Uma casa (de cartas) a arder…

Factos:
– O actor Anthony Rapp acusou Kevin Spacey de agressão sexual. Rapp descreve episódio quando tinha 14 anos, em 1986, em que foi a uma festa em casa de Spacey. Depois de perceber que era o único menor na festa, isolou-se num quarto a ver televisão para lá da meia noite. Mais tarde, quando toda a gente saiu da festa, Spacey (aparentemente alcoolizado) terá tentado seduzir o jovem, roçando-se em cima dele.
– Kevin Spacey fez um comunicado (pode ser lido aqui) em que afirma não se lembrar do ocorrido, admite-se chocado pela descrição e pede desculpas pelo sucedido. No mesmo texto revela ainda ser homossexual.
– Netflix emite comunicado, em menos de 12h, onde afirma estar “deeply troubled” com as noticias e anunciam que a próxima temporada de “House of Cards” será a ultima. Decisão essa que já tinha sido tomada há meses.

Ora, o objectivo deste texto não é comentar as acusações, nem sequer é comentar a resposta de Spacey. O mundo artístico está em completo estado de alerta por obra do senhor Weinstein, um predador sexual com múltiplos testemunhos que o comprovam, e que felizmente e infelizmente relatos semelhantes ganham uma escala ainda maior. “Ah e tal, porque é que uma criança de 14 anos está numa festa bem para lá da meia-noite?!”… pergunta errada que começa a entrar na categoria do “ela andava sempre de mini-saia, estava a pedi-las”. “Ah, mas porque é que o Spacey vem dizer que é gay ao mesmo tempo, é para se safar!”. Não, ele começa por dizer que não se lembra do sucedido, pede desculpa SE realmente isso aconteceu e lamenta que Rapp se tenha sentido assim durante anos. Usa a “revelação” da homossexualidade como exemplo da sua escolha em manter a vida privada. Uma grande parte de mim tem Spacey em alta estima e confesso que esta situação me deixa triste, porque sendo verdade ou não, um caso isolado ou não, esta será sempre uma mancha que vai pairar sobre um actor que tanto gosto. Haveria mais a dizer sobre o caso, a histeria, o oportunismo, a rapidez do julgamento, o deturpar de palavras, o linchamento com lançamento efusivo do falso politicamente correcto, a leviandade como se pensa ainda no abuso sexual no mundo artístico… mas, novamente, não é isso que me traz aqui.

O que me traz é a virgem ofendida de seu nome Netflix. A decisão de terminar “House of Cards” na próxima temporada estava há muito tomada, mas coincidência das coincidências, só agora é revelada. Nada como um escândalo para nos lavar as bentas em água… benta. Toda a gente está profundamente indignada com a suposta intenção do actor em usar a homossexualidade para tentar diluir os seus actos, mas ninguém acha profundamente perturbador que o serviço de streaming anuncie isto nesta altura. Antes de qualquer órgão oficial decidir qualquer coisa, já está a Netflix a empurrar Spacey para a fogueira para mostrar que o palanque é só os puros de alma. “Estamos super escandalizados com estas alegações e por isso anunciamos que a série chega ao fim… programado. Não pactuamos com estes actos, não senhor guarda! Não encerramos já porque somos pessoas de bem, só vamos primeiro finalizar a produção de mais esta temporada e grava-la e tal… e depois acabou-se! Estamos já a desenvolver ideias de spinoffs sobre o assessor de Underwood… mas é aí que traçamos o nosso limite!”. A companhia diz que tudo fará para proteger o elenco e equipa da série, mas não só falhou em fazê-lo com Kevin Spacey como abordar o futuro de um produto seu no meio do assunto é de uma manhosice descarada.

É profundamente triste que nos tempos que correm ainda se atire areiazinha para os olhos com esta categoria. No caso da Netflix é pozinho de ouro de 100 milhões de quilates, mas pó na mesma. “House of Cards” nunca deveria ter ultrapassado a terceira temporada (a subida ao poder, o apodrecer do poder, a queda do poder), mas lá está, vamos espremer a tetinha enquanto der leite, especialmente agora que o pessoal se lembrou que ainda está na roda dos alimentos. A categoria do leite já vinha a descer com vozes criticas de que já não tinha o mesmo sabor (e não tinha), mas usar a imagem das vacas para fechar o negócio quando já se tinha abrido insolvência da quinta na Primavera é triste. Triste para o pastor, triste para as vacas e triste para quem continua a beber do leite.

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