Uma rainha assassina e um índio americano…

O que têm em comum um filme de época e um flick moderno? Nada. Deixem-me ser absolutamente claro, nada.

“Victoria&Abdul” é um pedaço de história (quase), que nos transporta para uma Inglaterra não muito longínqua, onde a diferença de classes se arrasta e dá os últimos cartuchos na divisão totalitária de poder. No centro, uma mulher em caminho descendente, com uma vida que balança entre o aborrecimento do mundano, perpetuado por uma idade que dá asas a pouca dignidade, e um elitismo que só uma rainha pode presenciar, para o bem e para o mal. Abdul é um verdadeiro outsider numa altura em que a Inglaterra ainda tinha uma mentalidade anti-brexit, a de anexar tudo o que era possível, e em que ser estrangeiro era visto com piores olhos que desdenho, os de indiferença. O alto indiano fica ao quebrar o coração gélido de uma velha e mantém-se quando consegue mantê-lo em banho-maria, apesar dos constantes baldes de água fria que uma classe tenta despejar na relação improvável.

“Assassino Americano” é uma tentativa de cozinha gourmet de fusão. Tenta juntar ingredientes que o público parece gostar, como Dylan O´Brien (que tal como Taylor Lautner tenta separar-se de franchises com tudo o que seja possível), e Michael Keaton… porque que filme ultimamente não tem Keaton?! Escolhidos os nutrientes, há que montar de modo bonito usando técnicas sabidas (Bourne + Spy Game + The Sum of All Fears) mas sempre com aquele toquezinho maricas que faz com o que prato tenha sete palavras, 56 sílabas e pelo menos três línguas. Quando se olha inicialmente exclama-se um “eh pah, e tal, sim senhor”, porque até gostamos do cagaçal que estamos a ver (os primeiros 30 minutos) e dá aquela sensação de que realmente vamos provar algo diferente, ou pelo menos bom. O problema é que por detrás do nome e do arranjo, estão batatas do Sr. Arlindo e pitada de salsa do quintal da D. Laurinda! Entretém sim senhora, mas a nossa mãe já nos deu a provar disto quando éramos pequenos… e até já comemos melhor em casa de uma tia uma vez! Assassino Americano é, na mais irónica das definições, um filme justo de seu nome: inspiradíssimo!

Ora vejam vocês a minha chatice, que vi estes dois filmes em double feature. Comecei com uma entrada a pés juntos de Judi Dench, senhora em todo o terreno, de um alcance que abrange o completo aborrecimento e a alegria de menina, num filme bem mais cómico do que esperado e de uma leveza enternecedora. Senhora essa que se acompanha de um também menino, na sua inocência e sorriso fácil, de nome Ali Fazal. Victoria não é um filme de sala, é um filme de sofá quente com manta, mas que nunca deve ser mal ajuizado por isso. Assassino Americano é uma colagem de best hits que tenta acordar-nos a tempo do final, trazendo algo que parece novo mas não é. Este sim, um filme de cinema, porque visto em casa perde o pouco apelo que possui. Os mais atentos podem criticar a ambiguidade do argumento: um ser elogiado por ser leve e o outro criticado pela mesma bênção/pecado. A diferença é que um deixa uma actriz desfilar e oferece algo singular, o outro mete umas algemas em dois actores (que bem se esforçaram, ás vezes) e acaba a dar um tiro na tola.

A vida é feita de histórias, mas só interessa as bem contadas… e não, não foi lapso, a imagem do post é suposto ilustrar ambos os filmes!

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