The Borgias: 2×01 – The Borgia Bull

[SPOILERS] Anda um pobre devoto à espera, quase um ano, pelo retorno da família mafiosa original e “Deus” impede-me de ver o episódio quando ele chega. Se fosse homem de ler sinais divinos, ficaria preocupado com esta “mensagem”.

Os aficionados por “The Borgias” podem formar uma pequena congregação, mas a verdade é que somos devotos e estamos aqui até ao fim dos dias. Aproveitando a temática, e considerando que estou a “orar” algo para quem cumpre a penitência de ler os meus textos, posso considerar isto o meu pequeno confessionário. Então, perante vós me confesso: tive de rever a primeira temporada e ler as análises para que tudo estivesse fresco e a minha interpretação dos 10 episódios que se avizinham não fosse afectada pela memória de peixe que tenho. Mas passemos ao suminho do episódio, que é isso que interessa.

A primeira temporada serviu para fazer uma introdução ao mundo e ás pessoas. Ficamos a perceber quem manda em quem, quem é forte, quem se tornará forte com o tempo e quem nunca o será. Amizades foram construídas e inimigos foram cultivados. Algumas alianças foram feitas, outras só prometidas, porque nada que rodeia os Borgias se mantém imutável durante muito tempo, a não ser a união familiar. Então, que melhor maneira para iniciar esta segunda etapa? Com uma pequena introdução? Um leve “re-ambientar” ao ambiente de intriga? Nada disso, começamos logo com uma tentativa de assassinato porque “The Borgias” não é para meninos!

O Cardeal Della Rovere (Colm Feore), fugido e relegado a um simples padre, começa a pagar por crimes passados. Cesare Borgia até pode atrasar a vingança, mas ela vem. Enquanto abençoa o “amigo” com água benta, aproveita para fazer um ponto da situação no estado actual das coisas: Deus está no céu, o Papa é Papa e o Rei Francês tanto queria Nápoles que teve mais dela do que desejava. Continua a intrigar-me esta tentativa de Cesare (François Arnaud) em querer recrutar o mais fincado inimigo da família para o seu lado. Não poderá ser simplesmente uma questão de “manter os amigos perto e os inimigos mais ainda”, algo mais se passa ali (senão, porque tentaria mata-lo entre recrutamentos?). Micheletto (Sean Harris) esse continua igual a si próprio. Bem, igual não porque deixou crescer o cabelo e a barba (que raio de decisão esta de fazer crescer o pelo a todas as personagens!), mas continua com o mesmo nível de ética e tolerância para o fracasso, baixa.

Juan: “Do I detect anger in those blows, Brother?”
Cesare: “No anger. No envy either. I have been long steeled in all the cardinal virtues. And I know the one sin my father would never forgive is fratricide.”
Juan: “A big word, brother…”

“Patrão fora, festa na loja”. É verdade que Giulia Farnese (Lotte Verbeek) não é patroa do Papa, mas isso não quer dizer que o Papa não tenha medo da sua amante. Referi algumas vezes durante a primeira temporada que Rodrigo não era a personagem que esperava dele. Embora sempre com um plano escondido, calculista e dono de uma mente estratega e politicamente apurada, não foi aquele “Padrinho” da máfia que eu esperava. Os primeiros instantes da sua aparição revelam um homem descansado, a gozar os prazeres do seu estatuto e completamente babado com o neto (filho de uma Lucrécia (Holliday Grainger) cada vez mais próxima do irmão Cesare, muito próxima…). Outro pormenor ao qual fiz algumas referências foi o comic relief que cada episódio tinha. É óbvio que nunca é algo de rir com os dentes todos, mas coloca-nos sempre com um sorrisinho na cara e este também teve os seus (O Papa, chefe da fé católica e o mais poderoso “Rei” do velho continente, a caminho do seu “trono” para ter uma reunião com o embaixador de um reino invasor, enquanto canta e embala o seu neto. Impagável!)

