Serial deu shit…

O que acontece quando o storytelling, os cliffhangers e o mistério não têm imagem?

“Serial” estreou em 2014 e basicamente despertou o mundo para o fenómeno dos podcasts. A “malta jovem” redescobriu a arte perdida de se ficar colado a uma voz radiofónica e às maravilhas que consegue fazer com a sua simplicidade. Aqui não há cinematografia, apenas a imaginação como ferramenta para resolver um caso policial. Sayed é um jovem encarcerado por homicidio, um crime que diz não ter cometido, e durante 10 episódios Sarah Koenig leva-nos numa viagem em que oscilamos entre o “ele claramente é inocente!” e o “porque faria isso se não fosse culpado?!”. Uma montanha-russa tão bem exposta que só peca por não nos oferecer o desenlace que desejamos. Não é spoiler dizer que o caso, ainda nos dias de hoje, não está resolvido.

Da mesma equipa de “Serial”, chega o mais recente hit, “S-Town”. Logo à partida perde por não ter a voz de Koenig, que aprendi a amar, embora Brian Reed faça um bom trabalho. Os primeiros dois episódios são enganadores ao oferecer um falso mistério. “Shit Town” é a história de vida de um homem perturbado numa área rural dos EUA e se se assumisse desde logo assim teria ganho mais pontos e talvez fosse mais cativante. Infelizmente não oferece também ela uma resolução no fim e podemos argumentar que não é o propósito, que a intenção é explorar uma cultura e um problema. Talvez seja, talvez não devesse ser. Já a segunda temporada de “Serial” tinha descido uns pontos ao apresentar um caso bem menos interessante, quase enfadonho, e há aqui uma necessidade em explorar um modelo que resultou no passado. Mas o fascínio foi pela novidade e pela história. Agora que a oferta de bons programas é tanta, não basta ter fama para se destacar.

Estaria a cometer uma grande lacuna se não referisse o pior dos podcasts, os anúncios. Todo o episódio que se preze tem um no início/meio/fim e quem os introduz conta que ninguém se dê ao trabalho de os passar à frente. Ou seja, é uma incrível maneira de chegar aos ouvidos de muita gente. Se por um lado são imperceptiveis em certos casos, por outro conseguem desligar-nos completamente do ambiente. Agora já me habituei, mas é de facto um ponto negativo, considerando que hoje em dia é possível escapar a eles em quase todos os meios. Como criador sei que anúncios são essenciais, como consumidor…

O fenómeno da voz foi crescendo, com Alexa a ser o nome mais chamado pelas casas desse mundo fora. Muitos afirmam que o vídeo é o presente e o áudio o futuro, mantenho a minha resistência ainda nesse prognóstico. A verdade é que muitos  abandonaram a música no caminho para o trabalho para abraçar o seu podcast favorito, no meu caso substituíram completamente o Spotify. O podcast é a maravilha do “bom e barato”: é mais barato e fácil de produzir e se os telemóveis permitiram que todos sejamos cineastas, um microfone (seja no telemóvel ou no portátil) cria um potencial número de locutores. Uma breve viajem pelo catálogo de podcasts permite perceber que há de tudo e mais alguma coisa, dos grandes estúdios ao mais amador, da ciência à história, da hora e meia aos 10 minutos de duração. Como todo o entretenimento só tenho pena de não poder desfrutar de toda a variedade oferecida. Há muito bom conteúdo, para todos os gostos, e é uma excelente maneira de fazer render os tempos mais mortos do vosso dia. Transformem qualquer momento numa hora erudita e lembrem-se: “ouvir os episódios a 1.3x de velocidade é uma opção! Ainda rende mais! Aqui ficam algumas sugestões:

Cinema e televisão:
Sincast – Da mesma equipa que faz os vídeos de youtube do canal “Cinema Sins”. Filmes actuais e antigos.
TV Talk Machine – Com o crítico Tim Goodman sobre a actualidade na televisão (americana principalmente).
The Weekly Planet- Sobre televisão, cinema, comic books e outros elementos da cultura pop. A “energia” do dueto pode não ser do agrado de todos.

Notícias (mais orientadas para realidade americana):
The Daily – podcast diário do New York Times que aborda um tema central da actualidade.
The Rachel Maddow Show – a versão áudio do programa diário da jornalista da MSNBC. Temas da política mas muito focado na interferência dos russos nas eleições americanas.
Today Explained – Da rede “Vox”, explora todos os dias um tema actual, com mais investigação que reportagem. PS- Espreitem o “Explained” na Netflix também.
Pod Save America – Um painel de ex-colaboradores da administração de Obama comentam a actualidade política americana. O “descasque” em Trump é agressivo.

Economia:
Planet Money e The Indicator – Para quem quer compreender melhor termos como “Tarifas” e “Trade War”.

História:
Stuff you should know – O ritmo é bastante lento, demasiado lento por vezes, mas abordam temas interessantes e respondem a questões pertinentes.
History Class – com o selo BBC…
Great Leap Years – Narrado pelo incrível Stephen Fry, faz o paralelismo entre acontecimentos passados e a realidade actual.
When greeks flew kites – Muito semelhante ao anterior, mas sem Fry…

Ciência:
Star talk – Para quem adora tudo o que envolve Neil DeGrasse Tyson.

Personalidades:
Oprah Masterclass – Entrevista a grandes personalidades como Justin Timberlake, Jay-Z… ainda é algo recente para ter uma opinião bem formada.
Couples Therapy – Para quem é fã de Casey Neistat no youtube, este é o podcast em que fala com a mulher sobre problemas conjugais.

Humor:
Everything is Alive – A premissa é genial: dar vida a objectos inanimados. Primeiro episódio é uma lata de coca-cola não bebida…
Por fim, não esquecer que episódios de “O Homem que Mordeu o Cão”, “Cada um Sabe de Si”, “Mixórdia de Temáticas”, “Mata-Bicho” e “Governo Sombra”.

Partilha o post do menino no...