The Borgias: 2×02 – Paolo

[SPOILERS] Depois do primeiro episódio, a série praticamente começa do zero em termos de expectativa. Conseguirá manter o mesmo ritmo e qualidade? Ou vai acalmar e voltar mais às suas “origens”? Pois bem, foi mais o primeiro.

O grande momento em que Cardeal Rovere (Colm Feore), para detectar veneno na sua comida, usa a mesma raça de macaco que o homem que o tenta envenenar usou quando os papéis eram invertidos. Acham piada as freiras e achamos piada nós. O bom cardeal desde que matou o espião no confessionário parece ter perdido o pudor ao derramar de sangue, e embora o seu ataque muito James Bond aos dois vilões (aquele pau muito mal afiado jamais penetrava o peito daquela maneira, arremessado àquela distância, mas pronto), é bom ver que ele está alive and kicking! Rovere é mesmo um osso duro de roer e apesar da sua posição frágil, de certeza que voltará a dar dores de cabeça aos Borgia.

Paolo (a confirmação que faltava aos terríveis penteados que assolam esta season) parece ainda não conhecer o ditado de que “todos os caminhos levam a Roma” e pergunta a direcção para o filho que nunca viu. Confesso que a sua primeira aparição não me deu grande excitação, achei-o das personagens mais fracas da temporada passada porque não lhe vi grande utilidade. Outra personagem na mesma categoria é Úrsula (Ruta Gedmintas), que chegou mesmo a ser intolerável com tanto choradinho e indecisão. Desta vez, Cesare (François Arnaud) foi bem mais duro com ela, cometendo blasfémia e violando os votos que a freira tinha feito. A atitude pode ser explicada por simples frustração? Ou todo aquele amor passou a “ódio” e revolta por ela continuar a fugir de um amor certo? Seja como for, são duas personagens que merecem uma nova oportunidade, ou mereciam, não fosse o destino que o pobre plebeu “mereceu”.

Dois voltam e dois partem. Alfonso (Augustus Prew), apesar de aparições breves, sempre foi um favorito meu. Saber que aquela noite de indescritível e inimaginável tortura ditou a sua morte deixa-me triste, vai deixar muitas saudades. Quanto a Paolo (Luke Pasqualino), era impossível não torcer por um final feliz para este amor tão imaginado nos contos de fadas, mas tão condenado pelas diferenças sociais. Adivinhava-se tempos difíceis, sem poder ver o filho e Lucrécia (Holliday Grainger), mas não suspeitei que o seu fim chegasse tão rápido. Tivesse ele morrido há dois episódios atrás, durante as chicotadas, e não teria sentido pena, assim é difícil não ficar revoltado com o desfecho. O episódio tem o seu nome e roda à sua volta, à volta de um personagem que conquistou mais neste episódio que nos restantes. Com certeza esta morte terá uma importância bem grande mais para a frente, na altura em que Juan tiver de responder pelas loucuras e o apoio da irmã não surgir.

Rodrigo (Jeremy Irons) já tinha uma vida bem acima do razoável mas, todos os rapazes vão concordar comigo, melhorou imenso agora que conta com duas donzelas na cama. As suas atenções focam-se agora noutra direcção, o povo.

He knows who Rome is. Rome is the mob. He will conjure magic for them and they will be distracted. And he will takes their lives. And he will take their freedom. And still they will roar. The beating heart of Rome isn’t the marble of the Senate. It’s the sand of the Colosseum. He will give them death. And they will love him for it.

Este excerto é do “Gladiador”, mas bem poderia ser aplicado aqui. Rodrigo não organizou as celebrações para enganar o povo, não quer trazer a gloria de Roma para o seu próprio beneficio, mas por ela, pela “multidão”. Para isso tem de conhecer as suas necessidades, conhecer a realidade de um povo que dorme ao relento em condições desumanas, enquanto olha para cima e vê os nobres a comer com essas coisas estranhas chamadas “garfos”, banhados a ouro. E, tal como Jesus Cristo andou no meio dos seus semelhantes, também o Papa percorre a noite para saber mais sobre aqueles seres que são donos, como ele, de uma alma imortal. Vê-se aqui muita da personalidade de Rodrigo, das suas origens, vive há muitos anos no meio da abundância mas tem origens humildes. Quando o ambiente mais leve assim o permite é um Rodrigo mais descontraído, brincalhão e sem peneiras que surge aos nossos olhos. Com a ajuda da pequena Vittoria (Gemima West) para lhe sussurrar num ouvido o que vai na mente do povo e com Giulia Farnese (Lotte Verbeek) a segredar-lhe os desvios das contas publicas no outro, não tenho dúvidas que a ordem vai ser imposta rapidamente.

Rodrigo: “You have been in charge of the office of public works for how many years?”
Cardeal Versucci: “As long as I have been cardinal, Your Holiness.”
Rodrigo: “Two decades then…After which time the orphans of Rome find themselves destitute, and the cardinal has built himself how many palaces?”
Cardeal Versucci: “Three.”
Rodrigo: “You see the irony there?”
Cardeal Versucci: “The poor will be always with us, Your Holiness.”

Deixei Juan (David Oakes) para o fim de propósito. De todas as metamorfoses, mais leves ou mais radicais, que a nova temporada trouxe, esta é para mim a mais fincada. O jovem Gonfaloniere está cada vez mais instável, mais arrogante no seu posto e, embora respeite muito o pai, a sua atitude é mais desafiadora. Ressente o irmão, não quer ser obrigado a casar, revolta-se contra a própria irmã simplesmente “porque sim”…parece amaldiçoar o próprio nome “Borgia” e disposto a declarar guerra contra tudo e contra todos. Vai contra o Juan que procurava o amor do pai e um lugar de respeito dentro da própria família. Terá ele visto a decepção no olhar do patriarca após o seu falhanço na defesa de Roma e não consegue lidar com isso? A verdade é que deixou de ser um “fraco” e tornou-se uma “ameaça”, quer tenha sido deliberado ou não. Para já é cedo para dizer o que o futuro lhe reserva, mas com este assassinato entrou numa espiral da qual já não se livra.

Em resumo, este é mais um excelente episódio que segue o mesmo rumo do primeiro. Estou a adorar a intensidade do drama, a quantidade de acontecimentos simultâneos, os planos de realização mais “vivos” e dinâmicos (o plano em circulo dos amantes na fonte está fantástico), a evolução das personagens. Tudo está a evoluir. Espero que não tenha sido apenas a mão de Neil Jordan na realização que trouxe a evolução (o terceiro episódio já é a cargo de outro realizador), que seja para continuar.

O Melhor: O momento que a série atravessa. A morte de duas personagens que vão ter grandes consequências futuras. A mão de Neil Jordan. Rodrigo, o homem do povo. Paolo, que teve direito a um episódio de ouro.

O Pior: Apesar de tudo, a partida madrugadora de Alfonso e “deste” Paolo.

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