Pelos Caminhos de Westeros: Wargs, Ghys, Dothraki, Unsullied e outras Casas de Westeros

Agora que “Game of Thrones” está num longo hiato, porque não aprender mais sobre este riquíssimo mundo? É esse o desafio para as próximas semanas: explorar e relembrar os locais, as pessoas e as histórias que GRRM criou e que a HBO transformou em imagem. Nos próximos domingos falaremos sobre as Casas e os seus membros e de acontecimentos que não foram abordados em profundidade na série. Para mais informação sobre a série, façam “gosto” na página “Game of Thrones (Portugal)“. Esta semana: Wargs, Ghys, Dothraki, Unsullied, Red Keep, Lord of the Light e outras Casas de Westeros

Os Wargs e a Visão Por Bran Stark

“Em criança, a minha irmã Sansa adorava histórias com princesas e cavaleiros, mas eu sempre quis ser assustado. Quando era a minha vez, pedia à Old Nan para nos falar de magia e monstros.

Há muito tempo, quando o mundo era novo, as Crianças da Floresta cantavam a música da terra, e a terra ouvia. A magia era forte nessa altura e as Crianças conseguiam comunicar com as bestas da floresta, rios e ar. Os mais sábios podiam até abandonar os seus corpos para caçar, nadar e voar na pele dos animais. Foram os primeiros Wargs.

Depois, os Primeiros Homens trouxeram consigo o fogo e espada. Queimaram as weirwoods e deitaram abaixo as Crianças. Invocando magia negra, as Crianças fizeram subir o mar e destruíram a ponte terrestre que os Primeiros Homens usaram para atravessar até ao Dorne. Quando isso falhou, as Crianças atacaram com o Martelo das Águas no Neck, inundando-o e transformando-o no pantanal que é hoje. Quando a paz chegou, as duas raças partilharam a terra e os deuses das Crianças por milhares de anos.

Agora vem a parte boa. Ninguém sabe como nem porquê mas a magia das Crianças começou a emergir nos Homens. Talvez uma em mil nasceria Warg, menos ainda nasceriam com a Visão. A Old Nan não falava disso e o Maester Luwin nunca acreditou, mas com isso as Crianças podiam saber de eventos a longa distância e até que ainda iriam acontecer. Alguns dizem que a Visão era o segredo mais terrível e poderoso das Crianças e ajudou a mudar a balança durante a Longa Noite. Desde então que a magia fugiu do nosso mundo.

Para o povo, qualquer criança que se suspeitasse ser Warg seria deixada para morrer. Mas para além da Muralha, um caçador descuidado podia deparar-se com uma presa com garras e dentes, mas com uma mente de homem para as guiar, pois os wildling têm uma ideia diferente de monstros. Mas até os wildlings mantêm a distância de um Warg porque, e é aqui que a Old Nan se aproximava e sussurrava: Como sabem que o homem está dentro do animal ou se o animal está dentro do homem?

Agora a Old Nan já não conta histórias e o Maester Luwin nunca mais fará chacota delas… tudo bem. Já não gosto de histórias assustadoras, porque estou numa…”.

Ghys por Jorah Mormont

“Valyria não foi a primeira a conquistar o mundo. Na aurora dos tempos, a cidade de Ghis abriu os seus portões e lançou as suas legiões pelo continente de Essos. Com a sua cega disciplina e obediência absoluta, dominaram nações inteiras e colocaram a harpia nos quatro cantos do mundo conhecido. O que não destruíam, escravizavam. A escravidão é tão velha quanto o homem, mas só se tornou uma arte com os ghiscari. Os senhores de escravos enriqueceram à medida que as pirâmides eram construídas, as casas de prazer enchiam e as arenas de luta eram abertas. Ninguém se lembra se as águas ao redor de Ghis tinham nomes antes do Império, mas desde então são conhecidas como Baía dos Escravos (Slaver’s Bay) e o Golfo da Mágoa (Golf of Grief).

De Ghis, no entanto, só restam ruínas, pois tal é o fim de todas as grandes civilizações. Há cinco mil anos, pastores valyrianos encontraram ovos estranhos e em poucas gerações, o Freehold de Valyria erguei-se do outro lado do mar. Cinco vezes os ghiscari travaram guerras contra Valyria e cinco vezes perderam, pois o Freehold tinha dragões e o Império não. As suas melhores legiões foram queimadas e as outras desintegraram-se, os muros de Ghis foram derrubados, as suas ruas e prédios incendiados e os campos de cultivo envenenados com sal, enxofre e crânios.

