Sofia Santos – The Wire, a paixão de uma vida!

Para inaugurar a rúbrica “Série de uma Vida”, o blog recebe no sofá Sofia Santos, defensora dos direitos do café matinal, activista contra as segunda-feiras e ditadora do blog “Girl on Film“. Neste espaço os convidados têm as rédeas para falar da série que maior impacto lhes criou. Sofia escolheu “The Wire” e lembrou-me do pecado que é eu ainda não a ter visto…

2002, a televisão* não tinha a variedade de séries que (felizmente) temos hoje. Não abundavam páginas de torrents fresquinhos e prontos a consumir. As redes sociais estavam longe do seu boom e o streaming ainda estava no patamar da ficção científica.

24, Six Feet Under, The Office e Alias fizeram a sua aparição no ano de 2001. No ano que se seguiu, estrearam Without a Trace, CSI Miami, The Shield e The Wire. Olhando para este panorama, é fácil perceber porque é que The Wire sobressai. Obviamente que a qualidade de 24 e (sobretudo) de Six Feet Under não podem nem devem ser questionáveis.

Mais tarde, Breaking Bad foi um ótimo estudo de personagem – a história de um homem que fez de tudo para sobreviver e para garantir o futuro da sua família. Mad Men foi talvez uma das séries mais bem escritas de sempre. Lost teve a tarefa de ser a primeira série a ter fãs histéricos e distraídos entre teorias e historietas e Game of Thrones é a saga mais épica de sempre da televisão. The Sopranos definiu e elevou o patamar do “drama criminal” mas no entanto é The Wire que permanece no número um do top das “séries da minha vida”.

Criada pelo escritor e repórter policial David Simon e transmitida via HBO entre 2 de junho de 2002 e 9 de março de 2008 e teve um total de sessenta episódios. Nunca teve audiências de massa nem venceu os mais importantes prémios televisivos… Felizmente! É graças a este misticismo que a torna, para os amantes e críticos de televisão, uma das melhores séries de sempre.

Outro aspeto que a torna única é o facto do elenco ser constituído por atores pouco conhecidos e um número imenso de amadores. Não há uma personagem central e nenhum actor participou em todos os episódios. O elenco foi constituído maioritariamente por pretos, um elemento raro (até então) para a televisão norte-americana.

A série HBO foi e é um documento sobre a desigualdade urbana. Importante para mostrar as raízes das condições sociais nos centros urbanos dos Estados Unidos. Representou e deu a conhecer a cidade de Baltimore ao longo de cinco temporadas. Mostrou pessoas comuns que tentam dar sentido às suas vidas comuns, revelou um mau sistema escolar, o consumo e o mercado das drogas, o mau e corrupto sistema prisional, etc. As personagens são complexas e desafiam as prerrogativas morais simplistas.

A última temporada de The Wire foi transmitida antes do colapso de Wall Street em 2008. A série mostra (ou recorda) ao espectador que os residentes destes bairros enfrentaram profundas desvantagens, sentidas antes da crise mas ainda mais prejudicada por este colapso. Por décadas, os bairros pobres urbanos e negros foram devastados pelo encerramento de fábricas, incapacitando o emprego, diminuindo o número de alunos e negligenciando o governo. Antes da recessão começar em 2007, apenas 59% dos homens pretos com mais de 20 anos estavam empregados, em comparação com 74% dos homens brancos em todo o país, de acordo com dados do “Bureau of Labor Statistics”.

The Wire mostrou as consequências destas estatísticas. Exibiu como estas perspetivas limitadas de emprego estável levou a que muitas das personagens entrassem no comércio ilegal de drogas. A gerir gangs estão verdadeiros executivos, homens de negócios, como Avon Barksdale (Wood Harris) e Stringer Bell (Idris Elba).

Um dos temas mais importantes é o facto de mostrar, sem receio, que várias instituições trabalham juntas para limitar as oportunidades dos pobres urbanos. Na primeira temporada a série concentra-se na guerra contra as drogas, que é convincentemente retratada como uma empreitada mal concebida, cujo resultado foi a prisão em massa de infratores menores e não-violentos.