A cena ganha um novo significado quando vemos o patriarca, reunido com os dois filhos, na escuridão e com total submissão. A diferença de ambiente e atitude é quase “bipolar” e com certeza não foi mostrada assim por acaso. Aqui sim, vemos Rodrigo como o “Padrinho” que ele revela ser. É uma cena fantástica, cheia de emoção e com o toque que só Jeremy Irons e a sua voz são capazes de oferecer. O plano está delineado e é simples: Todos vão pagar pela traição e a vingança começa agora. Mas “the boys will be boys” e Cesare e Juan Borgia (David Oakes) não conseguem evitar lutar pelo cargo de filho favorito. Quer seja para provar ao pai quem deveria liderar as tropas (Cesare), quer seja para afastar os rumores de filho menor, bastardo (Juan). No fim da primeira batalha, o primogénito sai vencedor (Juan parece ter aprendido a manejar a espada entretanto, tinha ficado com a ideia de que era bem inferior ao seu irmão nessa arte), mas o Gonfaloniere vence a segunda, à sua maneira pelo menos. Uma guerra que não terá, de certeza, o seu fim num futuro próximo. Vai valendo Micheletto, com o seu timing e sabedoria, para evitar males maiores.

Também novidade é o amor de Rodrigo pela caça (para o qual não parece ter muito jeito), mas as revelações sobre os seus gostos não ficam por aí. Antes de descobrir que Vittorio era na verdade Vittoria (excelente casting de Jemima West!), Rodrigo parecia encantado com o “rapaz”, encanto que não desapareceu depois de descoberto o segredo “do” aprendiz. Limitar Rodrigo a títulos como bissexual ou até pedófilo seria demasiado limitador, prefiro interpretar este caso como afecto pela beleza, beleza que ele vê num homem, mulher ou criança. Giulia Farnese, com a beleza de uma estátua mas com uma mente de um rei, continua a acumular sinais de perda de afecto pelo seu Rodrigo. La Bella não se dá por vencida no jogo das atenções e, tal como todos os peões neste tabuleiro, tem sempre um plano de reserva: “Se não podes vence-los, junta-te a eles”, e assim ela o fez. Afinal de contas estamos a falar com a deusa da magia e da sabedoria, mesmo que Vanozza (Joanne Whalley) tenha dado uma pequena ajuda.

Por terras de Nápoles temos um Rei Charles VIII (Michel Muller) disposto a não seguir as pretensões dos Borgia e fugir da terra amaldiçoada, limitado a uma cadeira de rodas mas sem nunca perder o seu sentido de humor e sadismo (a visita guiada pelas masmorras é outro grande momento!). Rei debilitado por uma peste que o príncipe Alfonso (Augustus Prew) espalhou para afastar os invasores. Que saudades tinha eu da voz, gargalhada, estranheza e maneirismos deste louco príncipe, herdeiro também da loucura do pai, e que pena tenho eu do seu escuro destino nas mãos do rei bélico.

Rodrigo: “Vengeance will be ours…The Sforzas, their betrayal of our papacy shall be avenged…We are family! We are one! And we will only triumph as one!…We would restore Rome to its former glory. Under the Borgias it will shine as it did beneath the Caesars.”

Esta temporada começa com um ritmo bem mais acelerado. Não parece a mesma criança que partiu há uns meses, amadureceu e está a passar por uma adolescência excitante. Os nove episódios que lhe antecederam foram a versão light do que aí vem e há agora uma grande variedade de locais, planos e intensidades. Num momento estamos a ver o pobre Alfonso a fugir como um mero plebeu nas redondezas do Versúvio, no seguinte temos planos bonitos de flores a cair sobre uma corrida de cavalos (atrevo-me a dizer que este episódio teve mais acção do que toda a primeira temporada junta). Todo o elenco esteve aqui e novas caras se juntaram à festa, para este regresso que provou ser grandioso. Continuará assim? God, I hope so

Notas finais:

  • Desculpem-me o atraso e a extensão do texto, mas havia tanto a dizer que não consegui esconder a excitação por este belo retorno. É de facto motivo para toda a Roma festejar.
  • Arrependido de ter dado 9’s na primeira temporada…preciso de uma nova escala agora.
  • O pormenor da estreia ter sido a 8 de Abril, domingo em que se celebra a Ressurreição de Jesus Cristo.
  • Neil Jordan, criador da série, repete a tradição da primeira temporada: dirigir os dois primeiros episódios. Por mim realizava todos.

O Melhor: Um grande regresso! Uma reforma que melhora a série em todos os aspectos.

O Pior: Se tiver mesmo que referir algo, que seja o facto de todos os personagens terem deixado crescer o cabelo.

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