Porém, o Império não foi totalmente destruído. Astapor, Yunkai e Meereen, antes meras colónias na Baía dos Escravos, sobreviveram e até prosperaram. Valyria havia visto os ghiscari tornarem-se ricos e poderosos às custas de povos conquistados e agora era a vez do Freehold. Enquanto os senhores de dragões subjugavam o mundo, os mercados de escravos do seu antigo inimigo nunca tinha falta de carne.

Lamentando o Império perdido, os descendentes da Velha Ghis engordavam e enriqueciam. O Doom recaiu sobre Valyria e os Dothraki saquearam livremente a maior parte do continente. Mas as abastadas Astapor, Yunkai e Meereen seguiram como há milhares de anos. Intocadas. Pois mesmo os Senhores dos Cavalos sabem o que os valyrianos aprenderam dos ghiscari: de que servem escravos sem traficantes de escravos?”

Dothraki e os Imaculados por Jorah Mormont

“Quando o Doom atingiu a Valyria, a sua grande cidade foi dividida em cidades em conflito e nações arrogantes, prontas para serem tomadas.

Destas saíram os Dothraki, os Lordes dos Cavalos das planícies que só temiam a derrota e dragões, e agora os dragões haviam sido destruídos. Sob a liderança do grande Khal Temmo, saquearam e queimaram todas as cidades que estavam no seu caminho. Não havia exército que pudesse derrota-los porque os Dothraki não param. Os Lordes dos Cavalos não definem limites de batalha, não se escondem com escudos nem se enchem de armaduras. Os Dothraki atacam. As suas lâminas são mais “sai” do que espadas, melhores para abater a infantaria sem diminuir o passo e até os seus arqueiros atiram montados para que, avançando ou recuando, as flechas nunca parem. Para os Dothraki, quem não cavalga não é homem, sem honra nem orgulho.

Quando a cidade de Qohor percebeu que Khal Temmo estava a caminho, fortaleceram os seus muros, dobraram o número de guardas e contrataram duas companhias de mercenários. Os Dothraki estavam acostumados a agricultores glorificados que atacavam com lanças e Qohor mostrar-lhes-ia um exército de verdade, com cavalaria armada para enfrentar a horda. Após pensarem melhor, os líderes enviaram um emissário a Astapor para comprar Imaculados (Unsullied). Os traficantes de escravos diziam que os Imaculados eram o retorno das maiores legiões de Ghiscari. Poucos se importaram. As ruínas queimadas da Old Ghis eram uma lembrança de que a era dos soldados a pé tinha acabado. Mas o emissário havia recebido as suas ordens e comprou três mil Imaculados para o regresso a marchar, pois os Imaculados não cavalgam. Mas enquanto marchavam, Khal Temmo chegou a Qohor. Imagino como o Khal ficou feliz por finalmente encarar um desafio. No final da batalha, corvos e lobos alimentavam-se do que restou dos cavalos de Qohor. Todos os mercenários haviam fugido e Qohor sabia que os Dothraki logo invadiriam os portões para violar, queimar e fazer escravos conforme quisessem.

Mas no dia seguinte, Khal Temmo encontrou, diante dos portões, três mil eunucos em formação, armados apenas com lanças, escudos e elmos perfurantes. Os Imaculados haviam passados pelo exército de Khal durante a noite enquanto os Dothraki comiam. Khal Temmo tinha muitos mais homens e poderia ter acabado com eles facilmente, mas para os Dothraki homens a pé só servem para ser atropelados. 18 vezes atacaram os Lordes dos Cavalos e 18 vezes os Imaculados ergueram os escudos, baixaram as lanças e resistiram contra os 20 mil Dothraki. Quando os arqueiros de Khal lançavam flechas, os Imaculados erguiam os escudos sobre as cabeças até que elas acabassem e voltavam a segurar a linha.

No final, restaram apenas 600 Imaculados, mas mais de 12 mil Dothraki estavam mortos, inclusive Khal Temmo e todos os seus filhos. O novo Khal levou os sobreviventes para o outro lado dos portões onde um por um, cada homem cortou a própria trança e a lançou aos pés dos Imaculados, derrotados e envergonhados para sempre.

