The Borgias: 2×05 – The Choice

[SPOILERS] Antes do carregar no play, que me iria envolver em mais 50 minutos de arte, pensava este pobre coitado na ironia de um ateu escrever sobre uma série focada na igreja. Depois lembrei-me que a religião aqui não “serve para nada” e a minha alma apaziguou-se.

Mas deixemo-nos de questões filosóficas e mergulhemos no dia-a-dia de uma família que anda muito guerreira e nómada. O trio fantástico Lucrécia-Vanozza-Giulia continua em guerra com os cardeais e a sua usura. Lucrécia (Holliday Grainger) continua a aprender e chega a uma conclusão que já me tinha ocorrido: a religião é a mais fantástica invenção do Homem. Conseguiram estas três mulheres vencer num mundo de homens poderosos? Conseguiram elas fazê-los ver “a luz”? Eu apostava nelas.

Lucrécia: “It is ingenious, when you think of it (a igreja). Like an enormous bank machine. The faithful pay to maintain it in its magnificent splendor, this theatre of redemption. The greater the display, the more they gather from all corners of Christendom, the more they pay.”

Vencidos os franceses, sobram os outros incontáveis inimigos dentro das fronteiras da bota mediterrânea, com os quais Rodrigo e os seus “generais” têm de lidar. Catherina Sforza (Gina McKee) colheu os frutos da efémera aliança com o rei francês e voltou à sua fortaleza, armada com os canhões duplos que fizeram sensação. O Papa não tem memória curta para traições e apressa-se a exigir, através do seu emissário Cesare (François Arnaud), uma demonstração de lealdade da mulher de ferro. Enquanto isso viaja com o Cardeal Ascanio Sforza (Peter Sullivan) para Nápoles, terra dos Medici e de Savonarola, com quem tem assuntos a resolver também. Ainda me causa dúvida a posição do cardeal Sforza nestas disputas, estará ele mesmo do lado do Papa, contra a própria família? Ser-lhe-á assim tão indiferente este conflito? Estes primeiros cinco minutos de episódio representam bem o frenesim que a série atravessa em termos de movimentações, de tramas e localizações. Só podemos ficar contentes, principalmente porque os diálogos não sofrem com isso.

Rodrigo: “We would have her come to Rome and kneel at our feet and have those beauteous lips kiss the papal ring…And you tell that lady that if she does not obey us, we will reduce her fortress to dust and drag her in chains through the streets of Rome. The choice is hers!

A caminho de Forli, para se encontrar com a Catherina, Cesare descobre que Micheletto (Sean Harris) é natural de lá (Cesare: “I can’t imagine you being born, Micheletto, or dying, for that matter.”). Não deixa de ser uma informação importante, principalmente para aqueles que, como eu, duvidam das verdadeiras lealdades do personagem. Ainda cheguei a pensar que pudesse ser um espião francês ou espanhol mas ao vermos a sua humilde família e a história que fabricou para encobrir a verdadeira profissão, as minhas teorias de conspiração acalmaram-se um pouco. Na verdade ele está mesmo a estudar para médico, só que começou pelo final: o estudo aprofundado da morte. Toda a cena foi muito engraçada, com Cesare a desfrutar ao máximo da oportunidade para fazer trocadilhos “anatómicos”. Os olhares de Micheletto foram impagáveis e o ar de gozo de Cesare só desapareceu quando o nosso assassino lhe confessou o assassínio do pai. Micheletto é bem capaz de ser a minha personagem favorita em toda a série. É claro que Rodrigo, Cesare e até Lucrécia têm outro peso em toda a história, mas Micheletto é misterioso, de cara fechada, hábil nas sombras, pouco falador mas sempre com as palavras certas nas alturas certas. Pode-se dizer com toda a certeza que o principie Borgia não conseguiria nem metade dos seus feitos se não fosse este leal servidor. Micheletto, sou o teu fã número um!

Cesare: “He has to learn to wield the scalpel, the knife. To find out where the spleen resides, the liver, the heart.”
Mama: “He is a good student?”
Cesare: “The best.”

O (ex) Cardeal Della Rovere (Colm Feore) continua fascinado com Savonarola e as suas premonições divinas. Foi à procura do aval para encurtar a estadia do Papa no mundo dos vivos e não só veio com a aprovação como com um grande incentivo. Curioso ver como o cardeal é que está submisso ao frei e não o reverso. O ar de fascínio de Della Rovere às palavras proféticas impedem-no de ver a loucura da personagem por detrás delas. O exilado clérigo até pode ter as mais profundas intenções de reformar a igreja, mas a mim não me engana, por detrás deste plano para eliminar Rodrigo está pura vingança. Sinal disso é a sua insistência em usar o mesmo veneno que foi usado contra si, cantarela, o veneno histórico da família Borgia. O que lhe vale é que há sempre alguém inocente que, em nome da fé, se presta a coisas impensáveis.

