Rome, Tudors e Californication…

(escrito a 21 de Dezembro de 2007)

…Tenho vindo a constatar que no habitual periodo de paragem (normal) de filmagens, na altura de Verão, algumas séries passam na televisão, e incrivelmente passam também despercebidas…
Estas mini-séries não são exportadas tanto como as restantes, a maior parte das pessoas nem ouve falar nelas sequer. Mas como já ficou mais que provado, e já vos mostrei aqui, muitas vezes o melhor passa (infelizmente) despercebido…

Vou então falar-vos de 3 séries que estão, sem discussão, no meu top ten das favoritas e que mereciam muito mais do que uma peçazinha num blog que ninguém lê. Produções que se passam em alturas historicas diferentes, com orçamentos diferentes e com um número de actores diferentes…mas têm todas algo em comum, são cruas! A primeira de que vos falo passa-se num dos grandes momentos da Historia mundial. Quando Roma deixou de ser uma republica e transformou-se no Imperio que todos conhecemos. Altura de Julio César e Cleopatra…a série tinha muito por onde pegar para retratar estes grandes simbolos, mas em vez disso centra o seu enredo em dois soldados romanos, e só aí está metade do mérito. Todos conhecemos como viveram reis e rainhas, imperadores e imperatrizes…mas como vivia o povo? Como era a vida de um comum soldado ou comerciante nas ruas de Roma? Lucius Vorenus (Kevin McKidd, com pequenas participações em filmes como Reino dos Céus e actualmente a rodar a série “Journeyman”) e Titus Pullo (Ray Stevenson, Rei Artur), são dois soldados do grande exército romano. Pessoas normais que vão subindo na hierarquia militar por talento próprio e que de uma maneira ou outra presenciam grande momentos historicos. Todo o enredo gira à volta de ambos, da relação entre eles e os seus afazeres militares e familiares, relegando para segundo plano os grandes nomes. Foge assim ao cliché de fazer mais uma série de época e contar aquilo que toda a gente sabe, e mostra-nos quanto ganhava um soldado raso, como suportava a família, como eram as ruas e os costumes…

Com um orçamento milionário (um dos maiores da história da televisão), muito dele gasto na construção de uma “mini” cidade romana. Todas as casas e ruas que vemos foram mesmo construídas, e de propósito para a série. Não vos consigo dizer se o melhor da série são os cenários, se as representações dos dois papeis principais ou dos “secundarios” (sobressai, na minha opinião, James Purofoy no papel de Marco António e a minha favorita, Polly Walker no papel de Atia, mas chega a ser injusto não mencionar todos os actores que participam…), se os dialogos. Mas devem estar a pensar o que quis dizer com “crua” quando caracterizei esta série…passo a explicar…
Nada é censurado, há palavrões, há sexo, há sangue. Se um general passear por territorio romano e quiser ter relações sexuais com uma mera rapariga que por acaso passava ali a pastar as suas cabras, ele fa-lo! Num dos episódios, Atia manda o seu filho comer penis de touro porque acha que ele anda pouco…”rigido” e paga para o levarem às “meninas” de modo a ele perder a virgindade! Ou seja, não nos tratam como idiotas. Nas outras séries chegamos a pensar que as personagens não comem, não dormem nem vão à casa de banho…aqui mostram-nos o dia-a-dia daquele mundo, de uma maneira crua! Não sei como recomendar mais esta série. Só lamento as suas duas pequenas temporadas de 12 e 10 episódios respectivamente, mas talvez seja por isso que também é tão boa. Devido aos seus altos custos, e claro, à estupidez americana que em vez de verem a série, dedicam-se aos reality shows…a série não voltou para uma terceira temporada, e terminou mesmo um pouco à “pressa” (tou para aqui a falar, mas cá só passou, muito discretamente, na RTP2). Mas pelo menos aqueles enormes primeiros 12 episódios já ninguém nos tira.
Série muito nomeada e galardoada a não perder!! Por favor, não vejam lixo, percam o vosso tempo com algo genial!!

O segundo pedacinho do céu de que vos vou falar também é de época e conta também com grandes interpretações.
The Tudors passa-se à volta do ano 1500, e relata-nos o reinado de Henrique VIII, segundo rei da casa dos Tudors. Jonathan Rhys Meyers (Titus, Alexandre, O Grande, Match Point, Missão Impossivel 3 e imagem dos perfumes da Hugo Boss) dá vida ao carismatico rei e é, sem duvida, o “senhor” desta série. Ao contrário de Rome, não nos retrata as classes inferiores, focando-se assim nos jogos politicos, amorosos e sociais dentro da corte real. Jonathan Rhys Meyers está muito bem acompanhado por grandes actores, alguns deles muito conhecidos, chega a ser impresionante visto que não há um mau actor (destaco a belissima Natalie Dormer (a venenosa Anne Boleyn) e principalmente Maria Doyle Kennedy (Katherine), que faz um grande papel (não é sisma minha em colocar mulheres no topo da preferência, mas a verdade é que elas se esmeram e são realmente impressionantes). Mas é no rei que a série se baseia, e é uma interpretação intensa por parte do jovem actor (jovem actor…tou mesmo a ficar velho!). Tal como disse, todos os outros são muito bons, mas sem ele a série não seria a mesma, e por isso tem grande merito.
Os Portugueses também são retratados, em grande claro, com um rei velho e raquetico…mas ao menos somos mencionados…va la!
Por incrivel que pareça, teve grande sucesso nos States (não ha quem os perceba…) e já está a ser produzida uma segunda temporada. Para já temos 10 episódios muito bons. É como os chocolates, há aqueles que se compram aos sacos, mas os verdadeiramente bons, são vendidos em poucas quantidades…

Para ultimo deixei a ultima que vi. 12 episódios de pouco menos de 30 minutos cada, vistos em menos de 24 horas…Explicita bem o quanto gostei da série. Californication é a história de um escritor de sucesso (David Duchovny, que dispensa apresentações) que após ter editado um best-seller, com direito a filme e tudo, vê a sua vida amorosa desabar, levando a sua escrita por arrasto. Quando a série começa caímos um pouco de para-quedas, e vemos um mulherengo virado para a bebida, mas ao longo dos episódios é nos revelado o seu passado. Este resumo pode levar-vos a pensar que a personagem é um gajo todo bebado com uma agulha no braço que anda toda a hora ressacado, mas é mais do que isso…Um enredo muito bem escrito, com momentos de comédia e de sexo (daí o nome da série. Não se chama assim só porque a historia se passa na California…) muito estranhos, mas reais. Com um elenco pequeno, destaca-se claramente David no principal papel, com um humor muito sarcastico, mas também com momentos dramaticos. Natascha McElhone no papel de ex-mulher de David também esta muito bem. Não tem grandes cenários, não é uma super produção, nem tenta ser, vale sim pelo seu retrato real de vidas reais, e descreve as coisas como elas muitas vezes são. Para já só existem esses 12 episódios que encerram a primeira temporada, vamos torcer para que não seja o seu fim definitivo… Ficam aqui com três Ferrero Rocher para verem durante esta pequena paragem das “super-potências” que acompanhamos durante o resto do ano. Prometo-vos que qualquer uma delas não é uma perda de tempo, muito pelo contrario.

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