Desde esse dia, os Imaculados ocupam os postos de cidades e casas com dinheiro suficiente, ou desesperadas o suficiente. Mercenários lutam por ouro, cavaleiros por glória e Dothraki por sangue. Os Imaculados lutam apenas para obedecer e sob a liderança do mestre certo, imagine como as forças do caos seriam destruídas nos seus escudos. Os conquistadores, os loucos, os usurpadores…”.

Red Keep por Joffrey Baratheon

“Meu. É isso que o Red Keep é. Os plebeus dizem que a cor vem do sangue que Aegon derramou para conquistar a coroa. Tolos. A pedra não absorve sangue, não importa o quanto eu tente.

Aegon construiu o seu castelo com pedras vermelhas para lembrar o povo do fogo em que queimou os seus inimigos. Assim, sempre que King’s Landing olhasse para cima, veriam o preço da rebeldia. Ele sabia a primeira regra dos réis: somente o medo mantém os homens na linha. Medo e castigo.

Uma lição que ensinou ao seu filho, Maegor. Quando os construtores terminaram o Red Keep, Maegor executou-os a todos para manter os seus segredos a salvo. Rumores dizem que há quilómetros de passagens secretas por detrás das paredes e sob o chão. Um dia terei de encontra-las. Apenas traidores e mulheres trabalham nas sombras, um rei não precisa de segredos. Hoje as pessoas chamam Maegor de “O Cruel”, mas duvido que ousassem chama-lo assim naquela época. A sua força era muito rara no sangue degenerado dos Targaryen.

O cínico Baelor, o Abençoado, criou o Cofre das Donzelas para prender as próprias irmãs e se livrar de pensamentos carnais. Asqueroso. Mas admito que um Cofre de Príncipes poderia ser interessante, quando o Tommen me entedia. O meu lugar favorito no Red Keep? São tantos. O Passeio dos Traidores, onde coloco as cabeças dos meus inimigos. É uma pena que a carne apodreça tão vagarosamente, já estou a ficar sem lanças.

As masmorras também são simpáticas depois de passar os dois primeiros andares. Celas para criminosos comuns e outras privadas para nobres úteis. Um tédio, eu sei. Mas depois, chegamos às celas negras. Sem janelas, sem tochas, apenas escuridão e o que ouvirem lá com vocês. É aqui que mantemos os maiores traidores até que o rei possa lidar com eles. E com estes, gosto de levar o meu tempo.

Mas ouvi rumores de um andar ainda mais baixo, escondido, o preferido de Maegor. Quando um homem era levado para aqui, nunca mais via o sol, ouvia a voz humana nem respirava sem uma dor agonizante. Varys deve conhecer o caminho, mas aquela “rapariga crescida” finge que não. Talvez tema que eu o transforme numa vítima, talvez o faça.

Mas as câmaras de tortura são tão privadas. É melhor punir os inimigos onde todos possam ver e se lembrar, como aquele Targaryen que forçou o sobrinho a assistir enquanto deu a mãe traidora a um dragão para comer… ah, o que eu faria com um dragão! Até Aerys, tolo como era, sabia queimar os homens diante de um público para espalhar o terror por todos os seus reinos…

Claro! Agora sei qual é o meu lugar favorito: quando me sento no Trono de Ferro, no alto do Red Keep com todo Westeros sob mim, como insectos à espera do meu calcanhar…”

Senhor da Luz por Thoros de Myr

“Nasci o mais novo de oito irmãos, em Myr, do outro lado do Narrow Sea. Por isso o meu pai deu-me ao Templo Vermelho e na sua sabedoria decidiram fazer de mim padre em vez de um guerreiro ou um prostituto do templo como as outras crianças. Não é o caminho que teria escolhido. Sim, eu faço as rezas e digo os encantamentos, mas também fiz assaltos à cozinha e de longe a longe encontraram raparigas na minha cama. Raparigas tão depravadas… nunca soube como foram lá parar, mas por outro lado, eu tinha um dom para línguas. Quando olhava para as chamas conseguia ver coisas, mas mesmo assim era mais empecilho do que valor.