As restantes temporadas abordam o desaparecimento de empregos e a desvalorização do trabalho, o mundo frequentemente obscuro da política, o fraco sistema de educação pública e a negligência dos media – todas estas instituições e forças sociais exacerbam a desigualdade social. A série aborda uma outra questão que frequentemente é debatida por sociólogos mas raramente abordada de forma justa: a representação dos pobres de raça preta. Muitos sustentam que The Wire reforça os estereótipos dos pobres urbanos como dependentes de bem-estar, preguiçosos, criminosos e imorais – perceções que muitas vezes influenciam as decisões sobre quem é considerado digno de assistência estatal. Mas, não é verdade, a série enfraquece de forma assertiva estes estereótipos. Através da abordagem escrupulosa a gangues, policias, políticos, sindicatos, escolas públicas e meios de comunicação social, os telespectadores constatam que as decisões e o comportamento de um indivíduo são muitas vezes moldados e limitados por forças que fogem ao seu controlo.

The Wire é ficção. Isso é um facto, mas obriga-nos, como nunca havia sido feito (até então) em televisão, a confrontar realidades sociais com mais eficácia e a termos um olhar mais crítico sobre a realidade e a ficção. Tal como na vida real, os problemas permanecem sem solução e o ciclo repete-se à medida que as desvantagens se tornam mais profundas.

O desafio que o Vítor me fez implicava escolher uma série que fosse importante para mim. Ora, para qualquer fã de televisão e pessoa que consome compulsivamente várias séries, este desafio é quase utópico mas não impossível. Acima mencionei as causas óbvias sobre a genialidade da série HBO. As palavras que estão nos parágrafos anteriores podiam fazer parte de qualquer enciclopédia ou site da especialidade. Mas porque é que elegi The Wire “a paixão de uma vida”?

O drama criminal foi e é superior a muitos outros projetos que foram e que continuam a ser feitos pelos estúdios e canais de televisão. É perfeito em termos de autenticidade, profundidade e de desenvolvimento de carateres mas também porque não depende de finais de temporada cliffhanger nem de cenas irreais para promover a história. A inteligência dos fãs e dos espectadores nunca foi subestimada.

A minha série de eleição não tem truques nem parafernálias de argumento. Muitos podem apontar-lhe o pecado da lentidão mas é ai que está o encanto e a prova de resistência e veneração do telespectador. Assistir a interrogatórios demorados ou à instalação pormenorizada de escutas não é uma visão muito apelativa para aqueles que têm menos paciência mas é um deleite para quem se apaixonou pela série logo nos segundos iniciais.

David Simon não criou um projeto que depende de efeitos especiais, nudez ou surrealismo para manter os seguidores interessados. É tendo como cenário uma das cidades americanas mais antigas e problemáticas, e colocando neste cenários personagens diversas e intensas, que foi ganha a admiração e a veneração de tantos espectadores.

O apego a personagens é, a meu ver, a característica mais marcante de The Wire. Todos temos um personagem favorito e todos concordamos que esta série nos deu algumas das personagens mais inesquecíveis de sempre: o Det. James ‘Jimmy’ McNulty (Dominic West) implacável mas imperfeito, o polido e inteligente homem de negócios Stringer Bell (Idris Elba), o destemido Omar Little (Michael Kenneth Williams) e o sobrevivente Reginald ‘Bubbles’ Cousins (Andre Royo), entre tantos outros. Aqui os maus nem sempre são maus e os bons também são capazes de ser maus.

Por tudo isto, este projeto HBO não é uma simples série, é um testemunho. No momento em que, por mera curiosidade, comprei a primeira temporada da série, a minha vida mudou. Nunca mais voltei a ver uma série ou um filme da mesma maneira. Nunca mais voltei a encarar o sistema político, policial e social dos EUA da mesma forma e nunca mais esqueci algumas das personagens mais marcantes da televisão.

* quando a autora menciona televisão, refere-se às series de televisão que são transmitidas nos EUA.

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