Quando o menos é mais…

[CONTÉM ALGUNS SPOILERS DE “COUNTERPART”] Todos conhecemos esta frase, mas poucos são aqueles que a põem em prática. Nos dias de hoje “mais” é sempre sinónimo de melhor, mas se podem tirar alguma lição da televisão para a vossa vida, que seja esta.

Menos episódios, menos temporadas, menos “fogo-de-artifício”. Digam-me, qual foi a última série de grande qualidade que viram e teve mais do que 13 episódios por temporada? Se excluir algumas comédias das generalistas talvez tenha de ir às Grandes Pirâmides para encontrar tal rel]iquia. As grandes cadeias americanas continuam agarradas ao molde possível mas há muito que o público que exige mais as deixou para trás. No cabo (e no streaming) é onde podemos encontrar talento e originalidade, mas acima de tudo alguma “coragem”.

Referi na análise ao piloto que esta é uma série para gente paciente, que sabe esperar pela recompensa. O resto da temporada é a sobremesa para quem soube fazê-lo. Os dez episódios permitem uma condensação dos acontecimentos para que o ritmo mais pausado não se torne enfadonho. O “show don´t tell” induz uma noção de inteligência, de quem sabe a história que pretende contar. O elenco não é grande e permite explorar as relações mais profundamente. Tudo o que nos é mostrado é minimalista, das cores aos detalhes. A própria fronteira entre mundos poderia ser um festival de luz e CGI, mas é apenas um corredor… um corredor que levanta tantas perguntas!

Explicar a premissa da história poderá afastar quem gosta de séries reais, por isso não o façam. Não é só sobre multi-dimensões ou espionagem, é a história de um homem e a descoberta dos seus limites. O verdadeiro Howard é o assassino ou o burocrático? Será um ponto no meio do espectro? O que é certo e sabido é que J.K. Simmons é uma delícia de actor. Não só dá vida a duas versões distintas do mesmo homem, como é possível ver o desconforto de Howard A a fazer de Howard B. Uma matrioska só ao alcance de actores do seu nível. Olivia Williams, Nazanin Boniadi (Homeland) e a “estreante” Sara Serraiocco fazem um trio feminino que não descansa á sombra de Simmons. Harry Lloyd, esse, continua a fazer papéis de homens invertebrados.

“Counterpart” apresenta-nos uma temporada de estreia fortíssima e com a segunda já garantida para o ano. Obrigatória para todos aqueles que exigem mais das suas séries e procuram o que de melhor podemos ver em representação, escrita e planeamento. A “Starz” acrescenta mais uma de qualidade ao seu reportório, espero que lhe dê espaço para atingir todo o seu potencial.

Partilha o post do menino no...