Quando o Alto sacerdote previu a ascensão de Robert, enviou-me para converter o Storm Lord para o lado do Senhor da Luz. Quando Robert conquistou a sua coroa, tínhamos tirado Westeros dos Sete com um único ataque. Talvez tenham pensado que Robert iria ouvir um espírito familiar ou então o celibato turvou o cérebro do Alto Sacerdote. Não sabia, nem queria saber, eu estava livre! Fiz o meu dever como achei melhor: bebida, prostituição e acenar a minha espada. Os únicos deuses que o Robert queira saber também.

Os anos passaram, Robert tornou-se rei, eu uma piada, ambos tornamo-nos gordos. Eu até ganhei alguma glória na Rebelião dos Greyjoy, primeiro pela muralha e assim… é incrível a coragem que uma bexiga cheia consegue inspirar. Mas Robert deixou de ouvir os meus sermões há muito tempo, mesmo que eu me desse ao trabalho de os dar. Então veio a morte de Robert e a guerra.

Não me refiro àqueles fedelhos a lutar pela cadeira mais pontiaguda do mundo. Poderes adormecidos há muito acordaram e estão a mover-se pela terra. Vi-os nas minhas chamas, raios, já os vi com os meus olhos. O Senhor da Luz é real, e se ele é real então tudo isto é real.

Mais uma vez o Homem encara a guerra pelo Amanhecer, que já vem sido travada desde o início dos tempos. De um lado está o Senhor da Luz, o Coração de Fogo, Deus da Chama e da Sombra. Contra ele está o Grande Outro, cujo nome não pode ser dito, o Senhor da Escuridão, a Alma do Gelo, o Deus da Noite e do Terror. De acordo com a profecia, o nosso campeão vai renascer para acordar dragões da pedra e reforjar a grande espada, Lightbringer, que derrotou a escuridão há milhares de anos. Se as velhas histórias são verdade, uma terrível arma forjada com o sangue de uma esposa amada. Uma parte de mim pensa que o homem está melhor sem ela, mas grande poder requer grande sacrifício, pelo menos nisso, o Senhor da Luz é claro.

Sôo como uma velha acabada, eu sei. Mas como o nosso antigo Mão gostava de dizer: O Inverno está a caminho. Quando os ventos frios soprarem, todos os homens, seja qual for a sua fé ou ausência dela, juntar-se-ão às minhas fogueiras na noite e eu farei as rezas e direi os encantamentos e pedirei ao Senhor da Luz que traga de volta o Amanhecer.

Mas malvado como sou, não consigo deixa de pensar o que acontecerá se, um dia, o nosso Senhor não responder. Imaginem uma noite que se prolonga para sempre, tão escura e tão cheia de terrores… Acho que preciso de outra bebida.”

Casa Frey por Catelyn Stark”

“Algumas Casas ascendem ao poder pela força, outros pela riqueza, a Casa Frey ganhou o seu título pela astúcia.

Há séculos, o fundador olhou para o mapa e percebeu como o Tridente trespassa o Neck, cortando o Norte do Sul. Percebeu que um rio de ouro correria para o homem que possuísse a ponte certa pelas águas.

Levou aos Frey três gerações para completar a visão do seu antepassado: um arco massivo de rocha cinzenta e suave, larga o suficiente para que duas carruagens atravessassem lado a lado. Quando concluída, construíram grandes paredes, fossos fundos e portões pesados para proteger as passagens e fortificações feias e formidáveis de cada lado da margem, as Gémeas. Controlando tanto a estrada como o rio com fendas de flechas, buracos assassinos e portas levadiças, as Gémeas garantem que ninguém atravesse sem implorar permissão dos Frey e pagar a portagem deles.

O plano resultou, a família tornou-se rica e poderosa, extorquindo ouro de lordes, mercadores e pobres agricultores. Ainda bem, considerando a quantidade de Freys que a ponte tem de sustentar. O lorde actual, Walder Frey, já teve mais de 90 dias do nome e gerou quase tantas crianças, dentro e fora do casamento. Algo vergonhoso para qualquer outro lorde, mas Walder Frey não tem vergonha. Algo perigoso para qualquer outro lorde, mas Walder Frey não se preocupa com os seus herdeiros nem teme a sua impaciência. Talvez Lorde Frey pense que viverá mais que todos eles. Considerando as brigas internas que ele encoraja entre eles, talvez viva mesmo.

