Robert. Mas Jon Arryn morreu, depois Robert e depois Ned. Então terminou a gloriosa revolta.

Varys: E Westeros tem estado em chamas desde então.

Littlefinger: Deixe!

Varys: Que atitude tão Targaryen a sua… um dos loucos.

Littlefinger: O fogo transforma até o carvalho mais imponente em cinzas, deixando espaço para novas raízes crescerem…”.

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