Não previa eu que a estadia em Forli viesse acompanhada de tanta surpresa, sendo a maior Micheletto. Não o facto de ele ser gay mas o vermos a “entregar-se” assim a alguém, aquele ser frio afinal também deseja alguém. É óbvio que quando se associa sentimento ao nosso assassino é sempre algo muito bruto (os preliminares e o matar de saudades foram o mais crus possível, já para não falar que tudo se passou num cemitério). Tinha notado uma reacção quando Augustino chegou a casa da mãe de Micheletto (até os associei como irmãos, mas ainda não está claro de que maneira estão ligados) e pensei imediatamente numa rivalidade, não o contrário. É mais uma camada adicionada à personagem que só o enriquece.

Entretanto, nos lençóis de seda, Cesare fascina-se pelo espírito de Catherina. Duas personagens tão fortes debaixo do mesmo tecto tinha de dar faísca, foi o que aconteceu. Depois da “sonsa” Úrsula, vira-se para uma mulher que não se ajoelha perante ninguém, excepto se quiser, e sejamos realistas: detentora dos maiores exércitos da romania, de dinheiro considerável e de canhões novinhos em folha, a verdade é que não tem razão nenhuma para o fazer. Destaque para a maneira como a cena no quarto se desenrolou, cheia de sensualidade e desejo, sem nunca esquecer as provocações nas palavras (Catherina: “Is that blade truly necessary? You can stab me with it whenever you wanted.” Cesare: “Is that a promise?”). Este é um envolvimento mais à medida de Cesare, uma guerreira (como ele) em pele de cordeiro (como ele) que promete dar muita luta aos Borgias em geral (I am a freak of nature, Cardinal. An aberration. A free woman in a man’s world). Com certeza esta ligação não estava desprovida de segundas intenções, Catherina é uma estratega nata e usa todo o seu poder para seu benefício. Desde a sua breve aparição na primeira temporada que esta personagem me causou boa impressão e estes últimos episódios vêm confirmar essa mesma ideia. Não é que a série peque por falta de mulheres determinadas e lutadoras (na verdade são praticamente todas), mas Catherina é a única que está no outro lado da trincheira e isso ainda a torna mais especial.

Cesare: “You think I appreciate this game of yours?”
Catherina: “No, but I do. And you did admit Cardinal, the game is mine, the bed is mine, the choice is mine…and for one more night at least, you may be mine.”

Rodrigo teve um papel mais secundário no episódio. Visitou a casa Medici, que vive dias atribulados com a perseguição dos fiéis a Savonarola (Steven Berkoff)  mas nada de concreto saiu dali. O plano de manter os amigos perto e os inimigos ainda mais perto (oferecer a Savonarola o título de cardeal) talvez não resulte neste caso, embora vá resultando com Ascanio Sforza (o sorriso amarelo entre os dois é um grande momento). Enquanto isso, Lucrécia e o seu “gangue” fazem acordos cirúrgicos para conseguir informação fatal com que “enforcar” o inimigo número um dos cofres da Igreja. Vemos estas movimentações, entre cenas e de modo furtivo inseridas na história, mas temos de admirar a astúcia destas três vorazes mulheres. Acredito que brevemente veremos os frutos deste esforço. Até esta altura tínhamos “apenas” um episódio intenso mas morno, cheio de “amor” para dar. E depois veio o final…

Que final arrebatador este. Catherina esteve a empatar o “não” até há chegada do primo Giovanni (Ronan Vibert), até há chegada de reforços que impedissem Cesare de a levar. Lucrécia tinha sofrido muito nas mãos deste senhor e logo ficou prometido sangue para vingar esses tempos. A maneira como Cesare tira a vida, depois de provocado, a Giovanni é tudo menos simplista, diria quase macabra. Não só o lorde cedeu ao “leve penetrar” no pescoço, como sofreu múltiplas facadas enquanto Cesare procurava pelo coração que havia prometido à irmã. A cena em si, seguida da perseguição, já era intensa o suficiente para nos prender mas longe dali Rodrigo dava uma missa, quando Deus o decidiu “agir”. O céu dourado cai sobre os cardeais e os seus pecados, numa cena poderosa, bem feita e cheia de significado. Jeremy Irons, até então mais apagado, brilha intensamente e dá o seu toque dramático, único. É verdade que o Papa não sucumbiu à cobardia dos restantes na altura de salvar vidas, mas o acontecimento em si, que tirou a vida a tantos, e em especial uma ordem sua com responsabilidade directa na morte de uma criança, abalaram-no muito. Vemos um ser sentado numa escadaria, ensanguentado e em lágrimas e quase nos esquecemos que é o rei dos reis. Segue-se um período de reflexão e de greve de fome do chefe da igreja, enquanto o seu filho cai em si e apercebe-se do seu acto.

Rodrigo: “He signalled, His displeasure. We must atone for our sins with fasting and prayer…Until He smiles on us again.”

Não consigo imaginar um final mais fantástico do que este. A série continua a superar-se e não consigo perceber como não conquista mais atenção. O nível de trama anda aliado a uma excelente escrita, um ritmo frenético e com finais assim é difícil ficar indiferente. Ainda não é desta que deixo de me repetir: que grande prazer é ver uma série assim!

PS- Desculpem o uso de tantas citações, mas a verdade é que não me controlo quando a série tem tantos momentos deliciosos.

O Melhor: O final, oh senhores, este final. Micheletto, sempre Micheletto. Catherina Sforza.

O Pior: Novamente, quando se fala tanto de movimentos militares, por onde anda Juan?!

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