Em todo o caso, a Casa Frey não faz nada tão bem como sobreviver. Quando os nascidos do ferro conquistaram e arrasaram as Riverlands, os Freys esconderam-se no castelo. Quando Aegon e a Casa Tully mandaram os nascidos do ferro de volta para as ilhas, os Frey esconderam-se no castelo. Quando o meu antepassado exigiu a sua lealdade como novo Lorde Soberano do Tridente de Aegon, os Frey ajoelharam-se… do seu castelo.

Talvez então, não devêssemos ficar surpreendidos quando o meu pai, Lorde Hoster Tully, chamou os seus bannermen contra o Rei Louco e Lorde Walder não respondeu. Os Baratheon, Stark, Arryn e Tully, algumas das mais antigas e grandes Casas de Westeros, lutaram e sangraram pela justiça, enquanto a Casa Frey esperou escondida no castelo. Sem dúvida que se Rhaegar tivesse conquistado o Tridente, Lorde Walder ter-lhe-ia dado passagem segura para o Norte, para destruir o resto do exército nortenho do meu marido por um preço justo. Mas Rhaegar foi derrotado e eis que o exército dos Frey apareceu para ajudar as nossas forças já vitoriosas.

Muitos brincaram que Lorde Walder estava à espera que o seu exército chegasse à idade adulta, já que muitos foram gerados por ele. O meu pai nomeou-o “O Atrasado Lorde Frey”, para entretenimento dos outros lordes, um desprezo que incomoda Lorde Walder até hoje.

De muitas formas, Lorde Walder foi sábio. Não tínhamos garantia de vitória e se tivesse lutado connosco desde o começo e perdêssemos, teria perdido a ponte que é o orgulho da sua família. “Mais orgulho que honra”, deveriam ser essas as palavras da Casa Frey.

Mesmo assim, parte de mim pensa se Lorde Walder esperou não por medo, mas por esperança de que fossemos destruídos, deixando-o para assumir o lugar da minha família como Lorde do Tridente. Para conseguir o respeito que sempre quis mas que se recusou em merecer. Não, nem mesmo o Lorde Walder poderia ser tão desleal…”

Casa Tully por Blackfish

“Outras casas escolheram dragões, monstros e leões para seus emblemas. Nós os Tully escolhemos a truta, um peixe assustador, especialmente quando salta fora de água…

Suponho que não se tenha muitas opções quando se mora nas Riverlands… Podia ter sido pior. Podíamos ter um vairão ou trigo, afinal de contas, produzimos muito disso. Apesar da terra não ficar tão fértil quanto a nossa apenas pela água, os antigos Reis do Rio, Reis da Tempestade e Reis da Rocha derramaram sangue aqui por milhares da anos, lutando como crianças por um brinquedo novo, até que os nascidos do ferro vieram e os espancaram com os seus machados.

Sob Harren, o Negro, o seu reinado foi até ao Olho de Deus, onde construíram o maior castelo que Westeros já viu. Meistres ensinam que Harren era um tolo, mal ele tinha alguma inteligência: se vai escravizar e torturar um povo inteiro é melhor ter paredes grossas para se esconder.

Mas no dia em que a última pedra foi colocada em Harrenhal, Aegon Targaryen chegou a Westeros. Assim que viu o bando de Aegon no horizonte, o meu antepassado Edmyn liderou a deserção maciça dos lordes do rio para o lado de Aegon. Duvido que Harren tenha sequer notado. O problema com grandes castelos é que cegam para o que há do lado de fora, pelo seu tamanho e pela arrogância que inspiram. Não que um nascido do ferro tenha falta disso, têm orgulho na sua ignorância de toda a etiqueta de civilização, mas um padeiro poderia ter-lhes dito que o fogo transforma paredes de pedra num forno. E assim, Harren, o Negro, felizmente fez jus ao seu nome e os lordes do rio mandaram os nascidos do ferro de volta ao mar.

