Two Pints of Lager and a Packet of Crisps (2001-2011)

[SPOILERS] “Two pints” é uma comédia diferente de todas aquelas que estamos habituados a ver. O seu humor – não há maneira suave de dizê-lo – é porco. Anda sempre à volta de órgãos genitais, o coçar de partes corporais, ingestão de coisas “questionáveis”, sexo, gritaria e mais gritaria…pronto, estou a ser um pouco obtuso na descrição, a serie oferece muito mais do que isso a nível de conteúdos, mas tem uma base muito definida – white trash!

Originalmente transmitida na BBC2, mudou-se para o terceiro canal da estação e tornou-se das série mais vistas e bateu recorde de longevidade.

Anda tudo à volta de cinco personagens com particularidades algo distintas mas que de alguma maneira funcionam muito bem em conjunto. Janet (Sheridan Smith) é o centro, a dona da casa que tem o sofá, sim, aquele sofá que é característico de todas as sitcoms alguma vez criadas. Janet é um conjunto de doce com boca destravada, que não resiste a usar o seu peito para se expressar (e é claro que qualquer espectador homem nunca se vai importar com isso). Donna (Natalie Casey), a melhor amiga e a minha personagem favorita, é a única que não está contente por viver naquele pedaço de inferno inútil que é Runcorn. Quer mais da sua vida e parece ser a única a lutar por isso. Mas a sua melhor “qualidade” terá de ser o seu discurso, capaz de debitar o maior numero de palavrões por segundo/quadrado, em todos os decibéis audíveis pelo ouvido humano, enquanto fica quase sem ar.

Gaz…sabem aquele cliché “a personagem que vocês odeiam amar”? Nunca se aplicou tanto como a Gaz (Will Mellor), especialmente se forem mulheres. Esta personagem tem como núcleo o sexo, a masturbação, o coçar de genitália, o sexismo e a ingestão de altas quantidades de cerveja. Todas as suas acções tornam-no quase impossível de gostar, mas vocês vão gostar, quer queiram quer não! (O seu maior medo? Ovelhas…hilariante!).

Jonny (Ralf Little) é um franzino e desempregado rapaz que vive às custas da namorada, Janet. O seu único emprego é comer bolachas e beber umas cervejolas com o melhor amigo Gaz (os momentos destes dois no bar são do melhor que a serie consegue oferecer, as conversas percorrem todo o espectro, desde os vários tipos de masturbação até ao inventor das tartes). Jonny seria melhor descrito como um verdadeiro atraso de vida, mas por outro lado é o único que parece não fazer mal a ninguém durante toda a serie.

Louise (Kathryn Drysdale) é provavelmente a personagem mais dispensável do grupo, serve apenas para completar certos buracos na história e variar um pouco, mas, pessoalmente, torna-se bastante irritante (quando a ouvirem vão perceber) e é um pouco deslocada da mentalidade dos restantes, muitas vezes me questionei porque eram sequer amigos dela.

Outras personagens ficaram para a prosperidade, como a mãe de Donna, Flo (Beverley Callard) e Munch (Lee Oakes), o meio-irmão de Gaz, geniais ambos. Nota: para demonstrar o altíssimo nível social, o primeiro bebé que nasce na série chama-se “Corinthian”.

“Two pints” começa muito bem, tem um bom ritmo, as personagens conseguem criar empatia imediatamente. Tem o verdadeiro dom de conseguir manter-nos agarrados, porque tem mesmo uma história que se vai tornando mais complexa à medida que as seasons vão passando e fazem-nos questionar até que ponto gostamos destas pessoas, sem nunca perder as suas características leves que caracterizam uma sitcom. O drama consegue ser “pesado” por vezes, principalmente nos finais de temporada, mas serve apenas para nos ligar a estes indivíduos, e consegue fazê-lo muito bem.

No final de cada temporada ficamos sempre com aquela impressão que a serie podia acabar ali (pelo que li posteriormente, era mesmo assim, os responsáveis nem sempre sabiam se iam voltar de ferias), mas sempre com um resumo de temporada e um cliffhanger que deixava o futuro das personagens em aberto. Teve vários especiais: um episódio transmitido em directo, musicais, um “filme de terror” e uma reunião especial com outras comédias da BBC. Mas o sumo vai acabando, claro, e as ultimas temporadas, especialmente a 9, perdem aquele fogo inicial.

A inserção de novas personagens nem sempre foi uma adição ao espectáculo, perdeu-se um pouco da simbiose. Fazer-nos gostar de novas personagens é difícil quando as mostram em situações complicadas, sem que nos dessem tempo para nos aproximar delas e criar empatia.

“Two Pints of Lager and a Packet of Crisps” (que nome mais genial e que resume a série tão bem!) é um produto que recomendo por ser tão diferente do habitual. Os actores são bons, o humor é bom, a historia é “complexa” e a linguagem é irreverente o suficiente para ser diferente. Pequenas temporadas, pequenos chocolates que não dão asas a que se vagueie muito à deriva na história, aliás, se pensar bem, não há muitos fillers…vai evoluindo sempre.

Finalizada a série nove, e já sem três dos actores do elenco inicial presentes, a série parece ter sido oficialmente cancelada em Julho deste ano. O final de temporada não foi “satisfatório” para o encerrar da história e não parece haver grande crença que haja um especial que a conclua.

PS– Se gostarem, recomendo também “Grownups”. Uma versão mais cosmopolita, mas mantendo o temperamento destravado. Só tem três temporadas e conta com a mesma protagonista, Sheridan Smith (filmou em simultâneo com “Two Pints”, a partir da sétima temporada).

Melhor: Donna e Gaz
Pior: O inglês cerrado torna mais difícil compreender as falas. A possibilidade de não ter um final conclusivo.

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