Séries como saúde mental…

Não vos vou dizer que um episódio por dia faz bem e mantém o doutor longe, mas quero evidenciar o quanto uma série pode ajudar a quem se debate com a depressão e/ou ansiedade.

A minha década dos vinte não foi sexo, drogas e rock and roll. Foi mais televisão, monitor e tablet. Dificuldade em processar a minha realidade levou a que enfiasse o nariz nos filmes e posteriormente nas séries. A mente é um bicho complexo mas também fácil de enganar, e um episódio de Stargate SG-1 ou House faz milagres para calar as dúvidas mais existenciais. Do mesmo modo, aprende-se muito observando personagens / situações / acontecimentos / problemas. Obviamente é uma realidade manipulada, com relações moldadas e sentimentos dissimulados, mas até aí o cérebro consegue ser enganado. Acreditem os mais cépticos que ver uma temporada seguida de Friends ou Scrubs pode dar aquele “calor”, como uma tarde com amigos de carne e osso.

Uma outro exemplo está duplamente associado a Inglaterra, onde vivi três anos e partilhei casa. Após abandonar a familiaridade do lar de uma amiga próxima, mudei-me para casa de duas inglesas. Com o tempo percebi que essas parceiras de tecto tinham tudo menos o meu bem estar em mente e o regresso forçado a Portugal era uma realidade, tal era a dificuldade em arranjar um novo alojamento aceitável. Nesses meses, Downton Abbey foi um abrigo. Ainda hoje, quando ouço o genérico, mexe comigo. Há uma associação a um período menos feliz, mas também um “warm feeling” de consolo. O momento alto do dia era a chegada a casa de um emprego que não gostava, em que fechava a porta a pessoas com quem não me dava e acompanhava a vida de estranhos numa Inglaterra do século passado. Como se recompensa um “amigo” que esteve presente numa fase menos feliz da nossa vida, todos os dias, capaz de nos fazer esquecer?!

Não quero mostrar que a televisão serve só para enclausurar ou escapar à realidade. De mãos dadas com o tempo excessivo agarrado ao ecrã veio também a conexão ao mundo. Muitas vezes, quase exclusivamente, a minha vida social limitou-se à interacção nas redes sociais com outros “viciados”. Gente que, mais ou menos do que eu, partilhava o “vício”. Fiz varias amizades que resistem ao tempo e à distância, o que sem a internet não seria possível. Não é também minha intenção dizer que a televisão é uma terapia recomendável, mas é facilmente descartada como algo bom. À semelhança dos filmes e videojogos, quando é praticada para lá do “senso comum”, é tida como prejudicial. Se disser que devoro um livro diariamente ninguém levanta a sobrancelha e até elogiam a minha cultura, sem ser necessário verificar que a tenho. O mesmo não se pode dizer se anunciar que vi uma temporada enquanto o diabo esfrega um olho.  É nesta altura que relembro que até a água em demasia provoca a morte e cada macaco no seu galho…

A saúde mental é um tema tão falado actualmente que me permite tirar duas conclusões: 1- é uma verdadeira pandemia como o mundo ainda não tinha sofrido (ou pelo menos assumido) e 2- cada paciente requer um tratamento quase personalizado. No final do dia, usem o necessário para vos ajudar. Se a televisão/cinema/música for o vosso refúgio, tentem praticar com moderação, tentem que seja bóia e ponte para o mundo e não parede ou âncora. Usem a televisão, um actividade que pode ser tão solitária, para ver o mundo, comunicar com ele e encontrar os vossos semelhantes. Não são de uma espécie inferior por terem a ansiedade e depressão como amigo intimo. Do mesmo modo que algumas pessoas já nascem ricas, há pessoas que nunca terão de lutar para não se sentirem miseráveis com a vida. Da mesma maneira que certas pessoas têm como adquirido a água que sai da torneira, também não entendem como se pode ser “naturalmente” descontente desde o momento que abrimos os olhos. Não há nada de produtivo em se compararem com o semelhante porque, por todos os motivos e mais alguns, somos todos diferentes e gostamos de séries diferentes. Mesmo dentro do “eu”, há fases distintas em que gostamos de umas séries em novos que não as suportamos em “velhos”. Séries que gostamos de ver no Inverno e não no Verão. Se o mundo da televisão pode ser tão vasto e variado como os nossos gostos, também a vossa maneira de gerir o mundo pode ser tão única como o ADN.

A vida, e a idade, também me ensinou a escolher as batalhas e a dar-lhes a devida importância. Para quê entrar em guerras de Twitter, a tentar diminuir a série que é tão importante para outra pessoa e claramente inferior à vossa (a não ser que a deles seja uma da CW, nesse caso, não precisam de gente dessa laia na vossa vida!). Tenho feito um esforço real para nas minhas análises no blog usar menos o “esta série é má” e mais “se gostam deste tipo de coisa, esta série é para vocês”. Da mesma maneira que a minha depressão e ansiedade não é melhor ou pior que a do próximo, o significado que determinada série tem para mim não é mais ou menos importante para outra pessoa. Seja ela usada como escape ou pura e simplesmente como entretenimento.

Por fim, lembrem-se: por cada série cancelada, há sempre duas a estrear. Por cada estação que seja rainha da televisão nos anos 2000, há uma companhia de aluguer de dvd´s prestes a destroná-la. Por cada casa onde se sentem mal, há uma mãe solteira com dois filhos que vos aluga um quarto espectacular onde irão passar dois anos em paz. Por cada vez que sentirem ter demasiado “no vosso prato”, a vida pode ter planeado o lançamento de mais meia dúzia de serviços de streaming, com ainda mais séries do que vocês terão oportunidade de ver. Não matutem demasiado nas razões de um cancelamento ou renovação, deixem fluir, porque nem tudo é perceptível a olho nu. Não percam tempo com hashtags para salvar uma série, usem esse tempo para ver um piloto. Por vezes as coisas simplesmente acontecem e nós só podemos controlar a maneira como reagimos a elas. Se as batalhas interiores de um serial killer de algum modo vos ajuda a aceitar a vossa própria identidade, se a força de um adolescente na televisão vos impulsiona a assumir a homossexualidade na meia idade, se o ambiente de guerra retratado vos dá perspectiva sobre as injustiças menores da vossa vida e se a perda de um cão fictício ajuda a aceitar a morte de um familiar próprio… porque não mergulhar nesse mundo?!

Já dizia aquele senhor, “façam favor de ser felizes”, seja com duas séries ou cinquenta.

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