Em troca pelo serviço de Edmyn, a Casa Tully tornou-se o novo Lorde Paramout do Tridente de Aegon e todos os outros lordes tiveram de jurar fidelidade a nós. Mas antigos hábitos não morrem. As Riverlands são e sempre foram o filho do meio de Westeros, preso entre discórdias dos lordes. Os meus antepassados sabiam que para os Tully sobreviverem, alianças deveriam ser feitas. A nossa truta nadou por tantos rios ao longo dos séculos e saltou em tantos pratos que é surpresa que metade dos emblemas do reino não tenham barbatanas. Portanto, toda a criança Tully aprende: “Família, obrigação, honra”. As palavras dos Tully… e a dor nos rabos dos Tully!

Quando regressei das Guerras do Nine Penny King, as pessoas chamaram-me Sir Brynden mas o meu irmão mais velho Hoster chamou-me de… “noivo”. Um óptimo casamento com uma casa muito rica, tenho a certeza, mas eu tinha voltado de lutar e matar muitos homens, não queria que me dissessem quando e com quem me casar. Rompi a relação com ele, recebendo o nome de Peixe Negro, junto com o meu emblema pessoal, uma truta negra bem mais ameaçadora. Eu era demasiado teimoso na altura para perceber que embora outras casas lutem com espadas, a Casa Tully luta com casamentos. O noivado da minha sobrinha Catelyn com Brandon Stark levou-nos a uma guerra contra o Rei Louco enquanto o noivado da outra sobrinha, Lysa, com Jon Arryn cimentou a rebelião. Se tivesse obedecido ao meu irmão antes, teríamos a maior marinha em Westeros da época e a nossa vitória teria sido rápida. Claro que nunca disse isso ao meu irmão, ele teria interpretado como um pedido de desculpas.

O meu irmão está morto agora e o meu sobrinho Edmure governa Riverrun, que Deus nos ajude. Uma truta que não sabe diferenciar a minhoca do anzol. Mas ele é um Tully, é solteiro e estamos em guerra… todos sabemos como esta história termina. Talvez ela seja linda, talvez seja rica. Desde que traga espadas e homens para a Casa Tully ela até pode-se parecer com o peixe que penduramos em Riverrun. Ele honrará o seu dever à família e engolirá. Um Peixe Negro por família passa despercebido, dois e teríamos de mudar todos aqueles estandartes bonitos.”

Casa Bolton por Roose Bolton

“Assim como os Stark, o sangue da Casa Bolton descende até ao tempo dos Primeiros Homens. Os cantores chamam a esse tempo de Idade dos Heróis, uma máscara para um mundo selvagem que criava homens selvagens. Os Lannisters enganavam os seus inimigos, os reis da Tempestade atacavam-nos e os Stark cortavam-lhe as cabeças. Com companhia assim, será que os Bolton eram mesmo indelicados?

Ao contrário de outras Casas, os meus ancestrais faziam jus ao seu lema: “As nossas lâminas são afiadas”. Passavam às gerações não uma espada valyriana, mas uma faca, afiada e fina o suficiente para caber entre a camada superior da pele e o tecido abaixo… e esfolar. Pois, como aprendemos em crianças, “um homem nu guarda poucos segredos. Um homem esfolado, nenhum”.

Nesses tempos negros, dizem que alguns dos meus antepassados mais obstinados usavam as peles dos inimigos como capas. Mas esses artefactos não existem, se é que já existiram. Certamente não estão num quarto secreto de Dreadfort como velhas esposas e tolos insistem.

Suspeito que a minha própria Casa tenha espalhado esses rumores, poucas armas são tão eficientes quanto o terror, e era tempo de guerra. Casa contra Casa, irmão contra irmão. Os Homens de Ferro estavam em ascensão e sempre por perto, devemos ter aparentado estar prontos para ser atacados. Estávamos demasiado ocupados a lutar uns contra os outros para lidar com eles.

Assim, os Stark decidiram unificar o Norte… sob seu governo. Expulsaram os piratas de White Knife, dominaram o litoral leste e casaram-se com a filha do rei do Pântano para tomar o Neck. Um Stark lutou pela Bear Island e venceu, ou é o que dizem. Histórias tolas. Sangue e aço dominaram o Norte e os Stark tinham mais de ambos. Após anos de guerra, os meus ancestrais abandonaram as práticas bárbaras e curvaram-se diante dos novos reis. Assim, a Casa Bolton tornou-se no que somos hoje, bannermen leais e aliados incondicionais dos Stark, e a segunda maior Casa do Norte…”

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