The Borgias: 2×10 – The Confession

[SPOILERS] Assim chega ao fim a segunda temporada de “The Borgias”, uma das melhores do ano.

24 horas depois de ter visto Cesare (François Arnaud) a matar o irmão/arqui-inimigo, ainda estou a processar o que vi naquela ponte, nas consequências do acto e no impacto que terá na história. Rodrigo pediu paciência mas obteve tragédia, Lucrécia pediu sangue e viu o seu desejo concretizado.

Ainda está um pretendente a sair do Vaticano, já Lucrécia encontra outro “Ken” para brincar. É impossível não esboçar um sorriso enquanto o jovem pretendente cai nas teias da “experiente” princesa. No entanto aquele “sim” pareceu-me precipitado, considerando as voltas que o assunto teve durante a temporada. É verdade que ela não se podia dar ao luxo de continuar a negar pretendentes, que a “inocência de uma maçã por colher” e o afecto que Alfonso (Sebastian De Souza) demonstrou por ela foram determinantes para a decisão, mas mesmo assim pareceu-me um pouco “apressado”. Aquele olhar no final do episódio, durante a dança, faz antever momentos de ciúme entre este recém-chegado e o eterno amor de Lucrécia, Cesare.

Savonarola resiste mas de nada lhe vale. Se não assina a confissão, há quem assine por ele, aliás, nem sei porque é que demorou tanto tempo até alguém pensar naquilo. Cesare, que vinha todo, e perdoem-me a expressão, pimpolho a contar ao pai as boas novas, esbarra numa muralha de lamentação. Teve de ser Rodrigo a encontrar o filho, no meio dos cães, gatos e prostitutas (faz sentido, lidou com elas em vida, é encontrado com elas na morte). Confesso que ainda suspeitei que Juan pudesse ter de alguma forma sobrevivido e um dia voltasse qual D. Sebastião em manhã de nevoeiro, mas o corpo acaba com as especulações. Ainda está Rodrigo a processar a morte de um dos filhos e é avassalado pela indiferença dos outros dois. Para nós, o ódio por Juan nunca foi um segredo, lidamos com ele em quase todos as cenas em que estes irmãos figuravam, mas para Rodrigo é uma novidade. Sim, havia picardias e disputas, mas sempre interpretadas como desentendimentos entre irmãos, normais, nunca um ódio assim. À dor da perda é somada a dor por ver tal desavença na família, ele que sempre presou tanto. Uma cena fantástica em que Holliday Grainger e Jeremy Irons brilham muito!

Lucrécia: “You asked who would do such a thing. The answer is many people, Father.”
Rodrigo: “Many people, you say? Do you count yourself among their number?”
Lucrécia: “You know what he did to me! What he took from me! And you stood by for the honor of the family. I have wished him dead a thousand times, and now you want me to mourn him?”
Rodrigo: “And you? He was your brother, you show no tears?”
Cesare: “ I wept them all out for him long ago. I watched him fail, and I wept. You should know, you were there, and still you granted him your every favour.”
Rodrigo: “Take yourselves, both, away from our sight!”

No fim, e tal como condenou outros, também Savonarola (Steven Berkoff) arde na fogueira. Mas não parte deste mundo sem mais uma amostra de rebeldia e cospe na cara, literalmente, daquele que mais odeia. Este arco ofereceu uma boa história secundária à temporada, mas custa-me perceber que impacto terá na história global visto que Florença parece ter voltado ao normal e o povo que chamava pelo herético, agora lhe atira pedras. Para continuar a luta fica Della Rovere (Colm Feore), talvez nele esta morte tenha um impacto, mas falharam ao não mostra-lo naquela praça a lamentar a sua morte.

