Se nunca foste violado, estiveste mesmo em Outlander?

[CONTÉM SPOILERS DO FINALE DA 5ª TEMPORADA DE OUTLANDER] Finalizada a quinta temporada de Outlander, surge-me um pensamento que não deveria ocorrer a ninguém em situações normais: será que para se ser alguém nesta série é preciso ser violado?

Outlander surgiu com uma história original dentro da temática das viagem no tempo. Tornou-se única por conseguir explorar as dificuldades de adaptação de uma mente moderna em tempos passados. A cinematografia com vista escocesa intercalava com uma química excelente entre Caitriona e Sam (Claire e Jamie). A nudez e as cenas de sexo eram o tempero em cima de uma trama que conseguia cativar e interessar. Ao quinto capítulo, a série vê-se obrigada a escalar para eventos mais grandiosos, palcos maiores.

A minha critica não é essa “necessidade”, afinal de contas, é preciso dar algo de novo ao espectador. Até os fãs dos livros já contam com uma verdadeira epopeia para ler (vejam o tamanho de cada volume nas lojas!). O problema é que a série sofre de um problema grave no que toca à exploração do sofrimento. Um efeito “Anatomia de Grey” se preferirem, em que tudo que é possível acontecer de mau, acontece, a toda a hora, seja em que parte do mundo for. Há coincidências e depois há Outlander.

Não é fácil Claire ser roubada por um pirata, a filha Brianna ser violada por um pirata e o genro ser tripulante/escravo de um pirata e todos estes piratas serem a mesma pessoa! Este é apenas um exemplo de uma doença que já se vem a alastrar há algumas temporadas e que começou com o simples facto do vilão da primeira temporada ser um antepassado/clone do primeiro marido…

Auto-consciente ou não da incapacidade em dar aos fãs sumo fresco, e considerando que para alguns, eu incluído, a adição de Brianna e Roger como segundo par protagonista nunca entusiasmou, a série tem feito all in neste investimento do factor choque. Porque, ao final do dia, ninguém quer ver uma hora de gente feliz, certo? Mas e quando a violência não cativa, ao invés, afasta?

Claire chega a enumerar todos os seus traumas passados (foi médica durante uma Guerra Mundial, perdeu uma criança, perdeu dois maridos, passou fome, foi espancada umas vezes, foi traída, foi presa…) e neste final vemos a mente da personagem a alternar entre o seu safe place e ser amarrada, espancada, cortada, amordaçada e por fim violada… Jaime foi violado na primeira temporada, Brianna foi violada esta temporada, outras personagens foram passando pelo mesmo trauma ao longo da história… A série parece incapaz de introduzir outros factores de trauma que não a violência sexual, do mesmo modo que parece não saber de que maneira nos acordar de um episódio mais secante a não ser com uma cena de sexo tórrido entre Jaime e Claire. Isto é preocupante.

Já ocorreu um número de vezes suficientes para já não ser apenas um retrato de uma pessoa que ultrapassa o choque. Até porque, lá está, a historia já mostrou isso pelo menos outras duas vezes. Pai, mãe e filha tiveram que passar pelo mesmo, caso a “coisa” nos tivesse passado ao lado! Neste finale a protagonista é violada e o que me ocorre é: para quê?! O que acrescentou à personagem? O que acrescentou à história? Nada… Claire não sacrifica os seus votos como médica nem por vingança (já sabíamos antes), Claire é uma mulher forte capaz de superar adversidades (já sabíamos), Jaime percebe o que ela passou e agora a filha também mas a relação de Claire com estas duas pessoas não precisava de ser mais aprofundada…

Para além do sentimento sádico do recurso a esta artimanha recorrentemente, há o facto da série ser um símbolo do poder feminino. O poder feminino também vem de outros desafios para além deste! Não sou conhecedor da obra, mas pelo que parece a autora também gosta de recorrer à violação com frequência… mas se a série não segue a história à risca, porquê copiar este lado péssimo? Não há desculpa. Uma série que já foi inteligente e já perdeu o seu tempo a criar personagens e histórias com profundidade deveria saber melhor cavar novos buracos e sair deles. Chama-se a isso boa escrita.

Este não é o primeiro texto, nem deverá ser o último, que demonstra preocupação em Outlander usar a violência sexual como motor narrativo. Mas no que a mim diz respeito, é aqui que salto da carroça…

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