Primeiro foi Lucrécia, depois foi a vez de Cesare brilhar ao lado de Rodrigo. Não esperava que fosse confessar ao pai, pensei que se iria tornar mais um segredo a cair no poço da família, em cima de tantos outros. Mas para Cesare é um pecado demasiado pesado para carregar, para um Cardinal carregar, para um irmão carregar. Para Rodrigo é tudo difícil suportar. Quanta dor consegue um homem sentir e o coração aguentar? Tudo acontece ao mesmo tempo: inimigos morrem na fogueira, a filha está prestes a casar-se, o corpo de um filho ainda fresco e outro prestes a encher-lhe a alma de tristeza. No final fica a ironia de o Papa ter a sua própria versão de Abel e Caim e a imagem de um pai que ignora todos os defeitos do filho e enterra a criança inocente, não o homem culpado. Por muito mal que Juan tenha feito, é impossível ficar indiferente à dor de Rodrigo e ao acto em si, mais uma vez brilhantemente representada.

Rodrigo: “What sins have you committed?”
Cesare: “I have protected the papacy against her enemies when none other would stand his ground. I have made my family strong in the face of those who would weaken it…all this I have done for Rome and the Church, and for you.”
Rodrigo: “Tell me your sins.”
Cesare: “It is this, and only this: I have taken upon my head the act that none other would dare commit…I swore a vow long ago that I would put an end to anyone who brought dishonor on our family, dishonor on Rome, dishonor on you. So you see, Father, the robes of a cardinal no longer sit easy on my shoulders. A cardinal’s ring makes it harder to grip the hilt of a sword.”

Surge então a explicação pela qual Rodrigo não mostra tanto afecto como o primogénito desejaria. Porque é que ele, o filho por detrás do sucesso e honra da família, não é reconhecido em detrimento do irmão que agora repousa sobre o solo. Ao longo destas duas temporadas percebemos que Rodrigo e o filho mais velho são mais parecidos do que assumem ser, talvez por isso consigam tão importantes e brilhantes conquistas. Rodrigo vê na cara do filho a sua personalidade, assim como as falhas e pecados que partilha com ele. Mas antes que um passo em direcção à aproximação possa surgir, um vinho fatal é servido. Também a jornada do jovem Antonello (Jesse Bostick) vê aqui o seu fim, finalmente. Embora seja mais do que óbvio que a morte do Papa não será uma realidade, a tragédia cai muito bem na cena e na história. É o pico de dor e perda que assolou todo o episódio, e tantos foram os que caíram. A primeira temporada acabou com a família reunida sobre o nascimento de um novo membro, a segunda acaba com a mesma reunião sobre um parente “caído”. Uma morte que acaba por coroar a verdadeira lição de representação que Irons deu no episódio.

Esta segunda temporada de “The Borgias” foi do melhor que já vi. A série ganhou um ritmo e intensidade ao longo destes dez episódios que é impossível negar. Novos planos, novos ambientes, novos acontecimentos, novas abordagens e um frenesim de acontecimentos só interrompidos por três episódios mais “leves”. A acrescentar a isto a classe de um leque de actores que se superam a cada episódio. Micheletto é talvez a minha personagem favorita e é impossível ficar indiferente a Sean Harris, Cesare é sempre muito sólido, Lucrécia teve uma temporada mais na sombra, mas sempre que foi preciso não falhou (este final é a prova), e por fim Rodrigo, o senhor que dominou este finale. Jeremy Irons é realmente um actor fantástico e começa a falhar-me as palavras para elogiar esta representação de Rodrigo Borgia. É um prazer vê-lo a trabalhar, ponto. A primeira temporada de “The Borgias” deixou-me a agarrado e um fã, esta segunda conquistou-me por completo e incentivou-me para uma cruzada: colocar o máximo de pessoas a ver esta excelente série que continua a não ter o reconhecimento que merece. Para o ano quero ainda mais Micheletto, mais Machiavelli, uma Lucrécia mais “política” e um inimigo com carisma suficiente para ombrear com esta família de luxo.

Por fim quero agradecer a quem espreitou as reviews aqui no TV Dependente e pedir desculpas aos mesmos pelo atraso delas. Não gosto de deixar atrasar tanto as análises e por isso peço desculpa. Até à próxima temporada!

O Melhor: Jeremy Irons, um “Deus” entre os homens.

O Pior: Esta temporada só ter dez episódios.

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